Saturday, August 13, 2005

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Aside lousy comment - hi there guys

Getting all the fantastic techniques about penis enlargement in hotmail accounts wasn't enough, spam finally gets to blogs. Fortunately, most links left here don't really work.

Friday, August 12, 2005

...


books by Noe Villarreal
Originally uploaded by Kanuthya.
Por vezes luta entre a necessidade física de não se largar o que se lê, mesmo que se anuncie a decepção por o livro estar a terminar, amua porque as personagens partem das suas noites no travesseiro, para voltarem a repousar entre lombadas na estante.

Wednesday, August 10, 2005

Raízes entranhadas


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pés descalços e dendém



Aos Domingos de manhã enfiavam-lhe os sapatos que magoavam, ainda para mais depois de passar pelo adro da igreja, onde minúsculas pedrinhas se enfiavam da forma mais improvável, cravando-se na pele. Assim que o padre findava a homilia, fugia para casa, sapatos na mão, chegando antes dos outros para se refugiar na cozinha, onde se ia lambuzando com as bolinhas de funge, moldadas pelos dedos mais vividos da bá, entregando-se toda ao prazer de as molhar no dendém que encharcava a galinha, desfeita de tanto boiar naquela profusão de aboborinha e quiabos. Não engolia de imediato, concedendo ao palato o prazer da mescla de sabores. Quando a tribo que partilhava a sua cor de pele chegava empoeirada pelos caminhos, sacudindo os chapéus domingueiros, já o estrago estava feito, restava esfregá-la com sabão de côco para tirar essa mancha odorosa e amarela, que se faz nos cachos das palmas.

Monday, August 08, 2005

Ibrahim


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Gracias




Parecia que estava a antever. Sem saber hoje envergava já minha cor branca de luto e ouvia-te há dias seguidos, Oye el consejo... Recusaste cantar durante tempo, magoado de desilusões, voltaste em glória até o coração to ter permitido. Costumavas perfumar a santa na prateleira com representações de orixás, na tua lógica de que, se gostavas de andar perfumado, por que motivo não o apreciaria a santa também? Estou certa de que ela não se esqueceu do desvelo carinhoso e te pegou na mão, conduzindo-te pela rua cálida de sons timbaleros.

Vinícius escreveu, Ney cantou.


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A Rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Vinícius de Moraes

Sunday, August 07, 2005

Metereologia Anunciada

Aproximam-se certamente as tempestades de Verão, semelhantes às africanas no troar que me faz querer esconder debaixo da cama. Como o sentido prático cá acampa de vez em quando, dir-se-ia que a cama encontrada fazia já parte de uma terapia conveniente ao ultrapassar de medos, japonesa e rasteira, fica-se sem fuga. Não esperava topar com raios destes no Mediterrâneo, ou daqueles, melhor dizendo, uma vez que ainda não nos visitaram este Estio, apenas se fizeram ouvir na sua imponência a vários quilómetros de distância, um dia destes, como visitas régias que levam banda à frente para nos irem preparando para a chegada. Os temporais e enxurradas de Verão têm uma característica peculiar por aqui: não diminuem o calor pegajoso, que se cola a nós como uma segunda pele, o ar mantém-se pesado, pesadão, um fardo tremendo.
Venham, pois. Cá vos espero.

Friday, August 05, 2005

pronto, pronto, não insistam mais...


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Thursday, August 04, 2005

Já era tempo

É um título de uma canção da Gal, escrita pelo Ary Barroso e Vinicius de Moraes, e existe um risco real de muita da música que por aqui vier a passar ser feita no Brasil. Faz-me sentir mais perto de uma casa que busco desde que me lembro de ser gente.
Mas nada disto tem a ver com o post, eu é que mudo constantemente de tema. Já era bem tempo de encontrar um dicionário de Língua Portuguesa on line que fosse minimamente decente, aqui - http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx.
Avé.

Carlinhos e os pincéis, ilustrando as letras que me preparam os sonhos


d.carlos_praia_de_cascais-1
Originally uploaded by Kanuthya.

Eis a oportunidade de conjugar dois prazeres e colmatar falhas. Inicei a leitura de Equador, e sinto-me já embrenhada, tão pouco avançada que vou no enredo, no paço de Vila Viçosa, na recordação amarga de um Mouzinho de Albuquerque, em enleios que me recordam queirosices (sem que este último termo tenha algo de pejorativo, antes pelo contrário), em descrições de ceias faustosas apropriadas ao barrigudo do D. Carlos, que era habilidoso, como vemos aqui ao lado. Sabiam muitos, os fazedores das modas da época, um traseiro espevitado cai sempre bem na figura delicada de rendas alvas.

É que ele há gente tão preguiçosa e mimada, que aguarda que se escrevam romances para estudar melhor períodos históricos.

Tuesday, August 02, 2005

a queixa, palavras encontradas aqui


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Malas felizes e pesadas

Tiram-te a venda
e entre paredes de lágrimas
aprendes que não existes ainda.
És apenas devir.

Natália Correia

Pescado de um de dois volumes gordos que não resisti a trazer comigo, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias.

Aí vêm as actualizações para canções que estavam amordaçadas, esta aqui


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Monday, August 01, 2005

A tal Carta de Um Contratado, que apareceu aqui


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o que arde cura or something like that


Buscando uma foto para ilustrar um post totalmente despropositado e nojento, ocorre-me visitar o site da Renova, sem fazer qualquer esforço para passar a publicidade, e, assim sendo, começo por agradecer-lhe os meus primeiros risinhos maquiavélicos do dia - vide www.renova.pt. Ele é uma nova visão dos rolos de papel higiénico, senhores e senhoras. Mas o que me fascina particularmente é o uso dos adjectivos, embora a expressão "Ligação emocional" me tenha ficado como ternurenta. De qualquer forma, agradecia que alguém me esclarecesse àcerca da fabulosa afirmação encontrada na secção Lenços:

"Os lenços Renova são práticos, coerentes e funcionais."

