Friday, September 23, 2005
Aigues Mortes
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Wednesday, September 21, 2005
Monday, September 19, 2005
La Grande Motte au coucher du soleil
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mas não chega ainda?
Não... embrenhada que estou numa montanha de papéis.
Pena que por trás deste pôr-do-sol (poderei tornar-me mais vulgar que isto? sim, poderei) esteja um outro emaranhado, que pelos vistos orgulha muito boa gente, de prédios mirabolantes, um deles ostentando o nome do Vasquito, esse mesmo, o Gama. A outra face de La Grande Motte, fronteira de acesso aos arrozais de La Petite Camargue, no post acima...
(Vicent Formica)
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Saturday, September 17, 2005
água, água e mais água
Barque_de_pecheur_sur_letang_de_Canet_Vicent formica
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Redoute de Ballestras
Erguido em meados do século XVIII, para proteger a área dos crescentes ataques de piratas, alberga hoje em dia o Museu Humorístico Albert Dubout.
p.s. as coisas que se vão buscar quando o tempo nos escorre entre os dedos...
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Friday, September 16, 2005
Em Palavas Les Flots...
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Thursday, September 15, 2005
Pedra e Luz
Um dos locais mais belos da zona, para mim, Maguelone.
Aqui, subindo escadas da catedral do século XI. Despojada, por isso ainda mais bela, localizada num emaranhado de lagoas e charnecas cujos trilhos não domino.
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Wednesday, September 14, 2005
ao longo de um claro rio de água doce
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E parecia aquele Tejo
este rio doirado
parecia até que tu vinhas
comigo a meu lado
ou seria das flores
e das matas cheirosas
das madressilvas dos frutos
das ervas babosas
E pareciam campinas
vales tão estendidos
pareciam mesmo os teus braços
que me abraçam cingidos
ou seria das silvas
do gengibre e benjoim
do cheiro daquela chuva
dos cacimbos enfim
porque haveria de ter
saudades tuas
ao longo de um claro rio
de água doce
E parecia verão
no imenso arvoredo
parecia até que dizias
qualquer coisa em segredo
ou seria dos dias
muito quedos sem fim
das noites muito melhor
assombradas assim
porque haveria de ter
saudades tuas
ao longo de um claro rio
de água doce
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Antes da canção
Se nem na vida consigo pôr ordem nos acontecimentos, não haverá certamente motivo para aqui ir colocando com lógica cronológica Fausto e retalhos da história do país que abracei como também meu, porque precisamos por vezes dessa noção de pertença.
Trocando as voltas à Peregrinação e à Trágico-Marítima, começo pelo fim, por ser o único início possível, subindo o rio vou-me embrenhando nas matas até chegar ao planalto que primeiro aqueceu os meus pais, e também o músico já lá deve andar. Contar-nos-á certamente no próximo disco, se o próximo for o último da prometida trilogia, vem um em cada dez anos. É um gajo esperançado, o Fausto. Pelo menos acredita que viverá até lá.
"E tomou-se a boca do rio de S.Lourenço, achando por novas que numa povoação acima estavam alguns portugueses no resgate do marfim. E foi-se por ele, muito quietamente, entre margens povoadas de altas e espessas árvores que levam entretecidas os braços em formosa folhagem. E as matas de diversas cores cheiravam a tigres, onças, leões elefantes e gatos de algália. As flores em cachos amarelos fazem um suave rugido que aos três sentidos enche e farta. Cheirava a oregãos, fetos, agriões, poejos, malvas, alecrim... alecrim..."
p.s. A do gato de algália é excelente, convenhamos. Esperemos que hoje em dia o bicharoco seja conhecido por gato almiscareiro.
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Tuesday, September 13, 2005
Flamingos na Petite Camargue
Povoam profusamente estas lagoas, estes belíssimos animais equilibristas. Não migram, como os seus primos de outras paragens, nem mesmo quando o frio vem bem forte.
E se ele vem forte... há pouco de temperado nesta região, o frio é gélido, o calor abrasante e os Verões mais parecem a época das monções africanas.
Não nos deixemos enganar pelo porte altivo dos bicharocos. São mais simpáticos e acessíveis que os vizinhos humanos da zona.
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Monday, September 12, 2005
Odores
Venice grand canal looking towards the dogana 1840 aguarela by Turner
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A palavra soa a coisa boa, mas não é o caso.
Neste momento, com tanta água caindo, as imensas lagoas que rodeiam o local onde me encontro lembram Veneza e Aveiro. E não, não sinto qualquer culpa na comparação. Entre Aveiro e Veneza, entenda-se...
São belíssimos os locais próximos, virão aí fotografias que os antecipam, mas convém passear de lenço tapando cavidades nasais.
E daí concluo que os flamingos não devem ter grande faro.
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Friday, September 09, 2005
H2O
...não faltou por cá, e na companhia dos retratados na foto afastaram-me deste canto. Fiquei por aqui entre folhas soltas e a lembrança de Marguerite Gautier e Armand Duval, que se recolheram novamente para dentro das folhas impressas.
A água é tanta que segui pela mão de uma autora que me surpreendeu, como sempre acontece com preconceitos que se instalam vindos sabe-se lá donde. Povoam agora noites à espera do sono os últimos dias da aldeia Rio de Anjo, no Prenúncio das Águas, da Rosa Lobato de Faria.
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Monday, September 05, 2005
Pó de estrelas
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And I dreamed I saw the bombers
Riding shotgun in the sky
And they were turning into butterflies
Above our nation
Para o título deste post podia ter roubado novamente ao Caetano - Beleza Pura.
Outras letras me chamam hoje com urgência, saio de fininho, deixando-vos a Joni Mitchell e esta coisa linda.
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Friday, September 02, 2005
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Cá em casa até se benzeram quando ouviram isto, mas não há nada a fazer. Continuo a adorar Faith No More, até quando brincam com covers. Fica a faltar o tema do Midnight Cowboy tocado a harmónica.
