Wednesday, March 28, 2007

spam

Todos conhecemos a chatice do spam, seja na nossa caixa de correio tradicional (onde de facto podemos pelo menos colocar um pedido Publicidade Aqui Não protegido por lei), seja na virtual. Aqui vim a ter contacto com as agruras de uma outra forma de melgar completamente as pessoas. O Telemarketing. Ele existe em Portugal também, pois claro. Mas aqui ultrapassa os limites da minha paciência. Enquanto não coloco em prática alguns passos muito úteis para evitar que me chaguem o santo juízo pelo telefone, lamento informar que grande parte das vezes não o atendo, sobretudo a certas horas.
As dicas virão no próximo post.
Hoje ficam as pérolas do dia, inaugurando uma categoria.
Fascinam-me os títulos dos mails de spam. Já as cartas da nobreza nigeriana que pede o nosso auxílio não têm piada nenhuma, pois costumam chegar escritas em inglês correcto.

"It conetoe in buckhead."

Monday, March 12, 2007

Manifesto medíocre mas com boas intenções

Não posso bradar aos ventos Morra o apóstrofo PUM PUM. O apóstrofo não partilha as culpas do Dantas. Ah, pois não. Porque eu amo o apóstrofo. Como tal, vejo-me no dever de o defender com unhas e dentes.
Substantivo masculino. Sinal gráfico indicativo da elisão de letra ou letras numa palavra.
Elisão, senhores e senhoras. Na língua portuguesa. E na inglesa também.
Querem fazer-me a delicadeza de parar de o usar nos casos mais disparatados?
O apóstrofo NÃO SERVE para indicar o plural. Em inglês é muito frequente encontrar casos de uso ERRADO do apóstrofo. Um conjunto de computadores pessoais não se designa como *PC's. Argh. Blurp. PC's= Do computador.
Isto é difícil? Não me parece. As hemorróidas são bem piores.

Wednesday, March 07, 2007

"You're not even a nigger. You're an African."

Soco no estômago.
Vergonha.
Continua, apesar dos "nunca mais". No Sudão, por exemplo.

Escutado: "Que culpa temos nós, ou que responsabilidade temos se se dedicam a massacrarem-se uns aos outros?"
Parece que a ideia é bastante flexível quando outros têm petróleo, diamantes...Aí organiza-se uma intervençãozinha.

Palavras que ficam e esfaqueiam a alma.
We're here as peace keepers, not peace makers.
You're not even a nigger. You're an African.

Sunday, February 25, 2007

A morte saiu à rua num dia assim....



Ah...entrei no blogger...por portas travessas, mas cá estou.
Escutava ontem abismada a lembrança da partida do Zeca há vinte anos atrás. Vinte anos. Acho que é a primeira vez na vida que me dou conta da minha idade. Que saudade.
Ficou frustrada mais uma tentaiva de ilustrar o post com a música, mas fica a lembrança da do título.

Tuesday, February 13, 2007

Escutando e não podendo partilhar Portugal, Portugal, de Jorge Palma

Ouvi ao longo dos anos chamarem-me portuguesa de segunda, digo, branca de segunda. Não foram muitas as vezes. Não há, por parte dos enunciantes, culpa alguma dos eventuais escaldões que brindam algumas lusas peles que de celtas guardam mais marca epidérmica. Porque não sou dada a escaldões, apesar do claro tom poder induzir em erro. Se vermelha fico, tal camarão cozido, dura um, dois dias. Depois fico castanha. Como me convém, fica bem e dá ar saudável. Sou então, em tempo de estio, linda morena, muito obrigada. Estou-me a cagar para o tom de pele. Gosto de paletas variadas em sentidos diversos, e, apesar da miopia, a íris cansada mas dotada de alguma inteligência agradece a diversidade. Porque nela cresci e me fiz. E nela criarei filhos, se os vier a ter.
Ora descubro há dias atrás, praticamente em cima da hora, que de nada me serviria ir até ao consulado mais próximo exercer um DIREITO e DEVER.
Os cidadãos com nacionalidade portuguesa que se encontrem, por qualquer motivo que seja, ou pelo período de tempo que for, fora da nossa faixa estendida junto do Atlântico, não puderam votar no referendo sobre o aborto. Disseram os senhores de toga, apoiados por partidos políticos, que não fazia sentido esses mesmo portugueses(?) se manifestarem sobre um assunto que não lhes dizia directamente respeito, não os afectaria, visto não usufruirem do sistema nacional de saúde.
Mas para eleger governo, deputados para assentarem cús, digo, arraiais no Parlamento Europeu e afins, para isso estamos cá, a bem dizer. Nem sequer me dou ao trabalho de perguntar por que porra não posso votar. Eu, que nem sequer anulei, e disso faço questão, a minha inscrição como eleitora no círculo geográfico que continuo a considerar casa, no litoral alentejano. Fá-lo-ia este Domingo, para poder obedecer à minha consciência e votar.

