Thursday, June 29, 2006

Ciganeando Clarividências

by Elizabeth Eden

A década em que nasci nunca me parece demasiado longínqua. Atravessava então Manu a ponte quando figura de negro vestida a pára, mira-a nos olhos e pergunta,

Posso ler-lhe a mão, senhora?

Eu não lhe posso pagar.

Há tristeza na resposta, nesta simples resposta que se dá a tantos que nos procuram vender objectos indispensáveis - rosas de papel que nunca morrem, tapetes orientais feitos em Alcochete - originais, minha senhora, tecidos à mão como já não se vê por aí - Timex de cinco euros e meio. E há a sina, também.

Não me pague, não quero. Só lhe quero ler a mão.

Manu estende-a. De mãos pouco sabia, só que se um dia as unhas ficassem roxas a sua morte estaria para breve. Nisso enganou-se, Manu clarividente, posso garanti-lo, pois conhecia-a, vi-lhe unhas púrpura e viveu ainda muitos anos. Mirou também ela nos olhos aquela sua irmã de adivinhação, senhora de artes diversas.A ela, Manu, os presságios chegavam através dos sonhos.

Leonel guardava distância das duas fêmeas. Narradora sou, mas não saberei dizer ao certo que lhe ia no pensamento. Para elas não olhava, disto estou segura, não é de ficar observando os outros. Ter-se-á distraído com algum pássaro, quiçá, bufando impaciente pelo contratempo que o detivera. Ele segue o relógio, tem horas precisas para tudo. Sei, porém, o que pensou às primeiras palavras da cigana, que escrutinava as linhas na palma de Manu.

Há bem pouco atravessou as águas, veio de longe. E deixou tudo atrás de si.

Consigo, apesar de não ter lá estado, vislumbrar o sorriso irónico de Leonel - ora, estamos sobre a ponte de Santa Clara, e atravessamos as águas todos os dias...

Manu, contudo, escutou uma verdade absoluta. Fugira da guerra noutro país, deixando tudo para trás, e ali chegara viajando sobre as águas muitos dias. A curta espreitadela na sua vida registada na pele da mão bastou-lhe para, daí em diante, ter com os ciganos uma relação ímpar. Mais tarde, enquanto outras senhoras faziam avisos terríveis aos netos sobre aquela gente que recusava lei e roubava os meninos maus que não comiam a sopa, Manu parava com a neta pela mão para ter longas conversas com as ciganas que encontrava pela cidade.

Tantos anos depois, Manu, estou bem mais a sul desse rio que atravessavas com o Leonel. Falta já pouco para que deixes o corpo que nos serve de vestido nesta vida, e que por vezes tanto nos pesa.O frio é dilacerante esta manhã, num Alentejo conhecido pelo seu calor. Busco o café, este sim, quente, que me trará para este mundo depois da noite mal dormida. Aproximo-me da janela. O campo está vestido de geada branca. Há somente uma árvore, debaixo dela dois cavalos, cobertos com mantas.

Chegaram os ciganos, Manu, uma vez mais, perpétua caravana. Tapam os seus cavalos de noite, deles dependem para andarilhar mundo afora. O chefe do pequeno clã já preparou a fogueira, acompanham lá de fora o meu ritual e tomam o seu café. Há crianças nuas correndo indiferentes ao frio. Também eu não sentia frio em criança.Aqui estivesses, Manu, pularias para a carroça que em breve partirá, sentar-te-ias ao lado da mulher, e partilharias clarividências.

*texto originalmente publicado em http://herzog.splinder.com, sob o título de Gli Zingari.

2 comments:

Effe said...

l'ho riletto tutto, seguendo il nuovo ritmo (o l'antico?).
E' sempre un acquerello bellissimo.
Le cose indispensabili come le rose di carta che non muoiono mai.
I viaggi nella vita, il viaggio della vita.
Tutti gli altrove che ci aspettano.

clarividências e quiromancias hanno parentele.

Quel said...

Concordo com Effe. É muito bonito. Se minhas fotos são indispensáveis, diria que tuas palavras também, pois são aquarelas, como bem disse o Effe.