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Thursday, September 01, 2005
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Wednesday, August 31, 2005
let them begin the beguine
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Pearl
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Tuesday, August 30, 2005
voarei daqui
Seria Natal? Talvez. Tenho febre e sou alçada da cama com esforço,
-são horas, pinguim de água doce.
Não sei como me levam para aquele teatro, desconheço a peça, enredo ou a personagem que desempenho. Alguns diziam aos filhos que eramos os retornados, que vínhamos piorar a situação de crise, tirar empregos aos de cá, que se tinha acabado a nossa vida boa. Eu não sabia o que aqui fazia e não retornara de sítio algum, só queria deitar-me e que a mãe me envolvesse na manta e me pusesse panos frios na testa. Ao meu redor correm todos apressados, enfiam-me em collants infantis coloridas e pregam-me asas de borboleta. Picam-me com os alfinetes que prendem os apêndices e é pena que me doa, senão levantava voo dali para uma cidade quente e levava-a comigo,
-está quieta miúda, deixa pregar as asas,
Não sei onde entro na peça, vejo-me em palco maquinalmente, corrompendo aquele espaço sagrado que deve libertar, mas o corpo está quente e até asas de borboleta pesam. Ela está sentada à frente, nos primeiros fatos que protegem do frio, desconhecidos da sua pele branquíssima habituada à distância entre o morno da planície em que nasceu e ao escaldante da baía em que me pariu. Devo vê-la sorrir ao ver-me assim, o cabelo num coque como uma pequeníssima bailarina, e as asas esvoaçantes. Sorria por não saber que as asas me picavam.
Nas fotos que nos entregam está no seu fato invernoso, pensando na sua morna terra, talvez adivinhando que eu preferiria colocar à volta da cintura as franjas que usava quando era ainda mais pequena, e ensaiar um merengue. Mesmo que estivesse a arder em febre.
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Sunday, August 28, 2005
-ismos para cá, -ismos para lá
Quando se aproximava a data de eleições, quaisquer que estas fossem, a avó fazia a sua costumeira visita à prima, imagem matriarcal na família, apesar de não ter sido mãe, mas suspeito que com afilhados pelos cinco continentes. Aquela senhora enorme, instalada num cadeirão respeitável, recebia ao longo do dia, tal Godfather, um séquito de gentes que lhe buscavam os conselhos, bençãos, ou amena cavaqueira acompanhada de merendas copiosas trazidas pela criada de tempos antigos, daquela que vive uma vida inteira na mesma casa, servindo as diferentes gerações da família. Hoje em dia a palavra é pouco agradável, mas era adequada, se bem que ali a senhora governa. estou certa que teria achado muito bem ser vista como governanta da casa.
Todas as tardes de escutava o terço pela rádio naquele lar tradicionalista. Até que vinha a avó, com o seu elogio ao comunismo, garantindo que o seu voto iria para os seus camaradas. Creio terem sido as únicas vezes em que assisti ao rosto daquela prima-avó encher-se num vermelhão nervoso, tal a urticária que a terminologia lhe causava, e ao pavor de ter na família uma vergonha daquelas. As facções políticas tinham um peso muito diferente então. Tão diferente que recordo, noutra parte da tribo, um amigo de família que se munia da caçadeira cada vez que Cunhal aparecia no écran a preto e branco. Assim foram dois aparelhos de televisão para a sucata, até a esposa se ter convencido que era melhor não voltar a investir na tecnologia, naqueles tempos conturbados de suposta instalação da democracia.
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Friday, August 26, 2005
O livro mira-me da prateleira. Eu deixo-o lá ficar, por agora. Mas escuto-o.
E isto porque o som de um comentário do Discovery Civilization me fazia companhia ao tentar "trabalhar". Até ter chegado o nome do próximo programa aos tímpanos- Grandes Livros. Debruçam-se hoje, pelos vistos, no Coração das Trevas, que li no original, felizmente, há vários anos, e que me marcou de tal forma que me vou recusando a lá voltar.
O Conrad, esse nato polaco que só viria a aprender a língua na qual escreveu com mestria depois dos vinte anos de idade, e após ter balançado o corpo em navegações longas por mares revoltos, voltou-se para o mais tormentoso dos oceanos, que nos banha interiormente. O Coppola imaginou, suou e sangrou o seu magnífico Apocalypse Now a partir da viagem interior deste livro. No processo quis matar-se, quase acabou o casamento, o seu actor principal ia morrendo com um ataque cardíaco, foi à falência, arranjou problemas com governos de terras distantes, o da terra em que filmava, debatendo-se com a sua própria guerrilha, e o outro, que não achou grande piada ao recontar da pura loucura da guerra. E deu-nos um Kurtz que fica sempre connosco.
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constato que preferia estar a ler isto.
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Wednesday, August 24, 2005
Apenas assim sei que vivo
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Apenas
amor,
não me dês tanto não
uma vez ou outra
prende-me nos teus braços
e envolve-me na carícia morena e loira
do teu desejo
uma vez ou outra
esquecerei tudo
até as manhãs
em que nos vêm buscar
e não sabemos se voltamos
e se somos homens ou coisas
e se conhecemos o sentido natural do riso
e se é verdade ou mentira
os filhos a chamar
e a casa e a mulher
de olhos espantados de medo
nem um assomo de remorso despertando
amor
não me dês tanto não
só uma vez ou outra
prende-me nos teus braços em cruz
e envolve-me na carícia morena e loira
do teu amor
e na certeza de paz
do teu carinho.
uma vez ou outra
só uma vez
só uma vez ou outra
prende-me nos teus braços,
amor.
