Monday, September 18, 2006

Celebrar o Futuro - Mia Couto - I


Encontrei o texto que buscava já há algum tempo. A folha conserva-se em bom estado e recomenda-se. Não quero celebrar descobrimentos. Há dias em que talvez até o pudesse fazer, mas agora não. É que em vez de encontro cultural, houve muitas vezes encontrão, como disse o Mia. A tal da folha tem anotações minhas, feitas no início da década de noventa, século passado, aka. Tem pedaços de transcrição fonética no alfabeto de Paiva Boléo, que tinhamos de aprender a par do internacional. A professora tinha boas ideias, levando textos polémicos, interessantes, comentando e chacoteando, enquanto talvez alguns alunos mais acinzentados achassem que era hora de linguística, e que esta não devia meter ao barulho história e antropologia.
As minhas palavras andam refugiadas em cadernos; voltarão, mas por ora partilho convosco as do Mia (que, quanto a mim, além de reflectirem em muito a realidade, reflectem uma realidade peculiar ao seu país de origem, onde a colonização terá assumido matizes muito próprias, infelizmente pela negativa, pela proximidade com a África do Sul), desta vez numa crónica publicada no Expresso, em Março de 92.

"A celebração dos Descobrimentos valerá a pena quando os povos de diferentes continentes se juntarem numa festa comum. Até lá resta o tempo das mistificações, dos preconceitos recíprocos, das cicatrizes mal curadas.

Celebrar nos Descobrimentos um "Encontro de civilizações" corresponde a uma vontade de recuperar tudo o que de positivo houve no relacionamento entre africanos, asiáticos, americanos e portugueses. Mas esse desejo traduz mais um caminho a começar que uma realidade do passado. Se não entendermos quanto falta realizar nesse processo comum de desnudar a realidade, o celebrado "Encontro cultural" pode ser uma outra, mais simpática, falsificação da História.

Durante séculos, a revelação e partilha de valores culturais aconteceu de forma fortuita e superficial, contra a corrente da História. No domínio do intercâmbio cultural, os Descobrimentos acabaram por ser convertidos na sua própria negação. Os Descobrimentos tornaram-se nos Encobrimentos. O encontro virou encontrão.

Viajando pelo litoral de Moçambique ainda hoje recolho sobrevivências dos mitos que, no tempo das caravelas, habitavam o imaginário das populações costeiras. Acreditava-se que os portugueses praticavam a antropofagia e que os navegantes carregavam nos seus barcos homens destinados a satisfazer a gastronomia lusitana. Os navegantes portugueses acreditavam igualmente na existência de práticas de antropofagia entre os africanos. A aproximação entre os dois imaginários se fazia, afinal, pelo desconhecimento mútuo. Esse distanciamento ainda hoje prevalece.

O que pode hoje ser celebrado é o podermos inscrever em programas nacionais a progressiva superação de preconceitos que deformaram a troca de valores culturais. Os descobrimentos portugueses podem prosseguir no próprio território português. Os Descobrimentos moçambicanos podem ser continuados dentro da jovem nação africana. Os portugueses podem fazer regressar para si um olhar que revele as Áfricas que existem em portugal e assumir a sua mestiçagem racial, cultural e religiosa. A descoberta de um Portugal plural, católico e muçulmano, europeu e africano, pode ser, funcionar, como exemplo numa Europa que dificilmente aceita a sua própria diversidade. Moçambique descobrir-se-á na sua totalidade se se aceitar como nação mestiça que integra a herança portuguesa não apenas como fatalidade da história mas como parte da sua actual dinâmica.

3 comments:

Anonymous said...

Comprei meu primeiro livro do Mia. "O outro pé da sereia". Comprei-o porque você me fez re-descobrir a África. Acho que esse meu descobrimento podemos festejar.
E também o nosso. Uma da outra.
um beijinho
Quel

kanuthya said...

Fico entusiasmada pensando na tua descoberta do Mia :)**

Ali la Loca said...

Meu pai comprou o último livro do Mia para mim (em inglês), mas a viagem foi tão curta que ele esqueceu de me entregar. :(

Tudo bem, quero que a primeira obra dele que leio seja em português.

Olhei rapidamente os textos acima, me parecem fascinantes. Quero imprimí-los para poder ler com calma e apreciar as palavras.

beijos!!