ao redor
Por enquanto vai-se caminhando em torno das cores brilhantes. O pior é quando não se sabe viver nos intermédios da vida, quando só os vermelhões, os azulões e amarelões fazem sentido.
Por enquanto vai-se caminhando em torno das cores brilhantes. O pior é quando não se sabe viver nos intermédios da vida, quando só os vermelhões, os azulões e amarelões fazem sentido.
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O arear mais esforçado nada pode para quem cozinha mágoas.
(imagem: E. Shibanov, 2003)
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Vá malta silenciosa, toca a responder a este inquérito rápido e indolor para ajudar na realização de um trabalho académico.
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O medo é o que impede que tudo o que chega às mãos dos homens não se torne em sua propriedade. Basta produzir uma impressão que não se pode explicar, inserindo no medo o desconforto da culpa. É assim que milhões de pessoas podem ser pastoreadas nas ribeiras da paz por muito poucas. E nas trincheiras da guerra por outras tantas, senão as mesmas.
Agustina Bessa-Luís, in Antes do Degelo
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David Sylvian e Riuichi Sakamoto. Lindo.
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Falo-te baixinho, num sussurro tão cuidado que até tu, livre que és dos fios que nos prendem à terra, até tu poderás não escutar. Eles dizem que nesta noite a fronteira é ténue, sabes? É verdade, dizem-no. A ideia que essa fronteira fosse ténue em todos os outros dias assusta-os? Precisam de datas. Datas para soprar velas, datas para empilhar prendas, datas para se lembrarem do que fazem por esquecer todo o ano, datas para levar flores a pedras frias, datas para serem solidários. A casa quer-se arrumadinha. O calendário não lhe poderia ficar atrás. Deixa, não precisas responder. Peço-te desculpa por perturbar o silêncio de paz em que te encontras. Escrevo-o sentindo que não é aí que te encontras ainda. E na impertinência que me guia dirigindo-me a ti, peço: visita os teus em sonhos e toca-lhes as faces, para que sintam que o calor da tua doçura não se esgotou.
(angel of the courtyard, by Liz Allen, 2002)
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Marvin Gaye - What's going on
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Marvin Gaye - Mercy Mercy Me
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Não se celebra aniversário algum, nem da vinda ao mundo de uma voz que me acompanha desde e para sempre, nem da sua saída para outra dimensão. Egocêntrico, misógeno, com fama de maltratar as mulheres, excepto aquelas a quem chamava amigas (Miss Ross despediu-se dele num pungente e por muitos chamado piroso Missing You), fetichista e a lista pode continuar. Num dos seus últimos concertos, depois do Sexual Healing longuíssimo, incitava os presentes - go make some babies, e depois de poses que levavam a audiência ao rubro, informava que não sabia por quanto tempo mais faria aquilo, cantar, pois tinha muita espiritualidade em si. Talvez alguns imaginassem então que Gaye (sobrenome que convenientemente, segundo ele, adoptou de Gay) aparecesse como reverendo. Pode dar-se que o tenha considerado. Afinal de contas, tal profissão não impediu o seu pai de maltratar a família uma vida inteira nem de vestir roupas de mulher no recato do lar. Não teria tempo para mudar de vida, para fantasiar-se de qualquer outra coisa. Na véspera de fazer 45 anos foi morto pelo seu pai.
Um dos meus favoritos, em absoluta fidelidade. Não há nada assim. Vem aí.
(imagem de www.commandercody.com)
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Sabia-me bem lançar aqui as palavras como se faz com os barquinhos de papel, deixando-as a vogar em fundo azulado, até me ter metido com o html e a ordem com que nos iludimos ao dispor as coisinhas à nossa maneira ter ido para as urtigas, a barra lateral com ligações foi empurrada para o fundo da página. Deve ter sido uma qualquer conspiração dos textos, que exigiam de cartazes em punho ocupar toda a largura da pobre página, que por sinal emitiu um comunicado excusando-se de responsabilidades.
Assim sendo peguei neste fundo, que usava num outro projecto, o pergaminho de bolso. Devo ser um bicho de hábitos, como os cachorros, faz-me falta o fundo azul.