Lenços coerentes... genial. Adiante. (Isto bem visto é mais marcha-atrás, mas pronto...)

Levantam-se vozes nobres e indignadas perante as questões kármicas que nos assolam, não aceitando o sofrimento como necessário à aprendizagem, sendo de verificar que de facto esse sofrimento nos faz aceder ao mais primordial de nós mesmos, transformando-nos em homens das cavernas uma vez mais, quando nos sentimos acossados, agredidos, empurrando-nos a empunhar as mais duras armas, a fazer mais sangue, ou, no caso de almas menos dadas a deixar escapar primordialidades, a escondermo-nos num cantinho escuro e esperar que a tormenta amaine, para depois sairmos da gruta e verificar os estragos.

Estranho que, impulsiva e feroz em palavras como tenho sido, e mais já o fui, nunca tenha tido grande tendência para me revoltar.

De qualquer forma, posso acrescentar que as mais terríveis dores de cabeça me abandonam quando finalmente sangro do nariz. E sim, tem toda a razão, this post sucks.

Thursday, July 28, 2005

Aceitam-se marcações


cedar brook saunas
Originally uploaded by Kanuthya.
Não está forrada a madeira esta casa, nem tem caldeirão soltando vapores de eucalipto no meio da divisão, mas fornecemos toalhas limpas e tudo o resto que uma sauna deve ter. Especialmente para si, glorificando o calor do sul gaulês. Sudação garantida.

Wednesday, July 27, 2005

Narcissus Bulbocodium


narcissus-bulbocodium
Originally uploaded by Kanuthya.
Permaneces virado para ti mesmo, pétalas protegendo de outros sóis que não o da tua cor. Seria por isso que o outro partilhava contigo o nome?

Sunday, July 24, 2005

Pequenas obras, precisam-se


by hkburke whoever he is
Originally uploaded by Kanuthya.

Ora bem, se tenta perceber que raio me passa pela cabeça, desista. Há coisas bem mais interessantes a fazer.

Em breve chatearei alguém para me poupar tempo (como se não o tivesse de sobra), e introduzir algo que se torna essencial para dar sentido a alguns posts. Se já sabes que és tu, esconde-te, enquanto ainda tens tempo.

Ando fascinada com as novas aquisições para casa, roubadas ao lar paterno, e sobretudo materno, que é assim uma espécie de feira da ladra sem itens roubados, uma vez que a única ladra lá sou eu, de objectos, memórias, estórias, sendo que as últimas são levadas sem pedir autorização. Num egoísmo extremo, inclino-me numa vénia sentida a quem se lembrou de inventar essa coisa extraordinária que coa o meu café palanka negra e que perfuma as minhas manhãs desse odor único que é o do bom café. Ele há vantagens fantásticas na vida, como comprar o café ao senhor que trabalhou em nobre torrefacção angolana.

Mais pormenores domésticos inúteis em breve. Talvez.

Friday, July 22, 2005

Tuesday, July 19, 2005

Partidos da Baía de Todos os Santos para o Cabo da Boa Esperança...fica a faltar a música acompanhante, espero que chegue em breve

Todo Este Céu

abraça-me bem
e cobre o meu corpo
enfim
nesse agasalho
são os teus braços
sim
cuida de mim
basta-me um gesto
porém
abraça-me bem
bem no teu colo
chega-me mais a ti
um pouco mais
suavemente
assim
tudo por fim
são mágoas
que eu consolo
bem no teu colo

todo este céu
de pássaros e tons
muito assombrado
traz o teu ser
tão bom
todo este som
desce a nós
com um véu
todo este céu
lançado à terra
sobre restingas e ilhéus
mil sombras de asas
lembram a ausência
de um deus
num último adeus
pois só teu afago
me espera
lançado à terra

e qualquer coisa acontece
no mais alto dos céus
qualquer coisa no fundo
do meu coração
mas não sei das trevas
nem da luz
pois sem ti não há
nem céu
nem chão
e se a noite já ronda
minha cruz
luz nas trevas
minha paixão

Fausto nos meus Dias


Fausto1m
Originally uploaded by Kanuthya.

Obrigada por não me teres deixado cair dos braços em miúda.

O obrigada não chega é para tanta coisa bonita que fazes.

Monday, July 18, 2005

ufa

Voltei.
zzzzz.
Amanhã devo voltar mesmo.
zzzz.
Até jázzzzz.

Thursday, July 14, 2005

Porque estou melosa e chá príncipe é dos meus favoritos, e sim, este título é ainda pior que o post em si

{1} Tamanho total dos arquivos do meu computador
O meu computador...errr conceito interessante: um está num armário com disco arranhado e arreganhado para mim, até eu voltar e lhe dar uma sova, tem muita música, recordo, isto é, muita para mim, uma insignificância para gente com pcs dignos desse nome com memórias de jeito; vou adicionando mp3 a pc alheio que uso, devem ser uns 2 gigas...mas muita coisa foi gravada entretanto.

{2} Último disco que comprei.
Nick Cave & The Bad Seeds, Abbatoir Blues / Lyre of Orpheus.

{3} Canção que estou a escutar agora.
Dizzy Dizzy, dos Can, nos ficheiros recheados do meu mano, que costumam reservar boas surpresas e que frequentemente me fazem referir, como quem não quer a coisa, Ah, o que seria dele se não tivesse tido a minha iniciação musical...

