Wednesday, September 20, 2006

Celebrar o Futuro - Mia Couto - II


"Este acerto de verdades está apenas esboçado. À mistificação feita pelo regime colonial seguiram-se outras simplificações redutoras, de nossa inteira responsabilidade. Não sei que mestiçagem particular hoje podemos comemorar. Os que procuram identidades culturais "puras" não são mais que caçadores de miragens. Não há hoje cultura que não seja mestiça. A mestiçagem cultural em Moçambique começou bem antes da chegada dos portugueses. Começou mesmo antes da chegada dos árabes e dos asiáticos. Os grandes movimentos migratórios do continente já haviam mesclado diferentes culturas africanas. Será necessário retirar véus que, ao nos afastarem da nossa própria identidade, nos apartavam uns dos outros. Tarde ou cedo, acabaremos por redescobrir em nós aquilo que outrora expulsámos de dentro de nós.
Trata-se, afinal, de resgatar uma relação que já existiu. No primeiro período das viagens terá havido uma possibilidade sistemática de encontro de culturas. As relações estabeleciam-se, então, sem marca de domínio, e os povos se expunham, em ingénua e total entrega. A descoberta mútua que marcou os primeiros tempos foi depois substituída pela dominação. A conquista matou a descoberta. O espírito de fascínio pela novidade foi rapidamente cooptado pelo desejo do lucro, pela expropriação de riquezas. o soldado tomou o lugar do investigador. O comerciante substituiu o cronista. O diplomata foi destronado pelo administrador. Iniciava-se uma longa era de distanciamentos entre os povos, de criação de sentimentos de inferioridade, de culpa e de vergonha."


Curiosa uma analogia entre o que escreve Mia sobre os povos, com o encontro amoroso que degenera em desencontro, não crêem?

5 comments:

Carolina said...

Cremos, sim senhora!!!
Curiosa essa sua análise.Correcta(quanto a mim) essa analogia.
Ai estes difíceis amores...(Alguém inventou esta frase, ou é título de um livro?.....) Fiquei a pensar no assunto.Afinal, que dúvida ñ esclarecemos na internet?
É o nome de um programa de televisão em que participava o Júlio Machado Vaz.
;-)

quel said...

Carolina: Os amores difíceis é o título de um livro de Italo Calvino :)(mas quem é o Júlio Machado Vaz?)
Também achei curiosa a análise e a analogia.
E isso me dá panos para a manga...
(obrigada)

Carolina said...

quel : Júlio Machado Vaz é psiquiatra e sexólogo.
Tem programas na rádio e na televisão. Escreveu vários livros entre os queais um que se chama: "Estes difíceis amores".
Clik no google e acha.
Do Italo Calvini gostei muito do "O Senhor Palomar".
(Estamos aqui a usar o blog da nossa Amiga para conversas. Se quiser procure-me em: www.sardinheiras.blogspot.com )
;-)

kanuthya said...

quel e carolina São mais que bem vindas para entabular as conversas por aqui! :) O Júlio é um excelente conversador também, por sinal, e adoro o facto de ele utilizar tão amiúde as palavras ternura e ternurento :)

Carolina said...

É um bonacheirão!!!!...
:)