José Craveirinha
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Tuesday, August 23, 2005
Do tal poeta dado a artes gastronómicas, com o perdão pela alteração do desenho estrófico
No mar tormentoso do Chile vive o rosado congro, enguia gigante de nevada carne. E nas panelas chilenas, na costa, nasceu o caldillo grávido e suculento, proveitoso. Levam para a cozinha o congro esfolado, a sua manchada pele cede como uma luva e a descoberto fica então a uva do mar, o congro tenro reluz já nu, preparado para o nosso apetite. Agora pegas em alhos, acaricia primeiro esse marfim precioso, cheira a sua fragância iracunda, então deixa o alho picado cair com a cebola e o tomate, até que a cebola tenha cor de ouro. Entretanto cozem-se no vapor os reais camarões marinhos, e quando estiverem a chegar ao seu ponto, quando se consolidar o sabor num molho formado pelo suco do oceano e pela água clara que soltou a luz da cebola, então que entre o congro e mergulhe na glória, que na panela se aceite, se contraia e se impregne. Já só é necessário deixar no manjar cair o creme como uma rosa espessa e ao lume lentamente entregar o tesouro até que no caldillo se aqueçam as essências do Chile, e à mesa cheguem recém-casados os sabores do mar e da terra, para que nesse prato tu conheças o céu.
In Odes Elementares, de Pablo Neruda
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Sunday, August 21, 2005
Eco de grito longínquo - para ouvir com tempo
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O Zé avisa, logo no início. As referências são de tempos idos, as personagens hoje em dia têm nomes diferentes. Sem pedidos de desculpa a ouvidos mais sensíveis.
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Friday, August 19, 2005
Venha a morabeza
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Eis um dos meus músicos favoritos.
Em absoluto.
Absolutamente genial.
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Thursday, August 18, 2005
Correio Aquático
Aguardo o momento de me espraiar, dando forma à palavra que compõe o verbo, ficar assim, na diagonal, revelando apenas o bocal, procurando ser visível para quem me saiba ver, pegar em mim e com cuidados maternais ou curiosidade infantil, sacar uma rolha que tenha sabido conservar-me do sal e do chão de água em que boiei durante todo este tempo.
Com as preocupações tolas próprias de uma mensagem engarrafada, receei que o vidro fizesse o papel de lupa, e que nos ares ardentes dos trópicos que me bafejaram, o papel enrolado desistisse de chegar ao areal e pegasse fogo, abandonando-se à justa lei física.
Cruzei-me com barracudas que me miraram com olhos de apetite, confundindo-me com presa, e receei por elas, não lhes querendo ferir a boca com os meus cacos de vidro; com congros nos mares do Chile, a quem desejei longa vida, se não fossem parar às mãos de algum poeta dado a artes gastronómicas; levei comigo uma estrela do mar, que me abraçou com suas ventosas, largando uma mão de vez em quando para acenar aos cavalos-marinhos que por nós passavam.
Na borrasca de um mar que se atrevem a chamar de Pacífico, veio-me o medo, o medo de que as ondas me levassem contra as pontas do recife, me quebrassem a pele, e ali jazeriam meus restos, os vidros permanecendo e reflectindo as cores surreais, o papel desfazendo-se, as palavras afogando-se nas águas menos mexidas do fundo, olhando para cima de vez em quando e vendo milhares de bolhas, numa revolução de águas zangadas.
Agora que penso nisso, seria honroso jazer numa tamanha profusão de coral, de peixes de cores impossíveis e anémonas brilhantes, aguardando as noites em que a lua incha até quase estourar, grávida de luz que me pareceria prata, ali, no fundo.
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Wednesday, August 17, 2005
Howdy again, Mr. Joyce
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Tuesday, August 16, 2005
Ela era mais Ella
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Porque as palavras fogem daqui para outras páginas.
Porque sequer escrevo sobre a Ella ou como ela acompanhou o meu crescer.
Porque fujo para cá com pés de lã, na esperança que as outras personagens penduradas durmam ainda, e não se sintam abandonadas.
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Saturday, August 13, 2005
De passagem. No fundo tudo isto se deve à raiva surda da improdutividade literária.
- Les choses sont pas comme ça en France!
- Pois, filha, esse é um dos problemas.
Os fiéis leitores, parte deles silenciosos ( e fiéis por serem fiéis amigos :) ) questionam-se àcerca do estado mental que origina tão tolos posts. Não, não, não se preocupem. É defeito de origem mesmo. Esclarecidas las cositas, passemos a assuntos mais sérios.
Já tenho TV Cabo! Nunca fui grande espectadora de televisão, mas estou longe, porra, e, sobretudo, acabo de descobrir que afinal aqui têm mas é inveja de eu poder ver o Sai de Baixo, as entrevistas da Marília Gabriela, de ter colocado uma parabólica impossível de vislumbrar de qualquer ponto da residência, ameaçando iniciar uma revolta que transformaria estas casinhas numa plantação de champignons, que se espalharão rebeldes pelos telhados, por estar prestes a empestar o ar com um belo entrecosto assado (a sorte deles é não haver sardinhas frescas), e ainda por ter em cima da secretária um pacote meu, só meu, de bolachas Maria do Continente (não, não são da Triunfo, mas não sejamos picuinhas, sim?).
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Powered by my little pumpkin
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Aside lousy comment - hi there guys
Getting all the fantastic techniques about penis enlargement in hotmail accounts wasn't enough, spam finally gets to blogs. Fortunately, most links left here don't really work.
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Friday, August 12, 2005
...
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Wednesday, August 10, 2005
pés descalços e dendém
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Monday, August 08, 2005
Gracias
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Vinícius escreveu, Ney cantou.
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A Rosa de Hiroxima
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
Vinícius de Moraes
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Sunday, August 07, 2005
Metereologia Anunciada
Aproximam-se certamente as tempestades de Verão, semelhantes às africanas no troar que me faz querer esconder debaixo da cama. Como o sentido prático cá acampa de vez em quando, dir-se-ia que a cama encontrada fazia já parte de uma terapia conveniente ao ultrapassar de medos, japonesa e rasteira, fica-se sem fuga. Não esperava topar com raios destes no Mediterrâneo, ou daqueles, melhor dizendo, uma vez que ainda não nos visitaram este Estio, apenas se fizeram ouvir na sua imponência a vários quilómetros de distância, um dia destes, como visitas régias que levam banda à frente para nos irem preparando para a chegada. Os temporais e enxurradas de Verão têm uma característica peculiar por aqui: não diminuem o calor pegajoso, que se cola a nós como uma segunda pele, o ar mantém-se pesado, pesadão, um fardo tremendo.