Saturday, February 10, 2007

give some love II

Dificuldades técnicas impedem a presença do vídeo aqui. Assim sendo, fica o link.
http://www.youtube.com/watch?v=kaXCu9q2k1w

Não me consta que tenha leitores em Moura ou arredores.
A maior dificuldade da Associação S.O.S. Animais de Moura reside na ausência de voluntários. Há alguns dias atrás, um dos corações grandes que ajuda estes animais dizia-me que ir lá é deprimente. Recordei-me de uma personagem que preciso rever o mais breve possível, apesar do sofrimento que traz. Billy(?) Kwan, do filme, The Year of Living Dangerously, desempenhada pela magnífica Linda Hunt. Uma frase sua persegue-me. What then to do. Escrevia ele isto num frenesim que martelava as teclas da sua máquina de escrever. Talvez alguns se sintam ofendidos pela comparação. Não a lamento. Nunca o farei. Sou um animal, tal como eles. Não valho mais do que eles. É isso que penso. É isso que sinto. É isso que digo e escrevo, e não me desculparei por tal.
Dizia Ghandi que a evolução de um povo se vê através da forma como ela trata os seus animais. A afirmação pode ser perigosa, se pensarmos nos nazis e seus sorrisos e alegria junto dos seus cães e cavalos.
Digo eu que Ghandi sabia muito bem do que falava, e que o problema não está na sua afirmação.
Voltando atrás, compreendo o que a alma amiga quis dizer ao afirmar que era deprimente lá ir. Creio, no entanto, que para quem tem algum tempo disponível ( e ele faz-se, também, consoante o nosso coração), pode ser uma benção. Pode ser triste ver animais que ali foram deixados, por vezes em tão mau estado. Mas que fazer então? Voltar as costas? Sentarmo-nos no sofá e ver mais um capítulo? Claro, podemos fazê-lo. A maior mentira circulando por aí é que nada podemos fazer. Podemos sempre fazer algo. Sempre. O que estiver ao nosso alcance. Isto vale, obviamente, para tudo. E não pedirei desculpas a quem me diz que é triste que me preocupe mais com cães do que com pessoas, porque quem isso diz 1. não me conhece; 2. não se conhece.

Se se encontra na referida zona e gosta de animais, visite a Associação, e decida se pode ajudar. Se os voluntários fossem suficientes, não haveria sobrecarga para ninguém.

Wednesday, February 07, 2007

A última resistente verde cá em casa, se dermos desconto ao rapaz sportinguista (enfim, há que compreender, ninguém é perfeito). Na primeira ausência prolongada, a presença providencial de vizinhos proporcionou o albergue das plantas que teimavam em subsistir, apesar da minha fama de assassina botânica. Não gozem, faz favor, amo plantas. A sobrevivência tenaz do bambú faz pensar na tenacidade oriental. Sendo bicheza de água como eu, aguentou-se no vaso fundo, que conseguiu manter o líquido vital naquelas duas semanas fatais de abrasador Verão. Que é insuportavelmente quente por estas bandas.