{4} Cinco discos que ouço frequentemente ou que têm algum significado para mim.
Os do Fausto, que já não escuto há algum tempo, mas ainda bem que mo lembram, vou roubá-los já e levá-los comigo, a saber, e sobretudo, Por este Rio Acima, Crónicas da Terra Ardente e O Despertar dos Alquimistas, Mystery White Boy, do Jeff Buckley, Ar, Danças Ocultas. (São tantos...tenho que referir desrespeitando quantidades: Caetano Veloso, vários...)

{5} Lanço o repto a outros bloggers.
Não lanço...Não tenho grande jeito para interrogações. Acho.

Saturday, July 02, 2005

Grani di sabbia


by Alexandre Monteiro
Originally uploaded by Kanuthya.

Ele passeava com o avô num areal banhado por águas mornas, tão distantes e diferentes do oceano em que nasci e me fiz. As grandes superfícies de água têm esta magia, desde que abertas, permitem-nos a suposição de encontros pouco prováveis de duas minúsculas moléculas d'água, por mais longe que se encontrem.

Ele prometera ao avô: Um dia farei um castelo de areia com a minha namorada na praia. E passearei com ela na areia, de mãos dadas.

O senhor sorriu abertamente ao neto predilecto. A tal namorada teve a fortuna de o chegar a conhecer, esse mediterrânico altivo e belíssimo, já afundado na névoa da idade que lhe pesava, e nas saudades da mulher partida tão cedo. E tem pena, apesar de se dizer que o que nos está destinado tem muita força, de não ter chegado a fazer o castelo de grãos de areia moldados pela humidade salgada e por mãos entrelaçadas. Tem pena mas não dói. Por vezes.

Wednesday, June 29, 2005

Ora bem, sei que é a crise e tal, mas a vossa terra é tão linda

Para mim que sou estrangeira sendo nativa também no sentir amor pela terra, este lugar começa agora pelo Côa. Podia ser por Miranda, onde pararia e me banquetaria com uma belíssima posta que se desfaz na boca como manteiga (para os que abominam manteiga, duas coisinhas: 1. imaginem o sabor do que mais gostam acariciando papilas, desfazendo-se na boca - se o vosso sabor preferido é o dos torresmos a coisa complica-se; 2. como é possível não gostarem de manteiga?).
Poderia ser uma entrada mais deliciosamente kitsch por Badajoz carregada de sacos de caramelos, sendo depois brindada com Elvas, na sua beleza de cal que me vai antecipando outros Alentejos. Mas foi pelo Côa, dá jeito depois do percurso com que nos brindamos por um dos locais eleitos no planeta conhecido, o País Basco.
É tão bom ser-se acolhida por braços de gente ou de terra.

P.S. Qualquer incoerência maior do que a habitual deve-se ao sono (prefiro pensar que é ele o responsável...)

Friday, June 24, 2005

Post Scriptum manguito pour vous

Ah, faltou dizer que eles adorariam escutar essa palavra, manguito, que depois geralmente se faz, em vez de se dizer, mas soar-lhes-ia a espanhol, o que fica sempre bem, que aqui se fazem muitas corridas de toiros e se anuncia a letras gordas e exóticas paella, nem sempre bem escrito, mas com boa intenção.

Manguito pour vous

Por esta banda há muito quem fuja da aguinha, digo eu, excepto da de perfume. Em qualquer tasca de Portugal, por mais moscas que esvoacem, por mais sujo que o vidro do expositor de pastéis de bacalhau e rissóis esteja, pega-se nos ditos cujos com uma tenaz, essa fabulosa invenção, e atrevo-me a dizer que não é muito bem visto pegar directamente em comida e dinheiro, de seguida, ou em simultâneo, que Deus Nosso Senhor nos brindou, na maior parte dos casos, com duas mãos. Aqui uma prestimosa senhora na padaria não perde tempo munindo-se de luva de plástico, já estou como o outro, que não acreditava em fantasmas nem em germes, porque nunca vira nenhum dos dois. De seguida vêm os troquinhos, pois claro. Mas isso viria eu a constatar ser a mais inocente das badalhoquices. Quando a senhora da padaria se corta e sangra copiosamente, quiçá após trinchar um pão de forma, que as coisas querem-se já prontas e práticas, continua servindo o pãozinho aos clientes, que não se mostram chocados. A pessoa que me acompanhava ria à gargalhada perante a minha boca aberta. Felizmente não entraram moscas.
Um gajo passa perto da estação de comboios, que como sabemos, costuma ser um local asseado, e vai degustando uma tarte de amêndoa, sem papelinho por baixo. Eis quando senão repara que tem o atacador solto, e ei-lo fresco da silva, pousando a tarte num beiral de janela coberto de caca de pombo, agachando-se e compondo a toilette, não vá ele cair no meio da sujidade da rua. Na minha estupidez penso, Olha que porco, não podia ter colocado a tarte no caixote do lixo ali ao lado? Está calada que fazes bem melhor, qual deitar fora qual quê, depois do sapato atadinho, a tarte segue goela abaixo, acompanhada de nutrientes extra que não vinham na receita original.
Isto já soa a saiolice da minha parte, bem sei, mas não sou nova em andanças, e devo dizer que aqui encontrei o conceito de higiene mais original de sempre.
Nesta residência é estrictamente proibido fazer barbecues, ah como abomino o estrangeirismo flatulento, ainda que cada casa esteja bem isolada em relação à seguinte, e não há por cá os ventos de Sines, colocar antenas, parar o carro à porta para descarregar meia tonelada de coisas, nem que seja por alguns minutos, e uma série de coisas que ainda não pude ler por estarem em letra muito reduzida, à entrada.
Ando com ganas de fazer uma sardinhada com pimentos assados.