Venham, pois. Cá vos espero.
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Friday, August 05, 2005
pronto, pronto, não insistam mais...
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Thursday, August 04, 2005
Já era tempo
É um título de uma canção da Gal, escrita pelo Ary Barroso e Vinicius de Moraes, e existe um risco real de muita da música que por aqui vier a passar ser feita no Brasil. Faz-me sentir mais perto de uma casa que busco desde que me lembro de ser gente.
Mas nada disto tem a ver com o post, eu é que mudo constantemente de tema. Já era bem tempo de encontrar um dicionário de Língua Portuguesa on line que fosse minimamente decente, aqui - http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx.
Avé.
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Carlinhos e os pincéis, ilustrando as letras que me preparam os sonhos
Eis a oportunidade de conjugar dois prazeres e colmatar falhas. Inicei a leitura de Equador, e sinto-me já embrenhada, tão pouco avançada que vou no enredo, no paço de Vila Viçosa, na recordação amarga de um Mouzinho de Albuquerque, em enleios que me recordam queirosices (sem que este último termo tenha algo de pejorativo, antes pelo contrário), em descrições de ceias faustosas apropriadas ao barrigudo do D. Carlos, que era habilidoso, como vemos aqui ao lado. Sabiam muitos, os fazedores das modas da época, um traseiro espevitado cai sempre bem na figura delicada de rendas alvas.
É que ele há gente tão preguiçosa e mimada, que aguarda que se escrevam romances para estudar melhor períodos históricos.
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Tuesday, August 02, 2005
a queixa, palavras encontradas aqui
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Malas felizes e pesadas
Tiram-te a venda
e entre paredes de lágrimas
aprendes que não existes ainda.
És apenas devir.
Natália Correia
Pescado de um de dois volumes gordos que não resisti a trazer comigo, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias.
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Aí vêm as actualizações para canções que estavam amordaçadas, esta aqui
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Monday, August 01, 2005
A tal Carta de Um Contratado, que apareceu aqui
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o que arde cura or something like that
Buscando uma foto para ilustrar um post totalmente despropositado e nojento, ocorre-me visitar o site da Renova, sem fazer qualquer esforço para passar a publicidade, e, assim sendo, começo por agradecer-lhe os meus primeiros risinhos maquiavélicos do dia - vide www.renova.pt. Ele é uma nova visão dos rolos de papel higiénico, senhores e senhoras. Mas o que me fascina particularmente é o uso dos adjectivos, embora a expressão "Ligação emocional" me tenha ficado como ternurenta. De qualquer forma, agradecia que alguém me esclarecesse àcerca da fabulosa afirmação encontrada na secção Lenços:
"Os lenços Renova são práticos, coerentes e funcionais."
Lenços coerentes... genial. Adiante. (Isto bem visto é mais marcha-atrás, mas pronto...)
Levantam-se vozes nobres e indignadas perante as questões kármicas que nos assolam, não aceitando o sofrimento como necessário à aprendizagem, sendo de verificar que de facto esse sofrimento nos faz aceder ao mais primordial de nós mesmos, transformando-nos em homens das cavernas uma vez mais, quando nos sentimos acossados, agredidos, empurrando-nos a empunhar as mais duras armas, a fazer mais sangue, ou, no caso de almas menos dadas a deixar escapar primordialidades, a escondermo-nos num cantinho escuro e esperar que a tormenta amaine, para depois sairmos da gruta e verificar os estragos.
Estranho que, impulsiva e feroz em palavras como tenho sido, e mais já o fui, nunca tenha tido grande tendência para me revoltar.
De qualquer forma, posso acrescentar que as mais terríveis dores de cabeça me abandonam quando finalmente sangro do nariz. E sim, tem toda a razão, this post sucks.
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Thursday, July 28, 2005
Aceitam-se marcações
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Wednesday, July 27, 2005
Narcissus Bulbocodium
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Sunday, July 24, 2005
Pequenas obras, precisam-se
Ora bem, se tenta perceber que raio me passa pela cabeça, desista. Há coisas bem mais interessantes a fazer.
Em breve chatearei alguém para me poupar tempo (como se não o tivesse de sobra), e introduzir algo que se torna essencial para dar sentido a alguns posts. Se já sabes que és tu, esconde-te, enquanto ainda tens tempo.
Ando fascinada com as novas aquisições para casa, roubadas ao lar paterno, e sobretudo materno, que é assim uma espécie de feira da ladra sem itens roubados, uma vez que a única ladra lá sou eu, de objectos, memórias, estórias, sendo que as últimas são levadas sem pedir autorização. Num egoísmo extremo, inclino-me numa vénia sentida a quem se lembrou de inventar essa coisa extraordinária que coa o meu café palanka negra e que perfuma as minhas manhãs desse odor único que é o do bom café. Ele há vantagens fantásticas na vida, como comprar o café ao senhor que trabalhou em nobre torrefacção angolana.
Mais pormenores domésticos inúteis em breve. Talvez.
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Friday, July 22, 2005
Click me - É da EDF, mas vale a pena ver
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Tuesday, July 19, 2005
Partidos da Baía de Todos os Santos para o Cabo da Boa Esperança...fica a faltar a música acompanhante, espero que chegue em breve
Todo Este Céu
abraça-me bem
e cobre o meu corpo
enfim
nesse agasalho
são os teus braços
sim
cuida de mim
basta-me um gesto
porém
abraça-me bem
bem no teu colo
chega-me mais a ti
um pouco mais
suavemente
assim
tudo por fim
são mágoas
que eu consolo
bem no teu colo
todo este céu
de pássaros e tons
muito assombrado
traz o teu ser
tão bom
todo este som
desce a nós
com um véu
todo este céu
lançado à terra
sobre restingas e ilhéus
mil sombras de asas
lembram a ausência
de um deus
num último adeus
pois só teu afago
me espera
lançado à terra
e qualquer coisa acontece
no mais alto dos céus
qualquer coisa no fundo
do meu coração
mas não sei das trevas
nem da luz
pois sem ti não há
nem céu
nem chão
e se a noite já ronda
minha cruz
luz nas trevas
minha paixão
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Fausto nos meus Dias
Obrigada por não me teres deixado cair dos braços em miúda.