Eu tentei, juro. Prestes a partir, enviei com desvelo de mãe a minha hortelã-pimenta para casa de um amigo, que prometeu encharcá-la em água todos os dias.
Perante a aparente distracção que o levou a não ma devolver, acobardo-me e não pergunto por ela, presumindo-a morta no seu varandim citadino.



Sinto a falta imensa de verde dentro e fora de casa. É que em casa - a casa casa - vive-se no jardim botânico. Uma autêntica selva, com caprichosas trepadeiras envolvendo e engolindo escadas, com mudinhas de espécies improváveis. Plantas, muitas plantas, por todo o lado. E mata-me a saudade deste verde corredor que vai ter ao mar. Lá longe. Pouca lonjura para uma pequena Europa. Mas longe, porque estão sempre demasiado longe os afectos que não estão ao alcance da íris e do braço que afaga.




Tuesday, January 30, 2007

gagged, or an implicit list of complaints


Falou bem o Mega Ferreira referindo-se a Pessoa (a propósito da presença do mesmo nos dez finalistas para o programa O Maior Português de Sempre): escreveu sobre tudo, rigorosamente tudo. O que pensava, fazia-o escrevendo.
Quanto fico aquém. Uma inércia cristinina. Aqui, porém, soma-se a censura auto-imposta pelos olhares indiscretos. Olhares que não foram convidados pelo meu, mas sugeridos inadvertidamente, sem malícia. O cozinhado está pronto. É sempre possível adicionar-lhe sal quando o sentimos insosso. Quando o sal é demasiado, porém, não há muito a fazer, a não ser preparar água para lavar papilas gustativas.
Há algo bloqueando também o fluir destas letras em particular. Tenho uma necessidade absoluta de música para ilustrar alguns tópicos. Será simbiose ou parasitismo meu, que a maior parte das vezes recordo ou conjecturo através dos sons que me oferecem os músicos?
Enquanto a questão não se resolve, os sons ficam só em mim. E eu gosto de partilhar.

Saturday, January 27, 2007

give some love

Este venerando senhor chama-se Tejo. A foto foi roubada, mas por uma boa causa.
Circulam pela internet muitos pedidos falsos de ajuda, que nos enchem a caixa de correio electrónico, com pedidos sempre urgentes de sangue de tipo raro, de dadores de medula, de emails em cadeia que devem ser enviados a um número grande de pessoas para que os progenitores de uma criança doente possam receber dinheiro proveniente dos servidores de internet. A esmagadora maioria é fraude.
Há, no entanto, muita coisa a fazer, até na internet, se quisermos ajudar algumas causas.
Em breve estarão aqui links onde o poderá fazer.

Hoje peço somente que visite o site www.sosdosanimaisdemoura.com, que acolhe neste momento 133 cães, dos quais apenas 17 estão apadrinhados. Todos eles aguardam também adopção. A instituição atingiu um ponto grave, correndo sérios riscos de ter de encerrar.
Sei que poderá estar fartos de apelos. Muitos destes animais, além de abandonados ou rejeitados por não servirem os propósitos para que foram adquiridos, foram maltratados. Há muito que pode ser feito. Pode ser sócio por apenas 1, sim, leu bem, 1 euro por mês. Pode apadrinhar um animal, toda a alimentação para um mês custar-lhe-á 12 euros. Se viver na região, pode voluntariar-se para ajudar a tratar destas gentis almas.
Eis o link do tópico aberto num dos foruns da Companhia dos Animais, onde poderá conhecer melhor a dura situação vivida por esta associação e, oxalá, escolher levar um destes seres maravilhosos consigo, ou, se tal não for possível, pelo menos ajudar.
Bem hajam.

Friday, January 26, 2007

despir o olhar





Esta era a vista da varanda. De Verão, certo, admitamos. Em plena pujança da folha.


Há dois dias que sou despertada pelo som inconfundível de uma moto-serra. No Inverno passado podia ter-se dado uma desgraça na propriedade por trás da residência, com a queda de árvores durante tempestades que assolaram a região. O verde era tão intenso no meu campo visual que nem no Inverno eu havia vislumbrado a casa que se escondia por trás de venerandos pinheiros cuja idade não me atrevo a imaginar.