Wednesday, June 22, 2005

Camelia Fimbriata Copihue


Camelia-Fimbriata-Copihue
Originally uploaded by Kanuthya.

Não prefere que a tomem por dama, e ali permanece, irradiando luz que quase fere olhar, entre folhagem verde, fazendo-se cara a quem a desejaria colocar num decote ou plantá-la em longa cabeleira.

In viaggio IV

O avô Amado, de nome estampado nos documentos que nos exigem nas burocracias da vida, e de coração, trocou-se todo nos dias de registo e baptizados da sua prole, de forma que o nosso devido apelido familar se perderá. Há quem na família se tenha mexido para recuperar o sobrenome, temerosos que estavam pelo arrancar abrupto de palavra tão auspiciosa. Se as palavras têm tal poder e força, não se admite que lhes tivessem tirado logo essa, parece mau agoiro.

O Amado fez-me um carrinho de madeira e verga, onde eu inchada colocava um chorão que havia sido da minha mãe. Não pude dar outro nome ao boneco já algo desbotado dos sóis tropicais, teve de ser Bochechas, tal era a semelhança que apresentava com aquele senhor que eu via na televisão a preto e branco.

É uma sorte danada ter gente habilidosa e criativa a rodear-nos nos anos primeiros, os brinquedos à mão feitos esbateram as coisas más, que apagá-las não se poderia nem deveria fazer. Moinhos de vento para trazer na mão, correndo por um terraço encantado e que eu via como gigantesco, mobílias em miniatura, presépios únicos, os mais belos que vi, tudo isso fazias, Amado. Deste-me sonhos para encher uma data de livros, fora os segredos que te povoam e que não deixarás registados, por serem só teus.

Monday, June 20, 2005

O rapaz que olhava as estrelas

John Russell

Na passagem do milénio, que não deixa de ser criado por nós (será mais artificial e fugidio da natureza por isso?), um rapaz refugia-se nas montanhas ermas onde o gelo derrete, levando consigo troncos vergados e caídos das tempestades, arrasta segredos pelas encostas abaixo, entregando ao rio turbulento seres perecidos nas durezas do Inverno, carcaças não são, que permanecem conservadas meses a fio pelo gelo, para virem a encontrar nas águas que correm o banho final que revela o que deles resta.

Destrói documentos, rasga cartões de crédito, perde meios de comunicação, e toma para si um novo nome. O rapaz deixa um caderno, e pronto, está vista a minha predilecção por ele, rapazes e cadernos e está tudo perdido. E deixa um telescópio ao seu mano, para que o continue a ver entre as estrelas. Na escuridão que precede a aurora boreal os seus passos traem-no, ele que julgara encontrar o seu real trilho, e fere-se de morte, perdendo os seus fluidos vitais e o sangue que pulsa e impulsiona a sua máquina. As dores corroem-lhe o físico, logo agora que a alma finalmente sorria, e arrasta-se entre folhas secas, pedras que o arranham, descidas vertiginosas que lhe podem terminar a dor a qualquer momento, basta que se deixe cair. Arrasta-se até à beira da encosta para ver em lugar privilegiado da plateia o presente que Deus coloca no hemisfério norte, profusão de cores bailando, o espectáculo que escolhe para deixar os olhos corpóreos e perecíveis.

Vão buscá-lo e arrastam-no numa maca improvisada de galhos e lona, até às conveniências de salvamento. Aceita ajuda, permanece num moderno hospital, longe das matas, cicatrizam-se feridas e ganha-se de novo mobilidade, pais rejubilam por crerem ter de volta um filho que julgam conhecer. Em manhã limpa, assim que pode caminhar, deixa o caderno sobre o leito hospitalar e reassume o nome e vida que o escolheu. E ela estava lá, à sua espera.

Sunday, June 19, 2005

Il palo che voleva avere braccia


David Fokos- West Chop Poles
Originally uploaded by Kanuthya.

Gli altri inviano, chissà, barche di carta con poesie d'amore o di solitudine, o della vita

Che lui non può prendere

Preso che è nella sabbia


Friday, June 17, 2005

Desejo darwinista

A nossa mente podia vir apetrechada de um bloquinho integrado de lembranças, das que surgem nos momentos não acordados, como uma base de dados aberta a consultas posteriores, antes de passarem pelo guardião, o Super Ego que as empurra para as zonas escuras.

Crocus Serotinus Clusii

Disseram-me que és flor solitária no Outono, calculo que sejas brava. Um repasto de arroz forneado contigo deve ser ainda mais especial por isso.

Cytisus Striatus

Não te recordo assim, erguida e só, mas numa profusão de companheiras. Gostava de te colher com a minha mãe, especialista em cuidados botânicos, entre outros, o maior de todos sendo o amar. Tens culpas no ainda hoje ter fraco por flores amarelas.

Thursday, June 16, 2005

Mediocritas

Há uma voz maldosa que desassossega o escriba, quando este se debruça no caderno e indaga que faltará ali, porque lhe soa a tão pouco, a medíocre. A voz insinua-se mais fortemente até se transmutar em pontadas, é mau, é mau porque deixa de fora ou somente aflora o amor, esse é o tema que deve reinar, apoderar-se sempre de qualquer escrito. O escriba sacode a voz, há coisas que ainda doem demasiado para passarem para papel, ainda que num paradoxo precisem de o ser para doerem talvez menos.

Digitalis Purpurea


digitalis-purpurea
Originally uploaded by Kanuthya.