*imagem obtida em www.blueventures.org
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a noite dos alquimistas
chegam os magos no claro rasto da lua cheia
descem duendes pelos caminhos da Cassiopeia
gnomos e bruxos, génios e divas, tudo e ninguém
abeiram-se os sábios, os feiticeiros que o mundo tem
sentam-se amenas mágicas formas, sombras de alguém
vêm do fundo da paz da terra os sonhadores
guardam em sonhos ocultas memórias os computadores
pedreiros-livres, santos e artistas, tudo e ninguém
sussurram secretas vozes profetas dos temporais
pairam nos ventos estranhos seres como cristais
ó roda viva, ó astro grande de almas gentis
fonte das musas, covil dos homens mais varonis
a gente luta, a gente sofre e ninguém
redime as dores, nossos amores, ódios também
somos teus filhos, ó mar de estrelas
cuida-nos bem
(Fausto Bordalo Dias)
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Madame L. passa os dias esperando que passem perto da sua cancela, de nariz convenientemente espetado por detrás da cortina de renda fingida. Os gatos são uma excelente desculpa para sair, chama-os dias inteiros, assobiando como um rapazinho. Eles fazem ouvidos de mercador, cumprindo o papel de gatos, naturalmente. É terreno fértil em aventuras para felinos, o que rodeia a mulher que os acolheu.
A minha filha, sabe, sabe pois, já a viu, teve cancro e trazia bebés ao mundo, volta agora ao trabalho, que está melhorizinha, ela queria que eu tivesse um cão, assim sempre caminhava alguma coisita, mas eu...eu sou mais de gatos, compreende?
Compreendo.
Viu a minha neta? Essa sim, oh la la, trabalhou como hospedeira na Air France.
Tudo sabe da residência Madame L, só que está com os seus gatos, assobiando e chamando os mais distraídos que preferem caçar lagartixas e besouros a apanhar sol no jardinzinho.
A partir das sete da tarde, não se pode fazer barulho. Madame L. vê televisão, preenche a casa com a presença imaginária que lhe chega através da pequena tela, com o volume a um nível que justifica a fuga dos gatos. Fica assim, até de madrugada subir com dificuldade os degraus que levam ao seu pequeno quarto, parando de quando em quando, cerrando os olhos num esgar de dor, friccionando os joelhos inchados.
Veio de Lile, longe que estava dos olhos filiais preocupados, para um sul que acha mais frio que as suas paragens de origem, falta-lhe o calor humano que dizia ter na sua terra. De quando em vez escapa à vida reformada para ir comprar bugigangas a Espanha com os vizinhos que vieram de Paris gozar os últimos anos junto do mar, atentos ao mínimo burburinho no condomínio, controlando antenas, carros mal estacionados, dedicando-se à jardinagem, apesar de imaginar que não seguem os conselhos dos Monty Phyton, deve-lhes faltar a masturbação e estrangulamento de animais de estimação, que não têm, estragar-lhes-iam o jardim imaculado.
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Certas coisas são-lhe tão vergonhosas e duras que não se atreve a escrevê-las em português.
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Tenho à minha frente as seis janelas que me pintaste. Não estão penduradas. Posso pegar nelas e levá-las para onde for, debaixo do braço. A imagem não lhes faz justiça, é redutora, tal como o são as palavras que agora escrevo com luz de uma vela e a luminosidade de um écrã de televisão, companhia para alguém que clama dar-se bem com o estar fisicamente só.
Fecho os olhos e tenho uma idade qualquer, convinha ser criança e embarcada numa fantasia de fuga de casa, mas desconfio que pouco funcionaria tal ideia, era acusada de fugir com frequência, mas não se passava nada disso, os grandes ignoravam que simplesmente não me ocorria avisar alguém do que faria nos próximos tempos. E saía, assim, distraidamente porta fora. Fecho os olhos e tenho novamente essa idade qualquer perdida numa linha imaginária a que convencionámos chamar de tempo. Debaixo dum braço poderia levar a tela, no outro talvez o tradicional urso, que para mim sempre foi o Beto, hoje cego, sem nariz, de braços remendados e a pelúcia ruça das lavagens. Não pesam nada, o resto que vai cá dentro sim.
