Tuesday, July 25, 2006

E Deus criou os vizinhos


Adão e Eva pensaram que não lhes podia suceder nada pior, caídos em desgraça que estavam. Afinal não era tão mau assim, continuavam a dispor da verdejante natureza que lhes fornecia alimento, escutavam aves irrequietas rasgando céus, deliciavam-se com aromas de flores. A vida era bela, de facto. Aí, Deus inventou os vizinhos.
Nunca está nada bem.
Se você faz barulho desnecessário (quando os raios de sol ainda espreitam) em tarefas absolutamente dispensáveis como a montagem de uma estante, pregar um - sim, um - quadro na parede ou aspirar a casa, é um desordeiro desrespeitador;
se está interessado em ter a sua própria parabólica e decidir acerca do tipo de lixo audiovisual que escolhe consumir, então está a transformar os alinhados telhados em plantações de cogumelos, mesmo que a sua antena não seja visível por nenhum olho vesgo;
se separa o lixo é um chato de primeira, um picuinhas tree-hugger e fanático:
se não separa é um atentado à politicamente-correcta-que ninguém-de-facto-cumpre-moderníssima ecologia;
se faz barulho durante o amor é um desavergonhado;
se não faz, é um chato sensaborão sem vida sexual.
E se você não é nada disto, se é um tipo discreto que não aparece muito, não passa três horas diárias falando com os vizinhos reformados, bem, então certamente você é um psicopata que enterra vítimas no jardim das traseiras (sim, sim, sempre suspeitámos de algo, era um sujeitinho estranho).

O respeito é fundamental. Concordo. Assino por baixo. Mas vizinhos assim não passam de amadores junto da Dona M., que pelos vistos também tinha muito respeito por mim. Ela tinha tanto respeito por mim que se dedicou a preencher com cores garridas as páginas da minha vida que lhe pareciam deamasiado em branco. Afinal de contas, eu não era uma personagem qualquer, e como tal merecia um enredo à altura, enredo este que a Dona M. generosamente partilhava, no seu afã de criadora, com pessoa que não suspeitava ser minha amiga. Um namorado longínquo era, segundo Dona M., um tipo lingrinhas. Eu ficaria bem servida, isso sim, com o seu filho mais velho, que ela fornecia num pacote que incluia curso de engenharia e jipe. O ponto alto da sua criação virava a minha vida do avesso. Descobri petrificada ter sido adoptada por aquela a quem chamava mãe (as evidências estão lá, veja a senhora bem, as duas não se parecem nadinha). Fui informada ( e ele também) de que meu pai enviuvara (antes dos vinte e três anos, que há quem enviuve sem casar) e a actual esposa me tinha criado como própria filha. Tendo em conta que uma pessoa que conheço convenceu, com sucesso e durante bom tempo, o irmão de que este tinha sido recolhido de uma caravana de ciganos que por ali passara, sendo então adoptado por aqueles a quem chamava pais, congratulo-me por ter álbuns de fotografias minhas acabada de nascer. Quer dizer...algo aproximado disso...

7 comments:

Ali la Loca said...

Por falar em vizinhos...

Tem um, que mora no terraço do nosso prédio, que se recusa a comprar uma bóia para a caixa d'agua dele (que por sinal fica diretamenta acima da janela do meu quarto). Resultado: todo dia de manhã, quando entra a água da cidade, a caixa d'agua do vizinho não para de encher. Todo dia, lá pelas 5:30am, cai o que parece uma enorme cachoeira lá de cima, água jorrando para todo lado, como se fosse o resultado de uma grande tempestade.

Acordo todo dia no susto, achando que tá chovendo pra caramba. Aí eu lembro do vizinho e a falta da bóia. E logo em seguida me dá aquela vontade de fazer xixi!

Já falei com o cara e ele simplesmente se recusa a comprar a tal da bóia! Desgraça de vizinho!!!

_+*A Elite in Paris*+_ said...

Vizinhos: é sempre tao complicado. Aqui em Paris minha amiga vive numa casa, pode pôr musica alto e para mim isso é O LUXO total :)

Mas agora diz la, quem é essa vizinha? la de Portugal?

A historia é inventada ou real?

Beijokas maiores.

Jessica

kanuthya said...

ali la loca Ehehe, há com cada personagem...
e histórias terríveis também...um antigo vizinho tinha preso numa varanda estreita um husky´, que raramente levava a passear. Colocou no escorredouro (não sei como se diz no Brasil - é o orifício por onde escorre água da varanda)um tubo que ligava a um garrafão: a urina do cachorro escorria para lá. Needless to say que quando enchia, as leis da física funcionavam na perfeição, caindo o garrafão com conteúdo fantástico por cima da desgraçada da vizinha que vivia no andar de baixo!!
Quanto ao teu vizinho, podes sempre imaginar estar a viver num ambiente exótico, com a tal cachoeira ao lado LOL
Eu acordaria aflita correndo para o banheiro também :)

Jess a história é real e até está incompleta :) Há muitos outros detalhes :)

Carolina said...

Fiquei curiosa, que mais teria inventado??'
Mas...deu-me uma ideia: vou pensar na minha vizinhança ao longo do tempo e dos espaços que ocupei e, quem sabe, descobrirei alguém assim que me faça escrever um texto tão inspirado como o seu.
:)

Teresinha said...

Podem então imaginar o meu espanto, um belo dia ao sair de casa para passear o meu cão.
Ao abrir a porta da rua, deparei-me
no patamar com um belo Leãozinho subindo tranquilamente a escada, o susto não foi maior porque ele tinha para aì uns três meses.O meu cão é que não achou piada...
Ali esteve num 2ºandar até ser transferido para um local mais
apropriado.Isto é AUTÊNTICO!
"E Deus criou os vizinhos,mesmo!"
Tinha muito mais que contar.
Algumas coisas boas também,como: Sorrisos;Olás;Bebés;e ainda a minha
"CHUVA DE PRATA"à entrada da minha porta partida por uma bola.
Vizinhos!!!
T.A.

kanuthya said...

carolina o que eu desconfio é do que ela não inventou, por exemplo, uma vida própria, para se preocupar menos com a dos outros :)


Teresinha por acaso tal visão ocorreu em Sines,há uns bons anos atrás, na altura em que se preparava a abertura da velha Badoca? É que se é esse o caso, eu vi esse leãozinho LINDO! E fiquei muito frustrada, e ao mesmo tempo com pena dele. Eu queria abraçá-lo, claro, mas o bicho viu-se rodeado de tanta gente curiosa que se zangou, e mesmo pequeno começou a rosnar :)

Teresinha said...

Na verdade, é concerteza o mesmo leãozinho! Só que não em Sines mas em Santo André,mesmo aqui no meu prédio.Sim, na altura em que abriu a Badoca.
Tem graça.Grande coincidência!
Como vê não estava a "inventar"!
Afinal ambas conhecemos o mesmo
LEÃOZINHO...