Protegerias dedos esguios armada em dedal, na tua textura de cor suave?

Wednesday, June 15, 2005

...

Tudo soa a pouco e a vazio, porque essas coisas também têm som, enquanto não escrever sobre ti, Mãe.

Tuesday, June 14, 2005

E uma Geninha cantou isto. E é tão bonito.

Dás-me os olhos para ver
o que está na minha mão
ela está entre o que eu sei
e antes do ainda não
dás-me a boca para saber

o que está na minha pele
ela está dentro de mim
e sabe a terra de mel
dás-me o corpo pra sentir

o que está no meu olhar
ele está depois de mim
e antes de aí chegar
dou-te os olhos para ver

o que ainda não chegou
que aqui perto eu penso em nós
ao lado do que passou

Terra de Mel

Confissão


duo accordéon mélancolique
Originally uploaded by Kanuthya.

Há paixões assim, que se distribuem por vários corpos e sonoridades, como se um só não bastasse para abarcar tanta coisa.

É de baba e ranho, ainda que soe mal aqui dizê-lo, mas se é verdade, que fazer? Ainda em tempos que chorar era difícil, com o acordeon foi sempre limpo e fez escorrer sem esforço gotas de sal. Ele perdoa-me o fraco que tenho por violinos, na tendência melodramática que impõem ao meu corpo, assim ao jeito kitsch de um Almodovar. Mas o acordeon, senhores, dito mesmo assim ignorando o portuguesismo, esse vem como nadar nua após a zona de rebentação no mar ou como o mais longo orgasmo. E é tolerante essa paixão, que não costuma sê-lo. Vai desde gargalhadas com as estórias de um algarvio que, ouvindo a senhora dona Eugénia Lima se derretia, balbuciando entre baba que lhe escorria, Que "habulidade" do dedo, que linda mulher para mim; é de um Piazzolla de olhos fechados rasgando as nossas entranhas com tanta beleza, é da pureza concertada por dedos vários e lágrimas finas escorrendo ouvindo Danças Ocultas, um Port D'Amesterdam com que despede um Brel eterno, mas é também sanfona rural nordestina, que também exige lenço branco em punho pronto para entrar em acção, ou sons retirados por palhaços em circos vazios, e tocadores solitários nos burgos de um Paris qualquer. E é sobretudo a lembrança do senhor Fioravante, a tocar só para mim, no sejas bem vinda mais belo que tive na vida.

Monday, June 13, 2005

Geninho

Obrigada.

Sunday, June 12, 2005

Acordar

Esta noite vieste de novo, como em tantas outras, desde que o tempo é tempo.
Não trazes anjos contigo, e o acordar não se faz de doçuras acariciadas. Fica um peso de culpa sem saber bem pelo quê, ou sem se atrever a nomear, mais honestamente. Fica um amargo de boca pela vida suspensa, ou adiada, gostamos de pensar, para outra volta à terra, num balão mais seguro que não se rasgue com os ventos do norte. Faz-me só o favor de estar bem, até eu poder voltar a acariciar os teus cabelos.

Friday, June 10, 2005

Oxalis Pes Caprae


oxalis-pes-caprae azeda
Originally uploaded by Kanuthya.
Chegas com os primeiros calores, sou transportada a um campo onde nos deixam correr durante intervalos de lavores e orações. Alheamo-nos dos procedimentos que ainda não entraram na nossa vida, que para tal haverá tempo, para sermos adultos e pensarmos em higiene, em cautelas que mandam passar-te por água corrente e limpar-te das impressões deixadas por cães, gatos, e outros bichos que se passeiam pelo campo e que marcam território. Ainda consigo sentir o sabor das azedas que me invadem as papilas, acre e bom.

Thursday, June 09, 2005

É verdade


foto05
Originally uploaded by Kanuthya.
Disse a Elis que se Deus tivesse voz, cantaria com a do Milton.

Papaver Rhoeas


papaver-rhoeas papoila
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enquanto me prendem raízes à terra, se enlaçam e me têm segura, enquanto esta pétala ainda não cai, está assim, só inclinada por um sopro de vento mais forte, enquanto não me extirparem sei que continuo, mas só aqui, por mais água que me dessem num tubo de vidro perderia as mãos rubras e cessaria de ser

Zangukenu *


musseque by Steven Le Vourc'h
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Caminhos de musseques

Caminhos dos musseques
lá onde a areia entra pelos sapatos
daqueles que têm sapatos
lá onde o sol se filtra pelas fendas
pelos buracos dos pregos
dos tectos de zinco.


Caminhos antigos.
Caminhos antigos como o Mundo.


A cidade empurrou os musseques
e o cacimbo caiu mais de mansinho
escondendo as figuras esguias
e os rostos de chumbo.


Lá
onde a esteira cobre o chão varrido todas as manhãs
lá
onde a fuba substitui todas as claridades
lá
onde a cerveja escorre pouco
porque não há dinheiro de comprar.


Caminhos antigos
onde a eletricidade começa a fazer circular
“idéias estrangeiras”
onde os motores dos carros
acordam as madrugadas das crianças
que antigamente ouviam passarinhos.


As fendas, os muros, os tectos
os buracos dos caminhos
esboroando-se no passado
alcatrão penetrando e desmentindo a mudança
cimento e cal erguendo os muros cinzentos das fábricas
saias lutando contra os panos das velhas
telefone até.


Nas almas... um grande vazio
preenchido pelos merengues que vêm de fora.