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o silêncio dos amantes abraçados contra a morte
(les amants, Raymonde Jodoin)
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As personagens que me acompanharam durante poucos meses partiram encaixotadas, sem esperança de existirem para além das páginas. Deixaram-me numa vertigem leve, ainda caminhando num fio de arame, não muito fino, vou ensaiando por ele passos desprovida de sapatos salpicados com pó-de-talco. Lá em baixo há uma rede. Não torna a queda menor, porém.
Algumas ficaram comigo, fazendo-me cócegas quando estou distraída, outras queixando-se do excessivo ou escasso destaque que lhes foi dado. Foi bom ter espreitado para o lado de lá, de forma mais longa do que sempre fiz desde que aprendi o abecê. Obrigada por me terem dado um vislumbre das vossas vidas.
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para o olhar, na nova secção, ali ao lado, Miradouro.
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Não... embrenhada que estou numa montanha de papéis.
Pena que por trás deste pôr-do-sol (poderei tornar-me mais vulgar que isto? sim, poderei) esteja um outro emaranhado, que pelos vistos orgulha muito boa gente, de prédios mirabolantes, um deles ostentando o nome do Vasquito, esse mesmo, o Gama. A outra face de La Grande Motte, fronteira de acesso aos arrozais de La Petite Camargue, no post acima...
(Vicent Formica)
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Erguido em meados do século XVIII, para proteger a área dos crescentes ataques de piratas, alberga hoje em dia o Museu Humorístico Albert Dubout.
p.s. as coisas que se vão buscar quando o tempo nos escorre entre os dedos...
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Um dos locais mais belos da zona, para mim, Maguelone.
Aqui, subindo escadas da catedral do século XI. Despojada, por isso ainda mais bela, localizada num emaranhado de lagoas e charnecas cujos trilhos não domino.
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2:36 AM
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E parecia aquele Tejo
este rio doirado
parecia até que tu vinhas
comigo a meu lado
ou seria das flores
e das matas cheirosas
das madressilvas dos frutos
das ervas babosas
E pareciam campinas
vales tão estendidos
pareciam mesmo os teus braços
que me abraçam cingidos
ou seria das silvas
do gengibre e benjoim
do cheiro daquela chuva
dos cacimbos enfim
porque haveria de ter
saudades tuas
ao longo de um claro rio
de água doce
E parecia verão
no imenso arvoredo
parecia até que dizias
qualquer coisa em segredo
ou seria dos dias
muito quedos sem fim
das noites muito melhor
assombradas assim
porque haveria de ter
saudades tuas
ao longo de um claro rio
de água doce
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Se nem na vida consigo pôr ordem nos acontecimentos, não haverá certamente motivo para aqui ir colocando com lógica cronológica Fausto e retalhos da história do país que abracei como também meu, porque precisamos por vezes dessa noção de pertença.
Trocando as voltas à Peregrinação e à Trágico-Marítima, começo pelo fim, por ser o único início possível, subindo o rio vou-me embrenhando nas matas até chegar ao planalto que primeiro aqueceu os meus pais, e também o músico já lá deve andar. Contar-nos-á certamente no próximo disco, se o próximo for o último da prometida trilogia, vem um em cada dez anos. É um gajo esperançado, o Fausto. Pelo menos acredita que viverá até lá.
"E tomou-se a boca do rio de S.Lourenço, achando por novas que numa povoação acima estavam alguns portugueses no resgate do marfim. E foi-se por ele, muito quietamente, entre margens povoadas de altas e espessas árvores que levam entretecidas os braços em formosa folhagem. E as matas de diversas cores cheiravam a tigres, onças, leões elefantes e gatos de algália. As flores em cachos amarelos fazem um suave rugido que aos três sentidos enche e farta. Cheirava a oregãos, fetos, agriões, poejos, malvas, alecrim... alecrim..."
p.s. A do gato de algália é excelente, convenhamos. Esperemos que hoje em dia o bicharoco seja conhecido por gato almiscareiro.
