Thursday, July 06, 2006

Sem Senso (dada a natureza ambígua e confusa do post, aconselha-se um qualquer paliativo. Se gostar de coisas chatas, muna-se de café)



Há muito quem se irrite e insurja contra o uso da palavra estória. F.J.V. é um exemplo, mas há muitos mais defensores aguerridos da lusa língua.No exemplo citado há senso, do qual no entanto eu pareço estar desprovida.

Ora eu, que muito me irrito com várias coisas (pois que sou naturalmente dada à irritação própria das criaturas pouco evoluídas - provoca-me urticária ouvir uma mulher dizer "obrigado", quando a palavra me é dirigida costumo responder que não se sinta obrigado a nada; tomo kompensan quando ouço falar na perca, mormente nos telejornais, entretanto o meu namorado olha-me de lado desejando que eu não perca a paciência e ouve-me repetir pela décima terceira vez nesse mês que a perca é um peixe, porra!, e em seguida toma ele um kompensan, que com o estômago não se brinca)- dizia eu, adoro a palavra estória, usando-a porém só em certos contextos - básica e essencialmente escrevendo ficção.

Em dicionários antigos a palavra tinha direito a lugar. Alguém houve que sugeriu até a sua adopção para uma mais eficaz diferenciação do termo história,algum admirador do anglicismo, perturbado com a louca e abundante polissemia presente na língua portuguesa. No fundo o tipo queria seguir o exemplo do inglês, com a distinção entre history e story. Já eu adoro essa polissemia, é fascinante e enriquecedora (parece contradição, mas sigamos adiante), até porque o facto de em português (bem mais do que em diversas outras línguas) uma palavra poder significar uma série de coisas não impediu que complicássemos ainda mais a vida do pobre estrangeiro que pretende,com carinhosa obstinação, aprender a língua lusa, ai pois não. Damos-lhe com força nos sinónimos, imensos, intermináveis, usando uma carrada de termos diferentes para nos referirmos à mesma coisa. Voltando ao tal senhor que quis a distinção história/estória: sim, é óbvio, o gajo pretendia que se usasse história para a ciência, naturalmente, e estória no sentido narrativo, particularmente para designar a de cunho tradicional, popular. A certo ponto, já os dicionários, continuando a incluir o termo estória, comandavam que consultássemos a história, letra h, vá, vire as páginas do calhamaço. Certo, certíssimo, tudo bem por mim. Teria estado tudo bem para parte dos linguistas se o termo estória tivesse permanecido dentro de um domínio de código específico e restrito. Dos registadores da literatura de cunho oral, talvez... João Guimarães Rosa, porém, ajudou na fuga da prisioneira, publicando Primeiras Estórias (1962), Tutaméia, subtítulo Terceiras Estórias (1967) e Estas Estórias (1969, já a título póstumo), escrevendo, sobranceiro, "estória não quer se tornar história". Ah, gentinha desobediente...

Rosa é apenas um exemplo, entre muitos, muitos outros. Na verdade, essa contenda não se inicia no Brasil. Na época medieval, a palavra era grafada de muitas formas diferentes, como é normal que aconteça numa língua que ainda não sedimentou normas ortográficas - historia, hestoria, estoria, istoria, estorea (assim mesmo, sem acentos, deixem lá as almas dos copistas medievais em paz). Inadmissível toda esta confusão, clamam os linguistas. Bem, os meus alunos nunca se mostraram confusos em relação a tudo isto, e as estórias surgiram-lhes diantes dos olhos, nos manuais que politicamente correctos inserem autores lusófonos de outras paragens. Se explicarem, eles entendem. Garanto. Os que recordo em particular eram garotos de doze anos. E não passaram a escrever estória...

Um aluno que use em exame escrito a estrutura sintáctica de Saramago será muito provavelmente chumbado; se tiver o azar de tentar sua sorte escrevendo num estilo semelhante ao de Lobo Antunes verá a sua caligrafia sublinhada com irregulares linhas vermelhas de censura, a não ser que se limite ao lobo antonismo das crónicas. Misturo alhos e bugalhos, talvez.
O que sei é que coexistem em mim multiplicidades lusófonas, cada qual com lugar a registo próprio.Quando escrevo pouco controlo, são as personagens que me escolhem, não eu a elas, se me atrevo se quer a lhes querer mudar os nomes que me sugerem, insurgem-se, mostram-me as linhas das suas mãos e destinos, que tenho de ler e seguir. E se tiverem estórias, além de histórias, para me contar, não serei certamente eu a calá-las. Até porque eu gosto de estórias. E de estoriar. E gosto muito de história. E de histórias, também.


Actualização: escrevi tanto e ainda assim omiti coisas essenciais (para mim, claro). Continue-se nos comentários :)
Infâmia! com tanto paleio, como diria a Carolina, do Sardinheiras, não mencionei nomes com quem cresci, e que me fizeram crescer. Como me atrevi a deixar de fora o Luandino Vieira... e as Estórias Abensonhadas do Mia Couto?

9 comments:

_+*A Elite in Paris*+_ said...

Gostei muito deste artigo. Quando eu era pequenina, e vi escrito num livro angolano "estoria" disse à minha irma "tem aqui um erro, nao é assim que se escreve"... e depois explicaram-me que era um novo termo para distinguir da Historia (lecturing).
E confesso que gosto mais do termo anterior, sei fazer a distinçao assim dessa forma.
Mas hoje ja consigo ver as duas formas sem ter dor nos olhos, hehe...
Falando de erros e termos, não gosto quando as pessoas escrevem "então, gostas-te daquela musica?"... ai, que eu caio para o lado... e nao ha remedio para dor ou colica que resolva o assunto.
Adorei o teu artigo, mas nao foi com café, foi a sumo de laranja, vale?