Lá – caminhos da vida
Lá no mato. Lá no campo. Lá na floresta. Lá no estrangeiro.
Lá onde se nasce, vive e morre todos os dias
com kambaritókué ou sem ele
com um lençol simples ou uma vala comum
morrendo apenas é que tudo acaba.
A vida tem de ser dignamente vivida.
Vamos juntar as nossas cobardias
os nossos sofrimentos
as nossas ansiedades
nossas angústias
nossos sorrisos
nossos sarcasmos
a nossa coragem
nossas vidas.
Vamos
Lá – no musseque – areais vermelhos
onde passam os caminhos da vida
e vamos
dizer
corajosamente
às crianças que esperam o nosso exemplo
que este quintal
tem de ser estrumado com sangue
adubado de sofrimento
cultivado com as dores
mangueiras
anoneiras
gindungueiros
frutificando ao sol e ao luar
para quê dizer mais versos
que só o povo entende?

Ernesto Lara Filho

*Levantai-vos



Maninhos

É divertido ouvir os angolanos. A eleite angolana fala igualzinho aos portugueses. Já o povo tem um sotaque diferente - os nasais são agudos, espanholados (Luánda, Án-gola, páo, máe); alguns "e" e "o" são fechados (dêla, côla). Nos meus ouvidos autocentrados, eles soam como estrangeiros falando o português do Brasil.
Mas a surpresa é quando cantam. Se a música for angolana ou portuguesa, o sotaque é português. Mas se o cantor ataca de música brasileira, o sotaque se torna carioca de gema, com todos os dji, tchi, amorrr e forrrrça a que se tem direito.

Ricardo freire, Postal por Escrito: Luanda, pela mão de um brasileiro, in Angonotícias

Wednesday, June 08, 2005

Datura Stramonium


datura-stramonium-1
Originally uploaded by Kanuthya.

houvesse tempo e procurava-te mais moinhos para seguires, os que a vista e braços negros de sol pudessem alcançar, ignorarias as toxicidades do mundo, qualquer figueira do inferno que sabes derrotar

Tuesday, June 07, 2005

In viaggio III

Fecha os olhos. Estás de novo na Avenida João das Regras, e perguntas-te se é esse o nome e porque te veio tao rapidamente à mente, sem que contasses incluir estes detalhes. Tens uma mão na tua, dedos modificados por acidente de trabalho, dizem eles. Não sabes na altura o nome dessa avenida que te leva à ponte, e que fazes sempre pelo lado direito, ele deixa-te caminhar o possível em cima de um muro baixo, os outros não deixam, mas ele é demasiado lunático para se preocupar, as crianças caem, e erguem-se, é normal. Já sabes que as folhas de árvore que se penduram no teu muro te deixarão as mãos, braços , rosto cobertos de vermelhão comichoso. Ele também o sabe, se é que se lembra de tais pormenores mundanos, sempre ausentes da sua mente que vagueia por espaços maiores, não há recantos para alergias, anti-histamínicos, cirurgias reconstrutoras de dígitos serrados, cálculos de anestesias. Bastarão umas bolas de algodão embebidas em álcool na pele em formação. Leva-te sempre aos baloiços, leva-te um saco com pão para os patos do parque, corre contigo para o trólei. Deixa-te brincar a equilíbrios precários em murinhos velhos de quinta abandonada. E deixa-te sempre tocar as folhas.

Zantedeschia Aethiopica


zantedeschia-aethiopica
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Não apaguemos ainda a luz que nos escorre pelas frestas, pelas feridas por fechar. Acariciemos a alvura disfarçada em pétalas e não censuremos espinhos amarelos palpitantes e erécteis que se nos impõem à vista, ao tacto, ao gosto, ouvindo rumores imaginados de um lírio de qualquer Nilo, quando não convém pensar.

Monday, June 06, 2005

In viaggio II

O Egozi, que apenas uma pessoa poderá aqui identificar à primeira, deu-me uma máquina de escrever, assim, de improviso, com um sorriso rasgado. Não sei bem quantos anos teria eu, mas eram poucos, o que é sempre relativo, certo. Essa personagem viva povoou anos duros de infância de coisas belas. Vislumbro-o agora donde estará, ambos pressentindo que não está ainda pronto para voltar a indossar vestes terrenas, e lembro o seu sorriso de dentes perfeitos, todos seus, tirando um que obrigou o doutor a arrancar, por muito que este lhe dissesse que estava de perfeita saúde. Pois ao Egozi não lhe importaram essas conversas de nevralgias, se lhe doía onde estava o dente, fora com ele. Lembro o seu sorriso muito mais aberto, adivinhando matreiro que a maquineta me fazia sorrir por dentro muito mais do que a boneca gigante que falava. Era sábio, o Egozi. À gaiata (e a ele, for that matter) pouco lhe importava o clanque clanque das teclas perturbando ouvidos alheios. As canetas e blocos sem fim tinham o seu lugar próprio, mas a máquina...ah a máquina era outra coisa... Não era assim como esta ao lado, ai pois não, mas não estraguem a recordação com pormenores rígidos, se faz favor. Era um caminho andado para as modernas, que agora repousam em prateleiras ou em lixeiras, substituídas por estas que guardam memórias e tudo fazem em silêncio conveniente, com um ventilar aqui e ali, mas daqueles que nao incomodam ouvidos. Aquela trazia inovações que dispensavam frascos de corrector branco, que julgam? Mas a campaínha de aviso de chegada à margem imposta, essa ninguém lhe tirava.

Sei que de vez em quando me deves espreitar, Egozi, mas sinto a tua falta à mesma. Calculo que saibas que há algum tempo atrás, quando entrei naquele local com odor de incenso rasgada por dentro, foste tu quem desejei ter ao pé de mim. Não pedi que regressasse um amante perdido, um amor desta e doutras vivências. Pedi que me desses a mão, e tive saudades tuas. Tantas. Tu nunca me fizeste chorar.