Imagino que terão bons motivos - sobretudo de segurança - para cortar as - creio - centenárias árvores, mas não deixa de me doer. Muito mesmo.


Agora, pelo menos por enquanto está assim...


Tuesday, January 16, 2007

Sophie's Choice


Raras vezes prolonguei tanto uma leitura amada. É certo que o livro é relativamente extenso, mas o stretching foi consciente, destinado a alongar o prazer da leitura. Um raro caso em que a adaptação cinematográfica é magnífica. No livro, porém, e como seria de esperar, fico a conhecer muito melhor Sophie, as suas outras escolhas em tempo de terror. Terror que não termina com desembarques heróicos, com libertações de campos. Terror gravado na pele, muito além de números no pulso.
Já no final, acrescenta-se um outro meu terror. O vocabulário de Styron é rico, pleno de lemas pouco comuns no inglês coloquial, assim como de termos em outras línguas, yiddish, alemão, francês. Surge-me então algo que me faz piscar os olhos, já incerta do funcionamento de neurónios a hora tardia, preocupada com a escassa luz. Terei lido bem? "auto de fé", escreve Styron. Sou confrontada depois com o que me é dito ao lado, "deve ser espanhol, naturalmente". Não. Não é. Fé não tem acento em espanhol. É portuguesa, a expressão. Consequência de leituras impressionantes que terá feito sobre a Inquisição lusa. Porque muitas leituras fez sobre a perseguição já milenar a um povo. Como a muitos outros. Elie Wiesel recorda-nos o que foi dito aquando da revelação ao mundo dos horrores dos campos de concentração da Guerra II. Já não há numeração romana que valha à catalogação de horrores. Disse-se, na altura: Never again. Há que divulgar e conhecer, ousar tentar, apenas tentar, compreender. Um pouco que seja. Para não repetir. Para aprender.
Não adiantou de nada.
Continua. Não noticiado. Todos os dias. Aqui, por exemplo, www.darfurgenocide.org/.

Tuesday, January 09, 2007

O que os ventos trazem



Não, não é o projecto espacial russo.

É mais uma maravilhosa iniciativa movida pela energia eólica deste


Como não amar o vento, ainda que gélido, violento, seco ou quente, quando é ele que empurra as barcas pelo mar afora? O meu mar, como sabem.

Navegar é preciso.

Sunday, January 07, 2007




Bem hajam os carrinhos de bagagem nos aeroportos. E bem hajam os gajos que fazem as gajas sorrir perante o desabar do lugar comum do excesso de bagagem associados a gajas. Gosto de desconstruções e mudanças de paradigma.


Nas férias sempre caóticas há que parar obrigatoriamente em salas de cinema. Porque neste país há pouca coisa em língua original. Muito pouca. Ficam além do alcance da minha pessoa quiçá que obras primas em japonês, coreano, chinês e por aí adiante.


Acabei por não ir ver um dos dois filmes que tinha anotado como "obrigatório ver em tela gigante", a saber, Babel. Mas paguei bem cara a obrigatoriedade deste:






Cometi pecado mortal tendo de interromper por um bom quarto de hora, ou mais, já nem sei, tentando evitar um deslocamento de retina ou desperdício de jantar (absolutamente delicioso, no Psi, restaurante vegetariano lisboeta, junto do Hospital dos Capuchos, com direito a jardim e cascata zen).