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Povoam profusamente estas lagoas, estes belíssimos animais equilibristas. Não migram, como os seus primos de outras paragens, nem mesmo quando o frio vem bem forte.
E se ele vem forte... há pouco de temperado nesta região, o frio é gélido, o calor abrasante e os Verões mais parecem a época das monções africanas.
Não nos deixemos enganar pelo porte altivo dos bicharocos. São mais simpáticos e acessíveis que os vizinhos humanos da zona.
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A palavra soa a coisa boa, mas não é o caso.
Neste momento, com tanta água caindo, as imensas lagoas que rodeiam o local onde me encontro lembram Veneza e Aveiro. E não, não sinto qualquer culpa na comparação. Entre Aveiro e Veneza, entenda-se...
São belíssimos os locais próximos, virão aí fotografias que os antecipam, mas convém passear de lenço tapando cavidades nasais.
E daí concluo que os flamingos não devem ter grande faro.
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And I dreamed I saw the bombers
Riding shotgun in the sky
And they were turning into butterflies
Above our nation
Para o título deste post podia ter roubado novamente ao Caetano - Beleza Pura.
Outras letras me chamam hoje com urgência, saio de fininho, deixando-vos a Joni Mitchell e esta coisa linda.
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10:47 AM
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Cá em casa até se benzeram quando ouviram isto, mas não há nada a fazer. Continuo a adorar Faith No More, até quando brincam com covers. Fica a faltar o tema do Midnight Cowboy tocado a harmónica.
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Seria Natal? Talvez. Tenho febre e sou alçada da cama com esforço,
-são horas, pinguim de água doce.
Não sei como me levam para aquele teatro, desconheço a peça, enredo ou a personagem que desempenho. Alguns diziam aos filhos que eramos os retornados, que vínhamos piorar a situação de crise, tirar empregos aos de cá, que se tinha acabado a nossa vida boa. Eu não sabia o que aqui fazia e não retornara de sítio algum, só queria deitar-me e que a mãe me envolvesse na manta e me pusesse panos frios na testa. Ao meu redor correm todos apressados, enfiam-me em collants infantis coloridas e pregam-me asas de borboleta. Picam-me com os alfinetes que prendem os apêndices e é pena que me doa, senão levantava voo dali para uma cidade quente e levava-a comigo,
-está quieta miúda, deixa pregar as asas,
Não sei onde entro na peça, vejo-me em palco maquinalmente, corrompendo aquele espaço sagrado que deve libertar, mas o corpo está quente e até asas de borboleta pesam. Ela está sentada à frente, nos primeiros fatos que protegem do frio, desconhecidos da sua pele branquíssima habituada à distância entre o morno da planície em que nasceu e ao escaldante da baía em que me pariu. Devo vê-la sorrir ao ver-me assim, o cabelo num coque como uma pequeníssima bailarina, e as asas esvoaçantes. Sorria por não saber que as asas me picavam.
Nas fotos que nos entregam está no seu fato invernoso, pensando na sua morna terra, talvez adivinhando que eu preferiria colocar à volta da cintura as franjas que usava quando era ainda mais pequena, e ensaiar um merengue. Mesmo que estivesse a arder em febre.
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Quando se aproximava a data de eleições, quaisquer que estas fossem, a avó fazia a sua costumeira visita à prima, imagem matriarcal na família, apesar de não ter sido mãe, mas suspeito que com afilhados pelos cinco continentes. Aquela senhora enorme, instalada num cadeirão respeitável, recebia ao longo do dia, tal Godfather, um séquito de gentes que lhe buscavam os conselhos, bençãos, ou amena cavaqueira acompanhada de merendas copiosas trazidas pela criada de tempos antigos, daquela que vive uma vida inteira na mesma casa, servindo as diferentes gerações da família. Hoje em dia a palavra é pouco agradável, mas era adequada, se bem que ali a senhora governa. estou certa que teria achado muito bem ser vista como governanta da casa.