Friday, June 03, 2005

tensão, profusão de canetas ou a antevisão de catástrofe narcisista


pelikan
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É tal a profusão de personagens e suas respectivas estórias que quase (quase porque a narradora manda pouco, mas ainda alguma coisa, pelo menos por enquanto) se impõem em contos, cada qual exigindo um espaço próprio, pouco dadas que são a promiscuidades. Uma delas vem insistente, nos últimos tempos, faz demandas e amua, por não lhe ser dada atenção exclusiva. Não vai fazer monólogos (está bem, talvez alguns, mas poucos, segundo promete), sugere com altivez e nariz arrebitado que mercia bem uma escriba mais dotada. Por cá o calor veio pegajoso, as veias palpitam muito além do que devia ser suportável pela nossa veste corpórea temporária. Quando lhe é permitida a palavra, a escriba promete tentar não imiscuir-se demais na vida de M., a tal altiva. De pouco serviria, aliás. Elas ganham vida própria, seguem caminhos que fogem a sinopses planeadinhas, e borrifam-se nos nossos planos.

Thursday, June 02, 2005

Retalhos do Chico

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Prefiro então parir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro com certeza
Talvez no tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei como encantado
Ao lado teu.

Todo o Sentimento, Chico Buarque

Wednesday, June 01, 2005

Com olhos de ver

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho

e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
p'ra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Natália Correia, in O Nosso Amargo Cancioneiro

Ela sabia

Natália Correia, Arquivo DN

Partilha


ft_natalia
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Minha amada Rita,

que melhor momento para te escrever que ao som da Queixa das Almas Jovens Censuradas, da minha Natália, que o José Mário soube ler como poucos. Nem é preciso dizer que tenho todos os poros arrepiados, de tão lindo que é, tão trágico, tão verdadeiro, em cada sílaba. Somos amigas retomadas de outras vivências idas e por enquanto esquecidas, reencontradas e reafirmadas no que nos une nas circunstâncias mais surreais, como de resto a vida que nos rodeia o é. Surreal. Vejo no amanhã as queixas que a tua alma sempre não censurada produzirá, e imagino-me sentada numa plateia, assistindo ao teu teatrar mais vero que a vida. Serão também bilhetes para o céu levadas à cena num teatro, como ela diz.

Tuesday, May 31, 2005

Lírica amorosa vs. lírica religiosa


taj mahal
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Chamava-se, parece, Arjumand Banu Begam, mas o marido, sabendo bem da arbitrariedade do signo linguístico, preferia chamá-la Mumtaz Mahal, a luz do palácio, ou a eleita do palácio. Uma ode em mármore a essa mulher, um poema de pedra paradoxalmente viva, que muda de tonalidade conforme a luz que a banha. Ouvimos sempre que o seu lírico autor teria sido o imperador Shah Jahan, o tal apaixonado.

Vêm-nos agora dizer que o palácio é muito anterior a Shah Jahan, de origem hindu, e não mulçumana, construído talvez em 1155 A.C. por um tal Raja Paramardi, como um templo Vedic, que Shah Jahan o terá adquirido e posteriormente escolhido como túmulo para a sua esposa favorita.

A quem de direito, obrigada por esta visão.

Aos contadores de histórias e estórias, gratos pelo sonho.

Monday, May 30, 2005

Original Crafting

Prepara-se um texto menor sobre coisas maiores, como um amor que origina um Taj Mahal, por exemplo, um poema de mármore perpétuo. Entretanto cheira a queimado, a modernice (melhor, a proibição de aparelhos a gás neste local - seria mais urgente preocuparem-se com questões higiénicas, mas pronto) arranca-me aqui o meu velho fogãozinho a gás, impõem-me as modernas placas de cerâmica. A ausência dos bicos e da chama é fatal, não se vêem labaredas que preparam um café cheiroso. E assim fica esquecido um pano velho de cozinha, que deixa assim de ser um vulgar pano de cozinha e ganha um picot original e que não aumentou a tendinite em serões de crochet. E tanta coisa para a simples constatação de que estou definitivamente caduca...

Manifesto contra o sono que vem a horas indesejadas

Em condições normais, isto é, antes de deixar os vampíricos hábitos de lado, aquele livrinho teria sido devorado numa noite, mas acabou por se prolongar, vítima das pálpebras cansadas. Depois de inícios de noites a vogar entre as águas de Vian, com O Arranca Corações, poder-se-á ainda esperar alguma sanidade mental?

Friday, May 27, 2005

Um dos que consta sempre nos tais caderninhos, D.

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel

De mais que tua pele ser pele da minha pele

David Mourão-Ferreira

Thursday, May 26, 2005

Il quadernino

Deram-lhe um, pequenino, forrado em tecido acolchoado, garrido e da cor que com ela condiz, vermelho escuro, como o sangue. Veio no tamanho exacto para lhe fazer sempre companhia, para onde fosse. E ela rabiscou lá palavras alheias, muito mais que as suas, as rimas ou ausência delas na poesia que as dispensa.

Foi este o primeiro presente que fez em réplica para ele, anotando as primeiras entradas de um caderninho que deveria ou poderia ter sido continuado vida fora, a duas caligrafias entrelaçadas. Jaz lá, não está morto nem arrefece, não é vermelho fogo, mas queima.

Constatação inútil

Odeio códigos de barra.