O obrigada não chega é para tanta coisa bonita que fazes.
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Monday, July 18, 2005
ufa
Voltei.
zzzzz.
Amanhã devo voltar mesmo.
zzzz.
Até jázzzzz.
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Thursday, July 14, 2005
Porque estou melosa e chá príncipe é dos meus favoritos, e sim, este título é ainda pior que o post em si
{1} Tamanho total dos arquivos do meu computador
O meu computador...errr conceito interessante: um está num armário com disco arranhado e arreganhado para mim, até eu voltar e lhe dar uma sova, tem muita música, recordo, isto é, muita para mim, uma insignificância para gente com pcs dignos desse nome com memórias de jeito; vou adicionando mp3 a pc alheio que uso, devem ser uns 2 gigas...mas muita coisa foi gravada entretanto.
{2} Último disco que comprei.
Nick Cave & The Bad Seeds, Abbatoir Blues / Lyre of Orpheus.
{3} Canção que estou a escutar agora.
Dizzy Dizzy, dos Can, nos ficheiros recheados do meu mano, que costumam reservar boas surpresas e que frequentemente me fazem referir, como quem não quer a coisa, Ah, o que seria dele se não tivesse tido a minha iniciação musical...
{4} Cinco discos que ouço frequentemente ou que têm algum significado para mim.
Os do Fausto, que já não escuto há algum tempo, mas ainda bem que mo lembram, vou roubá-los já e levá-los comigo, a saber, e sobretudo, Por este Rio Acima, Crónicas da Terra Ardente e O Despertar dos Alquimistas, Mystery White Boy, do Jeff Buckley, Ar, Danças Ocultas. (São tantos...tenho que referir desrespeitando quantidades: Caetano Veloso, vários...)
{5} Lanço o repto a outros bloggers.
Não lanço...Não tenho grande jeito para interrogações. Acho.
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Saturday, July 02, 2005
Grani di sabbia
Ele passeava com o avô num areal banhado por águas mornas, tão distantes e diferentes do oceano em que nasci e me fiz. As grandes superfícies de água têm esta magia, desde que abertas, permitem-nos a suposição de encontros pouco prováveis de duas minúsculas moléculas d'água, por mais longe que se encontrem.
Ele prometera ao avô: Um dia farei um castelo de areia com a minha namorada na praia. E passearei com ela na areia, de mãos dadas.
O senhor sorriu abertamente ao neto predilecto. A tal namorada teve a fortuna de o chegar a conhecer, esse mediterrânico altivo e belíssimo, já afundado na névoa da idade que lhe pesava, e nas saudades da mulher partida tão cedo. E tem pena, apesar de se dizer que o que nos está destinado tem muita força, de não ter chegado a fazer o castelo de grãos de areia moldados pela humidade salgada e por mãos entrelaçadas. Tem pena mas não dói. Por vezes.
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1:29 PM
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Wednesday, June 29, 2005
Ora bem, sei que é a crise e tal, mas a vossa terra é tão linda
Para mim que sou estrangeira sendo nativa também no sentir amor pela terra, este lugar começa agora pelo Côa. Podia ser por Miranda, onde pararia e me banquetaria com uma belíssima posta que se desfaz na boca como manteiga (para os que abominam manteiga, duas coisinhas: 1. imaginem o sabor do que mais gostam acariciando papilas, desfazendo-se na boca - se o vosso sabor preferido é o dos torresmos a coisa complica-se; 2. como é possível não gostarem de manteiga?).
Poderia ser uma entrada mais deliciosamente kitsch por Badajoz carregada de sacos de caramelos, sendo depois brindada com Elvas, na sua beleza de cal que me vai antecipando outros Alentejos. Mas foi pelo Côa, dá jeito depois do percurso com que nos brindamos por um dos locais eleitos no planeta conhecido, o País Basco.
É tão bom ser-se acolhida por braços de gente ou de terra.
P.S. Qualquer incoerência maior do que a habitual deve-se ao sono (prefiro pensar que é ele o responsável...)
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11:54 AM
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Friday, June 24, 2005
Post Scriptum manguito pour vous
Ah, faltou dizer que eles adorariam escutar essa palavra, manguito, que depois geralmente se faz, em vez de se dizer, mas soar-lhes-ia a espanhol, o que fica sempre bem, que aqui se fazem muitas corridas de toiros e se anuncia a letras gordas e exóticas paella, nem sempre bem escrito, mas com boa intenção.
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10:15 AM
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Manguito pour vous
Por esta banda há muito quem fuja da aguinha, digo eu, excepto da de perfume. Em qualquer tasca de Portugal, por mais moscas que esvoacem, por mais sujo que o vidro do expositor de pastéis de bacalhau e rissóis esteja, pega-se nos ditos cujos com uma tenaz, essa fabulosa invenção, e atrevo-me a dizer que não é muito bem visto pegar directamente em comida e dinheiro, de seguida, ou em simultâneo, que Deus Nosso Senhor nos brindou, na maior parte dos casos, com duas mãos. Aqui uma prestimosa senhora na padaria não perde tempo munindo-se de luva de plástico, já estou como o outro, que não acreditava em fantasmas nem em germes, porque nunca vira nenhum dos dois. De seguida vêm os troquinhos, pois claro. Mas isso viria eu a constatar ser a mais inocente das badalhoquices. Quando a senhora da padaria se corta e sangra copiosamente, quiçá após trinchar um pão de forma, que as coisas querem-se já prontas e práticas, continua servindo o pãozinho aos clientes, que não se mostram chocados. A pessoa que me acompanhava ria à gargalhada perante a minha boca aberta. Felizmente não entraram moscas.