Todas as tardes de escutava o terço pela rádio naquele lar tradicionalista. Até que vinha a avó, com o seu elogio ao comunismo, garantindo que o seu voto iria para os seus camaradas. Creio terem sido as únicas vezes em que assisti ao rosto daquela prima-avó encher-se num vermelhão nervoso, tal a urticária que a terminologia lhe causava, e ao pavor de ter na família uma vergonha daquelas. As facções políticas tinham um peso muito diferente então. Tão diferente que recordo, noutra parte da tribo, um amigo de família que se munia da caçadeira cada vez que Cunhal aparecia no écran a preto e branco. Assim foram dois aparelhos de televisão para a sucata, até a esposa se ter convencido que era melhor não voltar a investir na tecnologia, naqueles tempos conturbados de suposta instalação da democracia.
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E isto porque o som de um comentário do Discovery Civilization me fazia companhia ao tentar "trabalhar". Até ter chegado o nome do próximo programa aos tímpanos- Grandes Livros. Debruçam-se hoje, pelos vistos, no Coração das Trevas, que li no original, felizmente, há vários anos, e que me marcou de tal forma que me vou recusando a lá voltar.
O Conrad, esse nato polaco que só viria a aprender a língua na qual escreveu com mestria depois dos vinte anos de idade, e após ter balançado o corpo em navegações longas por mares revoltos, voltou-se para o mais tormentoso dos oceanos, que nos banha interiormente. O Coppola imaginou, suou e sangrou o seu magnífico Apocalypse Now a partir da viagem interior deste livro. No processo quis matar-se, quase acabou o casamento, o seu actor principal ia morrendo com um ataque cardíaco, foi à falência, arranjou problemas com governos de terras distantes, o da terra em que filmava, debatendo-se com a sua própria guerrilha, e o outro, que não achou grande piada ao recontar da pura loucura da guerra. E deu-nos um Kurtz que fica sempre connosco.
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Apenas
amor,
não me dês tanto não
uma vez ou outra
prende-me nos teus braços
e envolve-me na carícia morena e loira
do teu desejo
uma vez ou outra
esquecerei tudo
até as manhãs
em que nos vêm buscar
e não sabemos se voltamos
e se somos homens ou coisas
e se conhecemos o sentido natural do riso
e se é verdade ou mentira
os filhos a chamar
e a casa e a mulher
de olhos espantados de medo
nem um assomo de remorso despertando
amor
não me dês tanto não
só uma vez ou outra
prende-me nos teus braços em cruz
e envolve-me na carícia morena e loira
do teu amor
e na certeza de paz
do teu carinho.
uma vez ou outra
só uma vez
só uma vez ou outra
prende-me nos teus braços,
amor.
José Craveirinha
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No mar tormentoso do Chile vive o rosado congro, enguia gigante de nevada carne. E nas panelas chilenas, na costa, nasceu o caldillo grávido e suculento, proveitoso. Levam para a cozinha o congro esfolado, a sua manchada pele cede como uma luva e a descoberto fica então a uva do mar, o congro tenro reluz já nu, preparado para o nosso apetite. Agora pegas em alhos, acaricia primeiro esse marfim precioso, cheira a sua fragância iracunda, então deixa o alho picado cair com a cebola e o tomate, até que a cebola tenha cor de ouro. Entretanto cozem-se no vapor os reais camarões marinhos, e quando estiverem a chegar ao seu ponto, quando se consolidar o sabor num molho formado pelo suco do oceano e pela água clara que soltou a luz da cebola, então que entre o congro e mergulhe na glória, que na panela se aceite, se contraia e se impregne. Já só é necessário deixar no manjar cair o creme como uma rosa espessa e ao lume lentamente entregar o tesouro até que no caldillo se aqueçam as essências do Chile, e à mesa cheguem recém-casados os sabores do mar e da terra, para que nesse prato tu conheças o céu.
In Odes Elementares, de Pablo Neruda
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1:40 PM
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O Zé avisa, logo no início. As referências são de tempos idos, as personagens hoje em dia têm nomes diferentes. Sem pedidos de desculpa a ouvidos mais sensíveis.
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Eis um dos meus músicos favoritos.
Em absoluto.
Absolutamente genial.