A sala tem um écran absolutamente gigante. Foi giro. Os outros sorriam perante a gaja a sair às pressas- olha, esta não aguenta a violência - e eu fula da vida, repousando olhos lá fora, fumegando - obviamente, cigarros portugueses - ah, lamento imenso, mas gosto muito de fumar. So, shoot me... bah. Mas, oh gaja, então num cinema com tanto lugarzinho livre, não teria sido muito mais simples mudar de lugar, para a parte mais anterior da sala? Teria. Se a parte anterior não fosse a área VIP, que fornece serviços indispensáveis como champagne por uma quantia do caraças. Podiam é enfiar o disclaimer nos bilhetes da área normal: Não nos responsabilizamos por eventuais danos ópticos durante a visualização do filme. Porra para as modernices, quero uma sala de cinema à antiga, pelo menos já vou avisada, e desde que não me sente por baixo do balcão (área adequada a audazes e masoquistas, com direito a eventuais escarradelas e papéis variados - com sorte você apanha com o papel que embrulha a pastilha super gorila, e não com a dita cuja - , vejo o meu filme descansadinha da vida. Ainda assim sou uma afortunada, tenho em casa uma tela deliciosa.


Excelente filme - aca, nunca mais lá chegava. Publicidade enganosa de trailers e promotores. Não, não é lançada teoria àcerca dos últimos dias da civilização maia. A história foca a vida de um homem. Um. Da sua mulher. Do filho pequeno e do vindouro. O fim dos maias? Vemos barcos castelhanos ao largo da costa. E pensamos num misto de terror e algo que não chega a ser alívio que no karma colectivo os espanhóis têm talvez mais horrores a purgar, tendo alcançado a proeza horrífica de, em algumas regiões, não terem deixado uma só alma para contar a história. Os portugueses não agiram de forma muito diferente. Provavelmente. Triste. Pesado.
Questionei-me por instantes se o catolicismo do realizador influenciou a crueza com que mostrou os maias. Deve ser paranóia minha. Provavelmente.

Na minha pausa forçada fui tirando fotos ao delicioso cenário kitsch, a saber:
(Sim, a fotografia está torta, naturalmente. também eu estava, e de que maneira....)

(Chiça, esta era de facto escusada...)

Os outros dois filmes no post seguinte.

Tuesday, December 19, 2006

The Lake House

Remake do filme sul-coreano Siworae (também conhecido como Il Mare).

Os críticos devem cair-lhe em cima sem piedade. E compreendo-os.

De forma que não posso realmente justificar-me. Não sei por que raio gostei deste filme. E gostei mesmo. E gosto, presente do indicativo.

Não há tentativa de explicar a hipótese de quarta dimensão. Diverte-me imenso a utilização hiper-prudente de palavras e afixos como hipótese, para-, sobre-...

A embrulhada da linha temporal não é dissecada. A câmara segue tão somente as emoções. E nem aí o faz de forma sublime. Mas continuo a gostar.


Friday, December 15, 2006

Recordo bem um Natal passado em Coimbra, teria talvez quatro anos. Não entendia por que motivo minha priminha, mais velha que eu, ria pela minha ansiedade, enquanto nos faziam aguardar a meia-noite num quartinho. É claro que os barulhinhos que eu ouvia vindos da sala só podiam ser obra do Pai Natal.

Estou certa de que também os Correios portugueses recebem muitas cartas endereçadas à figura, que hoje já nem é São Nicolau, coitado, mas o barbudo com as cores convenientes da Coca-Cola.
E perantes tal enchente de cartas belíssimas e comoventes, fica aqui a iniciativa maravilhosa,
mesmo que este ano já seja um pouco tarde para encomendas transatlânticas.
Iniciativa a copiar descaradamente.

http://www.correios.com.br/institucional/conheca_correios/acoes_cidadania/papai_noel.cfm

Sunday, December 10, 2006

Há semanas atrás:




Lixe-se que venham aqui parar anormais por causa do título do filme. É diferente, curioso. E necessário. Não há um caminho de introspecção e busca de raízes do que acaba por ver, após muita negação, como um problema. Só distraídos poderão ver o filme como mera comédia.
Não faço ideia se o filme de Caveh Zahedi passou em terras lusas.


Este fim-de-semana:


De Jonathan Demme. Maravilhoso. Pesado. Não aconselhado a paranóides declarados.
Em Portugal tem o título O Candidato da Verdade. Bem, há piores opções de títulos.