Um gajo passa perto da estação de comboios, que como sabemos, costuma ser um local asseado, e vai degustando uma tarte de amêndoa, sem papelinho por baixo. Eis quando senão repara que tem o atacador solto, e ei-lo fresco da silva, pousando a tarte num beiral de janela coberto de caca de pombo, agachando-se e compondo a toilette, não vá ele cair no meio da sujidade da rua. Na minha estupidez penso, Olha que porco, não podia ter colocado a tarte no caixote do lixo ali ao lado? Está calada que fazes bem melhor, qual deitar fora qual quê, depois do sapato atadinho, a tarte segue goela abaixo, acompanhada de nutrientes extra que não vinham na receita original.
Isto já soa a saiolice da minha parte, bem sei, mas não sou nova em andanças, e devo dizer que aqui encontrei o conceito de higiene mais original de sempre.
Nesta residência é estrictamente proibido fazer barbecues, ah como abomino o estrangeirismo flatulento, ainda que cada casa esteja bem isolada em relação à seguinte, e não há por cá os ventos de Sines, colocar antenas, parar o carro à porta para descarregar meia tonelada de coisas, nem que seja por alguns minutos, e uma série de coisas que ainda não pude ler por estarem em letra muito reduzida, à entrada.
Ando com ganas de fazer uma sardinhada com pimentos assados.
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9:54 AM
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Wednesday, June 22, 2005
Camelia Fimbriata Copihue
Não prefere que a tomem por dama, e ali permanece, irradiando luz que quase fere olhar, entre folhagem verde, fazendo-se cara a quem a desejaria colocar num decote ou plantá-la em longa cabeleira.
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10:17 AM
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In viaggio IV
O avô Amado, de nome estampado nos documentos que nos exigem nas burocracias da vida, e de coração, trocou-se todo nos dias de registo e baptizados da sua prole, de forma que o nosso devido apelido familar se perderá. Há quem na família se tenha mexido para recuperar o sobrenome, temerosos que estavam pelo arrancar abrupto de palavra tão auspiciosa. Se as palavras têm tal poder e força, não se admite que lhes tivessem tirado logo essa, parece mau agoiro.
O Amado fez-me um carrinho de madeira e verga, onde eu inchada colocava um chorão que havia sido da minha mãe. Não pude dar outro nome ao boneco já algo desbotado dos sóis tropicais, teve de ser Bochechas, tal era a semelhança que apresentava com aquele senhor que eu via na televisão a preto e branco.
É uma sorte danada ter gente habilidosa e criativa a rodear-nos nos anos primeiros, os brinquedos à mão feitos esbateram as coisas más, que apagá-las não se poderia nem deveria fazer. Moinhos de vento para trazer na mão, correndo por um terraço encantado e que eu via como gigantesco, mobílias em miniatura, presépios únicos, os mais belos que vi, tudo isso fazias, Amado. Deste-me sonhos para encher uma data de livros, fora os segredos que te povoam e que não deixarás registados, por serem só teus.
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Monday, June 20, 2005
O rapaz que olhava as estrelas
Na passagem do milénio, que não deixa de ser criado por nós (será mais artificial e fugidio da natureza por isso?), um rapaz refugia-se nas montanhas ermas onde o gelo derrete, levando consigo troncos vergados e caídos das tempestades, arrasta segredos pelas encostas abaixo, entregando ao rio turbulento seres perecidos nas durezas do Inverno, carcaças não são, que permanecem conservadas meses a fio pelo gelo, para virem a encontrar nas águas que correm o banho final que revela o que deles resta.
Destrói documentos, rasga cartões de crédito, perde meios de comunicação, e toma para si um novo nome. O rapaz deixa um caderno, e pronto, está vista a minha predilecção por ele, rapazes e cadernos e está tudo perdido. E deixa um telescópio ao seu mano, para que o continue a ver entre as estrelas. Na escuridão que precede a aurora boreal os seus passos traem-no, ele que julgara encontrar o seu real trilho, e fere-se de morte, perdendo os seus fluidos vitais e o sangue que pulsa e impulsiona a sua máquina. As dores corroem-lhe o físico, logo agora que a alma finalmente sorria, e arrasta-se entre folhas secas, pedras que o arranham, descidas vertiginosas que lhe podem terminar a dor a qualquer momento, basta que se deixe cair. Arrasta-se até à beira da encosta para ver em lugar privilegiado da plateia o presente que Deus coloca no hemisfério norte, profusão de cores bailando, o espectáculo que escolhe para deixar os olhos corpóreos e perecíveis.
Vão buscá-lo e arrastam-no numa maca improvisada de galhos e lona, até às conveniências de salvamento. Aceita ajuda, permanece num moderno hospital, longe das matas, cicatrizam-se feridas e ganha-se de novo mobilidade, pais rejubilam por crerem ter de volta um filho que julgam conhecer. Em manhã limpa, assim que pode caminhar, deixa o caderno sobre o leito hospitalar e reassume o nome e vida que o escolheu. E ela estava lá, à sua espera.
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Sunday, June 19, 2005
Il palo che voleva avere braccia
Gli altri inviano, chissà, barche di carta con poesie d'amore o di solitudine, o della vita
Che lui non può prendere
Preso che è nella sabbia
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10:32 AM
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Friday, June 17, 2005
Desejo darwinista
A nossa mente podia vir apetrechada de um bloquinho integrado de lembranças, das que surgem nos momentos não acordados, como uma base de dados aberta a consultas posteriores, antes de passarem pelo guardião, o Super Ego que as empurra para as zonas escuras.
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Crocus Serotinus Clusii
Disseram-me que és flor solitária no Outono, calculo que sejas brava. Um repasto de arroz forneado contigo deve ser ainda mais especial por isso.
