Monday, July 17, 2006

Falta aqui algo. As pilhas acabaram pouco depois da chegada a St. Gilles, e assim a máquina já não registou mais das casas mal cuidadas, nem do calor sufocante de Arles, onde entrei num suposto espaço Van Gogh repleto de lojecas turísticas que vendem panos da Provença, saquinhos de alfazema e postais, milhares de postais. O corpo recusa-se tenazmente a colaborar em certos passeios, ameaça parar a qualquer instante. Nasci nos trópicos,amo sol e calor, mas tenho dificuldade em viver neste clima, para mim impiedosamente frio no Inverno e ignobilmente quente no Verão. Não de um calor que conforta, embala, que acorda enzimas e faz correr nas nossas veias felicidade, mas que sufoca.
Ocorre-me facilmente que o que falta são fotos de cães. Faço-as sempre que cometem o erro de me colocar uma máquina nas mãos. Dou-me conta que estou prestes a fazer um elogio a terras gaulesas. Verifico, a pedido de terceiros, que a minha fronte está quente, mas não é febre, garanto. Agora sorrio por ser difícil fazer fotos de cães nesta terra. Porque é muito raro encontrar um cão só deambulando pelas ruas. Eles tratam bem os cães. Pontos positivos no karma.Pronto, já chega de elogios.

O tempo serrou as pedras que foram carregadas e montadas no século XII, mas o muro continua a providenciar protecção ao lençol estendido. Ah, o tempo não... foram as Guerras da Religião que ironicamente a foram devastando, de 1562 a 1622.

Do lado de lá, descubro que ficam sempre anjos a velar, por mais sós que nos creiamos.

Alguém pensou bem que a pedra envelhecida não valia menos, merecia ela também uma senhora alva velando. Aprecio, pois a minha cultura de origem valoriza os mais velhos, apesar de a guerra subverter tudo aquilo em que cremos, sobretudo nós mesmos.

A senhora de alva pedra espreita o busto de Clemente IV, filho desta terra, papa no século XIII. Curiosamente, chamava-se Guy Foulques, e avisam que não deve ser confundido com Guy Fawkes. Não ganhem juízo, não, que não é preciso...


A igreja com portas de uma cor tão minha prometia, mas lá dentro estavam noivos e convidados. A noiva, que encontrámos por uma viela vizinha, ia vestida de vermelho, como a porta. O meu amor achou estranho, no seu jeito de achar algo estranho, que dura um minuto e trinta segundos e depois some-se no ar. Eu achei naturalíssimo. Já vos disse que sou escorpião?



1 comment:

no exist said...

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