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Aguardo o momento de me espraiar, dando forma à palavra que compõe o verbo, ficar assim, na diagonal, revelando apenas o bocal, procurando ser visível para quem me saiba ver, pegar em mim e com cuidados maternais ou curiosidade infantil, sacar uma rolha que tenha sabido conservar-me do sal e do chão de água em que boiei durante todo este tempo.
Com as preocupações tolas próprias de uma mensagem engarrafada, receei que o vidro fizesse o papel de lupa, e que nos ares ardentes dos trópicos que me bafejaram, o papel enrolado desistisse de chegar ao areal e pegasse fogo, abandonando-se à justa lei física.
Cruzei-me com barracudas que me miraram com olhos de apetite, confundindo-me com presa, e receei por elas, não lhes querendo ferir a boca com os meus cacos de vidro; com congros nos mares do Chile, a quem desejei longa vida, se não fossem parar às mãos de algum poeta dado a artes gastronómicas; levei comigo uma estrela do mar, que me abraçou com suas ventosas, largando uma mão de vez em quando para acenar aos cavalos-marinhos que por nós passavam.
Na borrasca de um mar que se atrevem a chamar de Pacífico, veio-me o medo, o medo de que as ondas me levassem contra as pontas do recife, me quebrassem a pele, e ali jazeriam meus restos, os vidros permanecendo e reflectindo as cores surreais, o papel desfazendo-se, as palavras afogando-se nas águas menos mexidas do fundo, olhando para cima de vez em quando e vendo milhares de bolhas, numa revolução de águas zangadas.
Agora que penso nisso, seria honroso jazer numa tamanha profusão de coral, de peixes de cores impossíveis e anémonas brilhantes, aguardando as noites em que a lua incha até quase estourar, grávida de luz que me pareceria prata, ali, no fundo.
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Porque as palavras fogem daqui para outras páginas.
Porque sequer escrevo sobre a Ella ou como ela acompanhou o meu crescer.
Porque fujo para cá com pés de lã, na esperança que as outras personagens penduradas durmam ainda, e não se sintam abandonadas.
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12:07 PM
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- Les choses sont pas comme ça en France!
- Pois, filha, esse é um dos problemas.
Os fiéis leitores, parte deles silenciosos ( e fiéis por serem fiéis amigos :) ) questionam-se àcerca do estado mental que origina tão tolos posts. Não, não, não se preocupem. É defeito de origem mesmo. Esclarecidas las cositas, passemos a assuntos mais sérios.
Já tenho TV Cabo! Nunca fui grande espectadora de televisão, mas estou longe, porra, e, sobretudo, acabo de descobrir que afinal aqui têm mas é inveja de eu poder ver o Sai de Baixo, as entrevistas da Marília Gabriela, de ter colocado uma parabólica impossível de vislumbrar de qualquer ponto da residência, ameaçando iniciar uma revolta que transformaria estas casinhas numa plantação de champignons, que se espalharão rebeldes pelos telhados, por estar prestes a empestar o ar com um belo entrecosto assado (a sorte deles é não haver sardinhas frescas), e ainda por ter em cima da secretária um pacote meu, só meu, de bolachas Maria do Continente (não, não são da Triunfo, mas não sejamos picuinhas, sim?).
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kanuthya
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12:37 PM
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A Rosa de Hiroxima
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
Vinícius de Moraes
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kanuthya
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11:47 AM
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Aproximam-se certamente as tempestades de Verão, semelhantes às africanas no troar que me faz querer esconder debaixo da cama. Como o sentido prático cá acampa de vez em quando, dir-se-ia que a cama encontrada fazia já parte de uma terapia conveniente ao ultrapassar de medos, japonesa e rasteira, fica-se sem fuga. Não esperava topar com raios destes no Mediterrâneo, ou daqueles, melhor dizendo, uma vez que ainda não nos visitaram este Estio, apenas se fizeram ouvir na sua imponência a vários quilómetros de distância, um dia destes, como visitas régias que levam banda à frente para nos irem preparando para a chegada. Os temporais e enxurradas de Verão têm uma característica peculiar por aqui: não diminuem o calor pegajoso, que se cola a nós como uma segunda pele, o ar mantém-se pesado, pesadão, um fardo tremendo.