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Cytisus Striatus
Não te recordo assim, erguida e só, mas numa profusão de companheiras. Gostava de te colher com a minha mãe, especialista em cuidados botânicos, entre outros, o maior de todos sendo o amar. Tens culpas no ainda hoje ter fraco por flores amarelas.
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10:45 AM
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Thursday, June 16, 2005
Mediocritas
Há uma voz maldosa que desassossega o escriba, quando este se debruça no caderno e indaga que faltará ali, porque lhe soa a tão pouco, a medíocre. A voz insinua-se mais fortemente até se transmutar em pontadas, é mau, é mau porque deixa de fora ou somente aflora o amor, esse é o tema que deve reinar, apoderar-se sempre de qualquer escrito. O escriba sacode a voz, há coisas que ainda doem demasiado para passarem para papel, ainda que num paradoxo precisem de o ser para doerem talvez menos.
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Digitalis Purpurea
Protegerias dedos esguios armada em dedal, na tua textura de cor suave?
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Wednesday, June 15, 2005
...
Tudo soa a pouco e a vazio, porque essas coisas também têm som, enquanto não escrever sobre ti, Mãe.
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9:53 AM
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Tuesday, June 14, 2005
E uma Geninha cantou isto. E é tão bonito.
Dás-me os olhos para ver
o que está na minha mão
ela está entre o que eu sei
e antes do ainda não
dás-me a boca para saber
o que está na minha pele
ela está dentro de mim
e sabe a terra de mel
dás-me o corpo pra sentir
o que está no meu olhar
ele está depois de mim
e antes de aí chegar
dou-te os olhos para ver
o que ainda não chegou
que aqui perto eu penso em nós
ao lado do que passou
Terra de Mel
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11:16 AM
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Confissão
Há paixões assim, que se distribuem por vários corpos e sonoridades, como se um só não bastasse para abarcar tanta coisa.
É de baba e ranho, ainda que soe mal aqui dizê-lo, mas se é verdade, que fazer? Ainda em tempos que chorar era difícil, com o acordeon foi sempre limpo e fez escorrer sem esforço gotas de sal. Ele perdoa-me o fraco que tenho por violinos, na tendência melodramática que impõem ao meu corpo, assim ao jeito kitsch de um Almodovar. Mas o acordeon, senhores, dito mesmo assim ignorando o portuguesismo, esse vem como nadar nua após a zona de rebentação no mar ou como o mais longo orgasmo. E é tolerante essa paixão, que não costuma sê-lo. Vai desde gargalhadas com as estórias de um algarvio que, ouvindo a senhora dona Eugénia Lima se derretia, balbuciando entre baba que lhe escorria, Que "habulidade" do dedo, que linda mulher para mim; é de um Piazzolla de olhos fechados rasgando as nossas entranhas com tanta beleza, é da pureza concertada por dedos vários e lágrimas finas escorrendo ouvindo Danças Ocultas, um Port D'Amesterdam com que despede um Brel eterno, mas é também sanfona rural nordestina, que também exige lenço branco em punho pronto para entrar em acção, ou sons retirados por palhaços em circos vazios, e tocadores solitários nos burgos de um Paris qualquer. E é sobretudo a lembrança do senhor Fioravante, a tocar só para mim, no sejas bem vinda mais belo que tive na vida.
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Monday, June 13, 2005
Sunday, June 12, 2005
Acordar
Esta noite vieste de novo, como em tantas outras, desde que o tempo é tempo.
Não trazes anjos contigo, e o acordar não se faz de doçuras acariciadas. Fica um peso de culpa sem saber bem pelo quê, ou sem se atrever a nomear, mais honestamente. Fica um amargo de boca pela vida suspensa, ou adiada, gostamos de pensar, para outra volta à terra, num balão mais seguro que não se rasgue com os ventos do norte. Faz-me só o favor de estar bem, até eu poder voltar a acariciar os teus cabelos.
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Friday, June 10, 2005
Oxalis Pes Caprae
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Thursday, June 09, 2005
É verdade
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Papaver Rhoeas
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Zangukenu *
Caminhos de musseques
Caminhos dos musseques
lá onde a areia entra pelos sapatos
daqueles que têm sapatos
lá onde o sol se filtra pelas fendas
pelos buracos dos pregos
dos tectos de zinco.
Caminhos antigos.
Caminhos antigos como o Mundo.
A cidade empurrou os musseques
e o cacimbo caiu mais de mansinho
escondendo as figuras esguias
e os rostos de chumbo.
Lá
onde a esteira cobre o chão varrido todas as manhãs
lá
onde a fuba substitui todas as claridades
lá
onde a cerveja escorre pouco
porque não há dinheiro de comprar.
Caminhos antigos
onde a eletricidade começa a fazer circular
“idéias estrangeiras”
onde os motores dos carros
acordam as madrugadas das crianças
que antigamente ouviam passarinhos.
As fendas, os muros, os tectos
os buracos dos caminhos
esboroando-se no passado
alcatrão penetrando e desmentindo a mudança
cimento e cal erguendo os muros cinzentos das fábricas
saias lutando contra os panos das velhas
telefone até.
Nas almas... um grande vazio
preenchido pelos merengues que vêm de fora.
Lá – caminhos da vida
Lá no mato. Lá no campo. Lá na floresta. Lá no estrangeiro.
Lá onde se nasce, vive e morre todos os dias
com kambaritókué ou sem ele
com um lençol simples ou uma vala comum
morrendo apenas é que tudo acaba.
A vida tem de ser dignamente vivida.
Vamos juntar as nossas cobardias
os nossos sofrimentos
as nossas ansiedades
nossas angústias
nossos sorrisos
nossos sarcasmos
a nossa coragem
nossas vidas.
Vamos
Lá – no musseque – areais vermelhos
onde passam os caminhos da vida
e vamos
dizer
corajosamente
às crianças que esperam o nosso exemplo
que este quintal
tem de ser estrumado com sangue
adubado de sofrimento
cultivado com as dores
mangueiras
anoneiras
gindungueiros
frutificando ao sol e ao luar
para quê dizer mais versos
que só o povo entende?
