Sunday, May 03, 2015

Não há recomeços.

Tuesday, September 20, 2011

de onde somos

Primeiro, busco saber que fluído corre até à pena. Gostava de me certificar não se tratar de fel. É feio. Faz mal. É fétido.
Ninguém deve criticar o seu próximo por este ter e valorizar uma vida mais tranquila do que a que conheceu, talvez, no passado. É humano. Buscamos conforto, um tecto seguro que não nos caía a cada instante em cima e deixe entrar vento gélido ou traga a imúndice da rua. Limpamos o calçado, ao passar a soleira da porta, deixando lá fora os lixos do mundo. Limpamos também os olhos, os ouvidos, queremos os momentos de paz que merecemos.
Muitos angolanos e naturais de Angola residem em Portugal. Não, não é a mesma coisa, necessariamente. Há naturais de Angola que sempre se consideraram portugueses. Não é crime. Nem errado. Simplesmente é. Há também os que se consideram ambas as coisas, angolanos e portugueses. Natural. Vivências marcantes e longas, afectos, raízes em ambos os locais. Na modernidade torna-se imperioso melhor compreender as múltiplas identidades, que nos devem enriquecer, ao invés de trazerem conflito interior, dúvida e dever de escolhas singulares. A muitos a vida levou a multiplicidades. Contudo, há, de um modo muito geral, um carinho e especial orgulho, nestas pessoas, quando referem a sua naturalidade. Muitos continuam a afirmar que esta última se sobrepõe a questões de nacionalidade, sendo fulcral nas suas identidades. São, sempre foram, sempre se sentiram, continuam a sentir-se angolanos.
Reunem-se, ainda, tantos anos depois, em funjis de domingo. Encontram-se anualmente, revendo colegas e amigos de escola, para confraternizar. E recordar. De memórias somos feitos.
Repetem, com orgulho e, não raras vezes, lágrimas, o seu amor pela terra mãe. E pelas pessoas, falam muito das pessoas. As pessoas continuam lá. Angola não passou a ser desabitada desde que saíram, em convulsão, de vossas terras natais ou de longa permanência e com a qual dizem manter profundos laços de afecto.
Hoje podem recordar ainda melhor. Já não dependem de encontros e troca de fotografias, de visionamento de filmes em salas escuras improvisadas, em que recordam as visitas à Senhora do Monte, os piqueniques e tardes de praia na ilha ou no Mussulo, as idas ao Miramar, os passeios na Restinga. Podem, ainda, quando desejam, seguir a actualidade desses países. E assim o faz grande parte. A partir de suas casas, acedem a sites, a redes sociais, e confraternizam agora segundo as excelentes possibilidades que nossa era permite. Aqui. Neste canto do mundo.
Levanto-me e vou buscar um copo de água. Posso fazê-lo tranquilamente, de tal modo que o gesto não me faz reflectir. É somente um entre muitos gestos do meu dia-a-dia. Tomo a minha água sem receio de contrair uma doença, de forma geral. Caso a contraia, raridade, posso deslocar-me até ao posto de saúde mais próximo. Posso reclamar do tempo de espera, do atendimento. Mas ele chega. Se não chegar, posso reclamar. Posso circular livremente. Sem que a polícia me maltrate, sem que me peça suborno, sem que ponha e disponha da minha vida, como se esta se tratasse de uma folha de papel sujo, a amarrotar e jogar fora. Impunemente. Posso tentar afzer valer os meus direitos, conforme tento cumprir os meus deveres. Muita coisa pode não funcionar pelo melhor, mas a minha voz é escutada. Sem que tal signifique poder ser presa sem qualquer crime ter cometido. Resido num país em que um governo não toma para si a constituição, mudando-a a seu bel prazer. A vida está difícil, a crise grassa. Mas aqueles direitos básicos ainda ali estão. E para quem acredite e se preocupe, justamente, que estes sejam diminuídos a cada dia, existirá, quiçá, na vossa consciência, pelo menos a noção de que as realidades não são equiparáveis nestes pontos referidos.
E toma a sua água. Potável. Senta-se novamente, e continua seguindo os seus grupos favoritos, os seus fóruns, que lhe trazem notícias e recordações lindas dessa tal terra. Escuta a sua música, a música com que cresceu, ao som da qual tanto dançou e foi feliz ou infeliz.
Já saiu para a rua, no país que o acolhe há tantos anos e que também pode chamar de seu, para defender seus direitos. Não o faz pela terra que ficou lá atrás, mas que diz continuar a amar do mesmo modo. Tem todo, todo o direito de assim fazer. É livre. Quer concentrar-se no presente, tem já suas pesadas preocupações (aqui não reside ironia), quer paz e sossego. E isso também não é crime. Mas pense antes de dizer, na próxima vez, se aquela continua a ser a sua terra. E tome a sua água.