Wednesday, November 29, 2006

De traços somos feitos - I

Esperava vislumbrar, entrando na sala iluminada de cores improváveis, uma figura bizarra. Talvez fosse mesmo uma exigência sua, além de esperança, encontrar uma mulher de saia impossivelmente comprida, lenço cor de fogo segurando os cabelos, mil e uma pulseiras chocalhando nos braços, longos dedos, todos eles anelados. Tivera o prazer desta visão passeando-lhe pela imaginação, a antecipação do efeito estético que causaria, mãos, dedos e anéis de pedra colorida, pegando as suas mãos, virando-as, percorrendo a palma, descortinando as linhas, uma a uma. Queria uma quiromante que houvesse herdado algum saber milenar, não uma curiosa new age que tivesse frequentado trinta e dois cursos dos eventos ocultos, palestras e workshops nas primeiras sextas-feiras de cada mês, inscrição 20 euros, com direito a amuleto benzido por mestre Yogi.
As lâmpadas coloridas, essas viu entrando na sala, já contente, como contentes ficamos quando vamos encontrando pelo caminho as placas de localidades tal e qual nos indicam os mapas.
A primeira surpresa foram os brinquedos no chão. Entrando em lugar assim, a última coisa que nos ocorre é olhar para baixo, controlando o itenerário preciso dos nossos pés; seguimos a linha horizontal que o olhar nos proporciona.
A curta caminhada é interrompida pelo craque vindo de baixo e pelo desconforto de algo duro sob o pé, primeiro compacto, em seguida multiplicando-se sonoramente por diversos pedaços. A luz não é clara na sala do oculto, e ele tem de se baixar para descortinar uma miniatura de carro de bombeiro, agora desfeita; soltou-se a mangueira, partiu-se o vidro frontal, jaz por ali uma porta vermelha.
Não tenta recolher os despojos, mas pede desculpa instintiva e imediatamente, sem obter resposta.
Os olhos voltam a focar a linha que a sua altura permite.
Há mesa, sim, redonda como esperava, mas em vez de mulher aciganada vê um miúdo. Filho da madame, certamente, são sempre madame qualquer coisa. O miúdo fala, a voz chega-lhe desfasada da imagem, sólida, não a infantil que se espera. A voz vem igualmente destruir a esperança no acerto da idade, as coordenadas são falaciosas, nenhuma criança tem uma voz assim.
Pensa entrar na brincadeira e senta-se, como se acreditasse de facto ser consultado por ele, como se não soubesse que dali a pouco, a qualquer instante, entrava pela outra porta
desculpe a demora, o meu filho incomodou-o?
uma mulher de lenço sobre vasta cabeleira e saia rodada, arrastando pelo chão.
A voz impossível do miúdo não se volta a ouvir, e isso fá-lo perceber que não tem ideia do que ele havia dito instantes antes.

Sunday, November 26, 2006

A Visita Matutina


Não, este não se tornou um blog de bicharada. Quer dizer, não mais do que a habitual. Também me considero bicheza.
O cinza felpudo já me anda a visitar há algum tempo, sábio que é do que me sucederia num futuro próximo. Exactamente na manhã em que o seu felino presságio tomou forma, atreveu-se a entrar enquanto eu continuava a teclar, passando por trás de mim e iniciando a sua inspecção da casa. Quando vislumbro, pelo canto do olho um volume escuro movendo-se e questiono o meu estado psíquico, dou com ele, indiferente ao meu espanto, como indiferente continuou perante os meus educados pedidos para que saísse (vive certamente na casa por baixo desta). Nos últimos tempos via-o na minha varanda, mirando-me sedutor através do vidro. Compreendi a sua mensagem e carinho, mas são de evitar confrontos com vizinhança, sobretudo quando esta já está algo ..."alterada" e aproveita qualquer momento em que me ponha a vista em cima para, além de me fazer um inquérito completo, me contar acerca de vidas alheias. A coscuvilhice escapa-me. De todo. Não que as pessoas não me interessem. Mas não tenho sede de vasculhar misérias alheias.
O senhor da foto é um exemplar muito semelhante ao meu visitante, estarei sem máquina fotográfica durante uns tempos.

