Friday, August 25, 2006

Os outros galegos





Já os tinha prometido aquando dos pastéis de Belém, e a premência acentuou-se com o excerto sobre os galegos de uma Lisboa desaparecida, ou melhor, adormecida. Entretanto, a imagem dos nossos galegos de Sines é tão forte nas mentes de quem por via das andanças da vida passa por Sines, que a nossa Carolina adiantou-se no comentário ao post anterior, adivinhando o que eu aqui pretendia escrever. Como não prestar homenagem a quem nos adoça as papilas gustativas há tantos anos? Não é pouca coisa, atentem, que para amarga basta a vida, como diria meu avô. E meu avô é muito sábio, mind you. Não nos atrevamos a não seguir pois seu conselho.
Uma das coisas que me diverte é escutar as pessoas de Sines aconselhando quem se encontra de passagem a experimentar as delícias da pastelaria dos Galegos. Depois podemos seguir os pobres coitados gulosos em busca da pastelaria inexistente, porque os nativos ou adoptados da terra esquecem frequentemente que não é esse o nome do dito estabelecimento, mas sim Pastelaria Vela D'Ouro. Fica na zona velha da vila, perdão, cidade, ehm. Eu continuo a chamá-la de vila, é assim que a amo, e muitos o fazem obstinadamente, seguindo os preceitos das verdadeiras paixões assolapadas.
O respeito pelos irmãos pasteleiros é tão grande que lhes perdoamos a fila de trânsito na rua do lado, quando a carrinha pára para descarregar tabuleiros de fumegantes e olorosos pastéis, bolos e bolinhos, e ficamos sorrindo placidamente ao volante, salivando. O espaço no velho estabelecimento é reduzido para tão grande procura, mas eles já se renderam a lá ficar. É curioso que há anos abriram uma filial noutra zona, mas as pessoas continuavam a preferir acotovelar-se na velha pastelaria ao lado do castelo.
Há anos, também, fui buscar um bolo de aniversário à sua casa de fabrico mor, na zona industrial ligeira. Esperava receber o pacote das mãos da empreganda de balcão e pagar, quando sai o mestre pasteleiro e vem colocar-me o braço em cima dos ombros, explicando-me as modificações que havia realizado na receita, um bolo de massa mista de pão-de-ló achocolatado, com camadas de finíssima massa folhada entremeada com ovos moles. Saí de lá com um sorriso de orelha a orelha, tinha falado e confidenciado segredos doceiros com uma figura mais imponente que qualquer presidente da câmara.

3 comments:

quel said...

Olha, não sei não, mas esse povo de Sines parece tanto com os mineiros!
E sabe do que mais, esses seus posts sobre pastéis e similares me dão água na boca. Mas de ir a Portugal, isso sim!

kanuthya said...

quel Pois é, e Portugal te aguarda, além de que no Alentejo falamos com gerúndio também :)

Carolina said...

Pois também eu digo sempre vila de Sines!(Não sei se por lapso ou porque gosto mais de dizer VILA)
Porque é mais fácil para mim o estacionamento, vou muitas vezes aos Galegos lá em cima(na Zil).
E ESSE que lhe pôs o braço por cima é certamente o Manel Galego. Ele e o irmão Fernando são os Mestres Pasteleiros considerados já um património da nossa VILA!!!
Vou imprimir o seu texto (se o permite) e entregá-lo à Sandra Galego,filha desse Fernando e minha vizinha do 3º Esq.