Tuesday, May 24, 2011

the enemy within

(in exame.com)


A Visão desta semana traz, como seria de experar, uma reportagem sobre o caso Strauss-Kahn.
Admito dúvida acerca da autoria textual do editorial da revista. O artigo em si, porém, leva-me a pensar que um e outro (editorial e artigo), mesmo que não tenham sido redigidos pela mesma pessoa, partilham idiotice e discurso irresponsável que leva à alimentação de preconceitos.
Da chamada na capa - "Caso Strauss-Kahn, O Mistério do Quarto 2806" - não há crítica a fazer. Inocente até prova em contrário. Basta folhear uma vez para que encontre, junto a foto destacada do indíviduo, o brilhante título que leva à página 78: "O homem que gosta de mulheres". Estou-me nas tintas para que me chamem de chata ou bem pior. Sim, a frase tem de ser contextualizada: tem origem em declarações do próprio a um jornalista do Libération, respondendo a quais seriam, em sua opinião, os pontos fracos que seriam provavelmente alvo de ataque por parte dos opositores na campanha presidencial de 2012 - "Gosto de mulheres. E depois?" (E depois, senhor Kahn, consta que um significativo número destas não goste assim muito de si, já que não parecem cair voluntariamente em seus braços...).
Mas o editorial não fica por aqui. Há que acrescentar algo à caracterização do senhor em causa: "sedutor incorrigível".
Passo para o artigo da página 78. Não me devia espantar, mas constato que o artigo é da autoria de uma jornalista. Igualmente grave e ridículo se fosse de um jornalista. Mas não deixa de ser significativo...

Wednesday, August 18, 2010

Chagas de Salitre, Ruy Duarte de Carvalho

Olha-me este país a esboroar-se

em chagas de salitre

e os muros, negros,

dos fortes roídos pelo vegetar

da urina e do suor

a carne virgem mandada cavar

glórias e grandeza

do outro lado do mar.

Olha-me a história de um país perdido:

marés vazantes de gente amordaçada,

a ingénua tolerância

aproveitada em carne.

Pergunta ao mar, que é manso

e afaga ainda a mesma velha costa erosionada.

Olha-me as brutas construções quadradas:

embarcadouros, depósitos de gente.

Olha-me os rios renovados de cadáveres,

os rios turvos de espesso deslizar

dos braços e das mãos do meu país.

Olha-me as igrejas restauradas

sobre ruínas de propalada fé:

paredes brancas de um urgente brio

escondendo ferros de educar gentio.

Olha-me a noite herdada,

nestes olhos de um povo condenado a amassar-te o pão.

Olha-me amor, atenta podes ver uma história de pedra

a construir-se sobre uma história morta

a esboroar-se em chagas de salitre.


in A decisão da idade



Friday, June 18, 2010

Graças



Se tens um coração de ferro, bom proveito.

O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo o dia.

José Saramago

Thursday, April 29, 2010

Chico Buarque fala sobre racismo.

Monday, February 08, 2010

Amigalhaça,



Tu conheces bem os meus silêncios. E sabes compreendê-los, como compreende bem quem sabe amar.
Nunca me esqueço de ti.