Ladybird said...

O pior, e a Elite já viu, é quando eu própria faço erros e ao corrigir (ou ela a corrigir com tinta vermelha para dar mais raiva), eu arranco-me os cabelos. Mas são erros de "étourderie", daqueles que sabemos como se escreve, mas ao escrever, azaramos.
Para seguir os exemplos da Elite, é como o "gostastes", "portantos", "por causa que", o "soubemos" angolano, e tantos outros.
Eu compreendo porque fazem a diferença entre história e estória. Mas continuo a não gostar da palavra... :P

_+*A Elite in Paris*+_ said...

Apoiado :p

Ladybird said...

Já agora! Vi a comunidade Bule de Chá, adorei! :D

kanuthya said...

Com tanto que escrevi, esqueci-me de mencionar coisas essenciais, adicionei em nota muito breve.


+*elite/sweetromanza*+ e ladybird Têm razão e continuem a usar história, se ela serve os vossos propósitos, seja na escrita, seja na oralidade! :)
O que recuso é "achar sem senso" a maravilhosa escrita e uso criativo da palavra dos autores que referi :)

quel said...

quando eu era criança havia estória e história. eu gostava. mas depois proibiram isso no Brasil...Agora, a nossa polissemia é o máximo, não? Por que não fazemos uma eleição das melhores? Eu, por exemplo, gosto do verbo esperar.
Outra coisa que gostaría de fazer seria um glossario de termos da língua coloquial, como o verbo chumbar que você usou. Aqui se diz "bombar, levar bomba, levar pau".Como é em Angola e Moçambique?
Como será que é no Timor??
Como vocês dizem quando um aluno falta às aulas para fazer algo mais divertido? Aqui se diz cabular aulas.
Adoro quando os portugueses dizem "uma seca" , "giro", "fiche". E até quando me chamam de "parva"!
ô língua bonita essa nossa.
E como dizia o poeta Paulo Leminski (que adoro):
Língua: nada de tão meu que não possa dizê-la nossa.
Ah, quanta história prá contar....

kanuthya said...

quel Aqui também não é aceite, embora no mundo da escrita criativa continue a ser utilizado, é precisamente isso que eu "defendo". Por isso amo autores que brincam com a língua, nisso Mia Couto é mestre e fico ansiosa para que o leias, se tal ainda não aconteceu :) Sabemos, porém, que só brinca bem com a língua quem a conhece de facto bem:)
Ah, a polissemia é maravilhosa, os gringos desesperam e nós divertimo-nos :)
Vejamos, pois: chumbar é de facto coloquial, o termo "formal" é reprovar, julgo que o mesmo se passará em Angola, mas nesse ponto a ladybird e a elite podem esclarecer melhor.
Isto merece posts futuros, com certeza!
Em Timor...bem em Timor o português, apesar de língua oficial, não é muito falado, sabes? A língua principal é o tétum, embora este incorpore muitas palavras portuguesas.
Faltar às aulas é fazer gazeta, um aluno que falta muito é um gazeteiro, mas eu penso que estes termos se forma perdendo, já não devem estar muito em uso actualmente.

A propósito de "giro", uma amiga brasileira, que passara grande parte da sua vida na Irlanda, desde pequenina, estava de regresso ao Brasil, mas antes passou por Portugal para conhecer um pouquinho do país e para estar connosco. Ela amou completamente o sentido de giro como "bonito", "engraçado". Só que depois, quando o usava, dizia "Um giro!", que para nós significa, claro, dar um giro, um passeio, uma volta :)
ehehe, quando te chamam de parva ahahah. Bem, isso surge muitas vezes sem qualquer intenção de ofensa, tipo: Vá, não sejas parva!
"Fixe" - é calão, sem sem vulgar ou "mau". Um dia uma grande amiga minha estava em Londres e passou ao lado de uma senhora de nariz empinado que levava ao colo um cão que vulgarmente chamamos de salsicha, não sei se aí o chamam de baixote, como os italianos, são muito baixos mas super compridos. A minha amiga achou-lhe tanta piada que exclamou em português:
-Que fixe!
A senhora olhou-a com pena própria de criaturinhas que se acham o máximo e respondeu, ríspida:
-It's not a fish! It's a dog!
Claro que aí é que a minha amiga desatou às gargalhadas...
Quanta história para contar mesmo!

quel said...

Adorei a história do "fish" !!!
Aqui é salsicha o nome do cão ou basset.
Fazer gazeta acho que na época de meu avô se dizia. Hoje não mais...
Eu sempre esqueço como vocês chamam a descarga! É uma palavra tão esquisita!!
E quando um português pede lume!? Eu adoro!!!!
E as gírias que meus alunos usam!
O professor fulano é fodão, ou seja, é muito bom professor.
Vamos bandejar? (= vamos comer no bandejão ou bandex, que é o restaurante universitário)

kanuthya said...

quel Presumo que seja autoclismo a palavra correspondente a descarga.

E venham os palavrões ahahah, havia um professor universitário em Coimbra cujo sobrenome era Tralhão (acho eu...), ainda por cima a família é bem conhecida e eu costumava ver placards enormes anunciando os Móveis Tralhão pela cidade. Numa velha e deliciosa casa que servia de sede a uma claque da Académica (equipa de futebol) eram loucos por bridge, e o dito professor participava, já bem bebido, para não destoar de todos os outros participantes, dos torneios. Havia um garoto que costumava gritar de uma janela um piso acima de onde se realizava o torneio:
- Professor Tralhão, o professor do car-lhão!
O professor vinha à janela e lançava insultos, depois vinha a correr escadas acima, mas a casa era muito labiríntica e nunca encontrava o aluno.
Dessa casa tenho das recordações mais cheias de gargalhadas da minha vida :)