Ernesto Lara Filho
*Levantai-vos
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Maninhos
É divertido ouvir os angolanos. A eleite angolana fala igualzinho aos portugueses. Já o povo tem um sotaque diferente - os nasais são agudos, espanholados (Luánda, Án-gola, páo, máe); alguns "e" e "o" são fechados (dêla, côla). Nos meus ouvidos autocentrados, eles soam como estrangeiros falando o português do Brasil.
Mas a surpresa é quando cantam. Se a música for angolana ou portuguesa, o sotaque é português. Mas se o cantor ataca de música brasileira, o sotaque se torna carioca de gema, com todos os dji, tchi, amorrr e forrrrça a que se tem direito.
Ricardo freire, Postal por Escrito: Luanda, pela mão de um brasileiro, in Angonotícias
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Wednesday, June 08, 2005
Datura Stramonium
houvesse tempo e procurava-te mais moinhos para seguires, os que a vista e braços negros de sol pudessem alcançar, ignorarias as toxicidades do mundo, qualquer figueira do inferno que sabes derrotar
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Tuesday, June 07, 2005
In viaggio III
Fecha os olhos. Estás de novo na Avenida João das Regras, e perguntas-te se é esse o nome e porque te veio tao rapidamente à mente, sem que contasses incluir estes detalhes. Tens uma mão na tua, dedos modificados por acidente de trabalho, dizem eles. Não sabes na altura o nome dessa avenida que te leva à ponte, e que fazes sempre pelo lado direito, ele deixa-te caminhar o possível em cima de um muro baixo, os outros não deixam, mas ele é demasiado lunático para se preocupar, as crianças caem, e erguem-se, é normal. Já sabes que as folhas de árvore que se penduram no teu muro te deixarão as mãos, braços , rosto cobertos de vermelhão comichoso. Ele também o sabe, se é que se lembra de tais pormenores mundanos, sempre ausentes da sua mente que vagueia por espaços maiores, não há recantos para alergias, anti-histamínicos, cirurgias reconstrutoras de dígitos serrados, cálculos de anestesias. Bastarão umas bolas de algodão embebidas em álcool na pele em formação. Leva-te sempre aos baloiços, leva-te um saco com pão para os patos do parque, corre contigo para o trólei. Deixa-te brincar a equilíbrios precários em murinhos velhos de quinta abandonada. E deixa-te sempre tocar as folhas.
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Zantedeschia Aethiopica
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Monday, June 06, 2005
In viaggio II
O Egozi, que apenas uma pessoa poderá aqui identificar à primeira, deu-me uma máquina de escrever, assim, de improviso, com um sorriso rasgado. Não sei bem quantos anos teria eu, mas eram poucos, o que é sempre relativo, certo. Essa personagem viva povoou anos duros de infância de coisas belas. Vislumbro-o agora donde estará, ambos pressentindo que não está ainda pronto para voltar a indossar vestes terrenas, e lembro o seu sorriso de dentes perfeitos, todos seus, tirando um que obrigou o doutor a arrancar, por muito que este lhe dissesse que estava de perfeita saúde. Pois ao Egozi não lhe importaram essas conversas de nevralgias, se lhe doía onde estava o dente, fora com ele. Lembro o seu sorriso muito mais aberto, adivinhando matreiro que a maquineta me fazia sorrir por dentro muito mais do que a boneca gigante que falava. Era sábio, o Egozi. À gaiata (e a ele, for that matter) pouco lhe importava o clanque clanque das teclas perturbando ouvidos alheios. As canetas e blocos sem fim tinham o seu lugar próprio, mas a máquina...ah a máquina era outra coisa... Não era assim como esta ao lado, ai pois não, mas não estraguem a recordação com pormenores rígidos, se faz favor. Era um caminho andado para as modernas, que agora repousam em prateleiras ou em lixeiras, substituídas por estas que guardam memórias e tudo fazem em silêncio conveniente, com um ventilar aqui e ali, mas daqueles que nao incomodam ouvidos. Aquela trazia inovações que dispensavam frascos de corrector branco, que julgam? Mas a campaínha de aviso de chegada à margem imposta, essa ninguém lhe tirava.
Sei que de vez em quando me deves espreitar, Egozi, mas sinto a tua falta à mesma. Calculo que saibas que há algum tempo atrás, quando entrei naquele local com odor de incenso rasgada por dentro, foste tu quem desejei ter ao pé de mim. Não pedi que regressasse um amante perdido, um amor desta e doutras vivências. Pedi que me desses a mão, e tive saudades tuas. Tantas. Tu nunca me fizeste chorar.
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Friday, June 03, 2005
tensão, profusão de canetas ou a antevisão de catástrofe narcisista
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Thursday, June 02, 2005
Retalhos do Chico
Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Prefiro então parir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro com certeza
Talvez no tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei como encantado
Ao lado teu.
Todo o Sentimento, Chico Buarque
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Wednesday, June 01, 2005
Com olhos de ver
Queixa das almas jovens censuradas
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
p'ra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte
Natália Correia, in O Nosso Amargo Cancioneiro
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kanuthya
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que melhor momento para te escrever que ao som da Queixa das Almas Jovens Censuradas, da minha Natália, que o José Mário soube ler como poucos. Nem é preciso dizer que tenho todos os poros arrepiados, de tão lindo que é, tão trágico, tão verdadeiro, em cada sílaba. Somos amigas retomadas de outras vivências idas e por enquanto esquecidas, reencontradas e reafirmadas no que nos une nas circunstâncias mais surreais, como de resto a vida que nos rodeia o é. Surreal. Vejo no amanhã as queixas que a tua alma sempre não censurada produzirá, e imagino-me sentada numa plateia, assistindo ao teu teatrar mais vero que a vida. Serão também bilhetes para o céu levadas à cena num teatro, como ela diz.
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kanuthya
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12:40 PM
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