Venham, pois. Cá vos espero.
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11:55 AM
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2:24 PM
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É um título de uma canção da Gal, escrita pelo Ary Barroso e Vinicius de Moraes, e existe um risco real de muita da música que por aqui vier a passar ser feita no Brasil. Faz-me sentir mais perto de uma casa que busco desde que me lembro de ser gente.
Mas nada disto tem a ver com o post, eu é que mudo constantemente de tema. Já era bem tempo de encontrar um dicionário de Língua Portuguesa on line que fosse minimamente decente, aqui - http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx.
Avé.
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12:02 PM
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Eis a oportunidade de conjugar dois prazeres e colmatar falhas. Inicei a leitura de Equador, e sinto-me já embrenhada, tão pouco avançada que vou no enredo, no paço de Vila Viçosa, na recordação amarga de um Mouzinho de Albuquerque, em enleios que me recordam queirosices (sem que este último termo tenha algo de pejorativo, antes pelo contrário), em descrições de ceias faustosas apropriadas ao barrigudo do D. Carlos, que era habilidoso, como vemos aqui ao lado. Sabiam muitos, os fazedores das modas da época, um traseiro espevitado cai sempre bem na figura delicada de rendas alvas.
É que ele há gente tão preguiçosa e mimada, que aguarda que se escrevam romances para estudar melhor períodos históricos.
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11:20 AM
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12:37 PM
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Tiram-te a venda
e entre paredes de lágrimas
aprendes que não existes ainda.
És apenas devir.
Natália Correia
Pescado de um de dois volumes gordos que não resisti a trazer comigo, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias.
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12:34 PM
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Buscando uma foto para ilustrar um post totalmente despropositado e nojento, ocorre-me visitar o site da Renova, sem fazer qualquer esforço para passar a publicidade, e, assim sendo, começo por agradecer-lhe os meus primeiros risinhos maquiavélicos do dia - vide www.renova.pt. Ele é uma nova visão dos rolos de papel higiénico, senhores e senhoras. Mas o que me fascina particularmente é o uso dos adjectivos, embora a expressão "Ligação emocional" me tenha ficado como ternurenta. De qualquer forma, agradecia que alguém me esclarecesse àcerca da fabulosa afirmação encontrada na secção Lenços:
"Os lenços Renova são práticos, coerentes e funcionais."
Lenços coerentes... genial. Adiante. (Isto bem visto é mais marcha-atrás, mas pronto...)
Levantam-se vozes nobres e indignadas perante as questões kármicas que nos assolam, não aceitando o sofrimento como necessário à aprendizagem, sendo de verificar que de facto esse sofrimento nos faz aceder ao mais primordial de nós mesmos, transformando-nos em homens das cavernas uma vez mais, quando nos sentimos acossados, agredidos, empurrando-nos a empunhar as mais duras armas, a fazer mais sangue, ou, no caso de almas menos dadas a deixar escapar primordialidades, a escondermo-nos num cantinho escuro e esperar que a tormenta amaine, para depois sairmos da gruta e verificar os estragos.
Estranho que, impulsiva e feroz em palavras como tenho sido, e mais já o fui, nunca tenha tido grande tendência para me revoltar.
De qualquer forma, posso acrescentar que as mais terríveis dores de cabeça me abandonam quando finalmente sangro do nariz. E sim, tem toda a razão, this post sucks.
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Ora bem, se tenta perceber que raio me passa pela cabeça, desista. Há coisas bem mais interessantes a fazer.
Em breve chatearei alguém para me poupar tempo (como se não o tivesse de sobra), e introduzir algo que se torna essencial para dar sentido a alguns posts. Se já sabes que és tu, esconde-te, enquanto ainda tens tempo.