Sunday, November 19, 2006

certos post-its funcionam melhor que outros


Amanhã é dia de tratar da roupa.

Sunday, November 12, 2006

Doidinho



Já não lia José Lins do Rego há uns bons anos, após Riacho Doce e Cangaceiros. Cada um deixa-me sempre a doce vontade de ler tudo o resto que ele nos deixou. Tenho um estranho fascínio pelo sertão nordestino. Recordo a primeira vez que entrei na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Minto. Já lá tinha estado umas outras duas vezes,talvez, meu avô e minha tia levaram-me várias vezes a visitar diferentes locais no polo. Recordo agora especificamente a primeira vez que lá entrei já como estudante. Devo lá ter ido em busca de algum artigo obscuro, necessário para preparação de matéria. De que matéria se tratava, não faço a menor ideia, visto que uma vez lá entrada me deparei com os maravilhosos arquivos arcaicos, dispostos segundo diferentes tipos de organização, é certo. Pouco tempo depois já lá estavam, claro, os computadores dispostos ao longo de longuíssismas pareds, mas confesso que apesar de ser grande - e eficiente, if I may add - utilizadora dos mesmos, tomava conta de mim a vontade de discorrer com dedos as antigas fichas de catálogo. Corredores de autores, corredores temáticos. Os meus propósitos de estudo foram naturalmente por água abaixo. Em vez de buscar Goethe ou a clausura progressiva das vogais do português europeu, finquei pé junto das gavetas letra S, sertão, saciando sede de secas terras. E foram tardes fantásticas, aquelas, como as eram também no Instituto de Estudos Brasileiros, esse já dentro da faculdade, imersa nas aventuras de Dadá e Corisco, Virgulino e Maria Bonita, nas canções que imortalizavam os feitos do cangaço.


Se é inteiramente autobiográfico este livro, desconheço por ora. Mas é-o em grande medida.





(ilustração de literatura de cordel nordestina)

Topei com esta breve crónica do autor, e não pude evitar, na minha neurose inofensiva para terceiros (segundo informações a que dou crédito)que me faz estabelecer relações entre tudo e mais alguma coisa, desejar escrever também algo com este título. Pronto, está bem, o adjectivo desapareceria, admito.

"Adeus, doce França

Volto hoje às minhas criaturas, aos rudes homens do cangaço, às mulheres, aos sertanejos castigados, às terras tostadas de sol e tintas de sangue, ao mundo fabuloso do meu romance, já no meio do caminho. Os dias de França me deram uma sensação de pausa, de espanto, de novos contactos sonhados desde menino. Vi terras por onde andaram os doze pares de França, os heróis do meu Carlos Magno, lido e relido como história de Trancoso. Vi terras do sul, o mar Mediterrâneo, o mar da história, o mar dos gregos, dos egípcios, dos fenícios, dos romanos. Mas o nordestino tinha que voltar à sua realidade, à realidade maior que a história do mundo, isto é, à história dos seus homens, dos cangaceiros brutais, carregados de vida bárbara, de instintos cruéis de uma força, porém, que não se extingue nunca, porque é a energia de uma raça de homens mais duros do que as pedras dos seus lajedos. Volto aos "Cangaceiros" e desde logo tudo o que vi e senti se refugia no fundo da sensibilidade, para que a narrativa corra, como em leito de rio que a estiagem secara, mas que as águas novas enchem, outra vez, de correntezas. Volto ao terrível Aparício que mata igual a um flagelo de Deus, ao monstruoso Negro Vicente, ao triste Bentinho, ao místico Domício, aos umbuzeiros carregados de frutos, aos mandacarus de floração de sangue, aos cantadores de estrada, às mulheres sofredoras, às noites de lua, aos tiroteios, ao crime e ao amor, à poesia barbaresca e vigorosa de um povo que é maior do que a terra que o criou. Volto contente e disposto a tudo. Adeus, doce França. Agora os espinhos me arranham o corpo e as tristezas me cortam a alma."

José Lins do Rego, in O Melhor da Crónica Brasileira, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1997