Ando fascinada com as novas aquisições para casa, roubadas ao lar paterno, e sobretudo materno, que é assim uma espécie de feira da ladra sem itens roubados, uma vez que a única ladra lá sou eu, de objectos, memórias, estórias, sendo que as últimas são levadas sem pedir autorização. Num egoísmo extremo, inclino-me numa vénia sentida a quem se lembrou de inventar essa coisa extraordinária que coa o meu café palanka negra e que perfuma as minhas manhãs desse odor único que é o do bom café. Ele há vantagens fantásticas na vida, como comprar o café ao senhor que trabalhou em nobre torrefacção angolana.
Mais pormenores domésticos inúteis em breve. Talvez.
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12:25 PM
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2:29 PM
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Todo Este Céu
abraça-me bem
e cobre o meu corpo
enfim
nesse agasalho
são os teus braços
sim
cuida de mim
basta-me um gesto
porém
abraça-me bem
bem no teu colo
chega-me mais a ti
um pouco mais
suavemente
assim
tudo por fim
são mágoas
que eu consolo
bem no teu colo
todo este céu
de pássaros e tons
muito assombrado
traz o teu ser
tão bom
todo este som
desce a nós
com um véu
todo este céu
lançado à terra
sobre restingas e ilhéus
mil sombras de asas
lembram a ausência
de um deus
num último adeus
pois só teu afago
me espera
lançado à terra
e qualquer coisa acontece
no mais alto dos céus
qualquer coisa no fundo
do meu coração
mas não sei das trevas
nem da luz
pois sem ti não há
nem céu
nem chão
e se a noite já ronda
minha cruz
luz nas trevas
minha paixão
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Obrigada por não me teres deixado cair dos braços em miúda.
O obrigada não chega é para tanta coisa bonita que fazes.
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Voltei.
zzzzz.
Amanhã devo voltar mesmo.
zzzz.
Até jázzzzz.
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4:42 PM
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{1} Tamanho total dos arquivos do meu computador
O meu computador...errr conceito interessante: um está num armário com disco arranhado e arreganhado para mim, até eu voltar e lhe dar uma sova, tem muita música, recordo, isto é, muita para mim, uma insignificância para gente com pcs dignos desse nome com memórias de jeito; vou adicionando mp3 a pc alheio que uso, devem ser uns 2 gigas...mas muita coisa foi gravada entretanto.
{2} Último disco que comprei.
Nick Cave & The Bad Seeds, Abbatoir Blues / Lyre of Orpheus.
{3} Canção que estou a escutar agora.
Dizzy Dizzy, dos Can, nos ficheiros recheados do meu mano, que costumam reservar boas surpresas e que frequentemente me fazem referir, como quem não quer a coisa, Ah, o que seria dele se não tivesse tido a minha iniciação musical...
{4} Cinco discos que ouço frequentemente ou que têm algum significado para mim.
Os do Fausto, que já não escuto há algum tempo, mas ainda bem que mo lembram, vou roubá-los já e levá-los comigo, a saber, e sobretudo, Por este Rio Acima, Crónicas da Terra Ardente e O Despertar dos Alquimistas, Mystery White Boy, do Jeff Buckley, Ar, Danças Ocultas. (São tantos...tenho que referir desrespeitando quantidades: Caetano Veloso, vários...)
{5} Lanço o repto a outros bloggers.
Não lanço...Não tenho grande jeito para interrogações. Acho.
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1:56 AM
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Ele passeava com o avô num areal banhado por águas mornas, tão distantes e diferentes do oceano em que nasci e me fiz. As grandes superfícies de água têm esta magia, desde que abertas, permitem-nos a suposição de encontros pouco prováveis de duas minúsculas moléculas d'água, por mais longe que se encontrem.
Ele prometera ao avô: Um dia farei um castelo de areia com a minha namorada na praia. E passearei com ela na areia, de mãos dadas.
O senhor sorriu abertamente ao neto predilecto. A tal namorada teve a fortuna de o chegar a conhecer, esse mediterrânico altivo e belíssimo, já afundado na névoa da idade que lhe pesava, e nas saudades da mulher partida tão cedo. E tem pena, apesar de se dizer que o que nos está destinado tem muita força, de não ter chegado a fazer o castelo de grãos de areia moldados pela humidade salgada e por mãos entrelaçadas. Tem pena mas não dói. Por vezes.
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1:29 PM
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