Out of Order, by Elfi Kaut

Tuesday, May 24, 2005

Tento escrevinhar por aqui, mas sempre amei o cheiro do papel e suas texturas, a forma como a tinta desliza, o toque das canetas que se tornam extensões de nós.
Estarei longe da minha língua primeira, ou fará ela parte inseparável de mim? Tremo perante a possibilidade do seu esquecimento, rodeio-me de livros e projectos de nunca deixar as letras lusas de parte, tal é o pavor do erro, muito além do ortográfico, do erro do esquecimento da mais pura poesia, que talvez só nos nossos irmãos irlandeses tenha par, dos jogos de possibilidades infinitas, tal como aqueles do amor, sempre reinventado, sempre ultra sentido.

Monday, May 23, 2005

Negação

Não há folhas secas de um Outono que se quer perpetuado para emoldurar, botinhas de bebé tricotadas em frente à televisão, ramos secos de alfazema a perfumarem a despensa de trastes, cinzeiros de vidro coloridos e caixas metálicas de bom gosto que aguardem fumadores de cigarrilhas. Não há calendário kitsch onde apontar os aniversários alheios com círculos a marcador de feltro, gelado de limão no congelador, não há miúdos a correr no jardim. Não há labrador nem vedação em madeira branca, garagem com recordações de infância enfiadas em caixotes cobertos de pó, prestações de seguro por pagar, lava-loiças de alumínio brilhante, discos ordenados por ordem alfabética.

Será mesmo para rir ou sorrir no final? Porque eu tenho sempre vontade de chorar quando a ouço.

A ouvir cantada pelo Fausto.

CARTA DUM CONTRATADO

Eu queria escrever-te uma carta, Amor,
Uma carta que dissesse deste anseio de te ver
Deste receio de te perder
Deste mais que bem querer que sinto
Deste mal indefinido que me persegue
Desta saudade a que vivo todo entregue...
Eu queria escrever-te uma carta, Amor,
Uma carta de confidências íntimas,
Uma carta de lembranças de ti, de ti
Dos teus lábios vermelhos como tacula
Dos teus cabelos negros como dilôa
Dos teus olhos doces como macongue
Dos teus seios duros como maboque
Do teu andar de onça e dos teus carinhos
Que maiores não encontrei por aí...
Eu queria escrever-te uma carta, Amor,
Que recordasse nossos dias na capopa
Nossas noites perdidas no capim
Que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
O luar que se coava das palmeiras sem fim
Que recordasse a loucura da nossa paixão
E a amargura da nossa separação...
Eu queria escrever-te uma carta, Amor,
Que a não lesses sem suspirar
Que a escondesses de papai Bombo
Que a sonegasses a mamãe Kiesa
Que a relesses sem a frieza do esquecimento
Uma carta que em todo o Kilombo
Outra a ela não tivesse merecimento...
Eu queria escrever-te uma carta, Amor,
Uma carta que ta levasse o vento que passa
Uma carta que os cajus e cafeeiros
Que as hienas e palancas
Que os jacarés e bagres
Pudessem entender
Para que se o vento a perdesse no caminho
Os bichos e plantas, compadecidos de nosso pungente sofrer
De canto em canto, de lamento em lamento, de farfalhar em farfalhar
Te levassem puras e quentes
As palavras ardentes, as palavras magoadas da minha carta
Que eu queria escrever-te, amor

Eu queria escrever-te uma carta...
Mas, ah, meu amor, eu não sei compreender
Por que é, por que é, por que é, meu bem
Que tu não sabes ler
E eu - Oh! Desespero! - não sei escrever também!

António Jacinto (1924-1991)

Sunday, May 22, 2005

In viaggio I

A garota aportou numa Portela perdida, pela mão de uma mãe leoa destroçada, pela perda da sua terra, pela incerteza, pela busca da família espalhada em fuga aos tropeções, sem pré-aviso, como todas as catástrofes o são. Nos corredores cinzentos que acolhem as gentes armadas em pássaros, uma familiar jovem, que via chegar milhares, que não compreendia, que chorava. Desse primeiro tempo ficou a essa garota o refúgio na casa de uma tia-avó Ana, na baixa lisboeta, a ironia do nome de uma rua de felizmente ex-colónias, com o seu marido louco, a quem ameaçava com uma batedeira de bolos em pleno funcionamento, quando os disparates a exasperavam além da conta que uma algarvia amarafada pode aguentar. E ficou a visão, antes da garota ter sequer dois anos de idade, de um quarto minúsculo, atolhado de retalhos de tecidos de todas as cores, sobras de encomendas finas de senhoras, um mundo de trapos, como os que a rodeavam, vidas em farrapos, e o agradecimento de pão para as suas bocas, quando o pão da alma falta. No meio do caos, há essa visão, da belíssima Ana, que sorri, abraça, pega em retalhos e faz vestidos para bonecas inexistentes da garota.

Thursday, May 19, 2005

Ao mercador, sem comércio, só dádiva

Hoje colocarias a fronte sobre o meu regaço e eu cantaria baixinho, buscaria palavras minhas e alheias, para tapar as tuas feridas abertas, as tuas repetidas esperas de amor. E faria com que te zangasses comigo, quando te dissesse que não o são de facto, de amor, são um braço perpetuamente estendido em busca de algum alguém que procuras reconhecer nesta vida, tu que apenas nesta crês. E talvez não faças mal. Devemos viver cada uma como sendo a única oportunidade.

Wednesday, May 18, 2005

Emprestado pelo Caetano


Salgado2.2
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Gente é para brilhar, não para morrer de fome.

Tuesday, May 17, 2005

Desculpem lá mas...

...como se diria na minha terra de adopção, depois de até ter mudado o nome de um blog (é a arterioesclerose galopante): links dum cabrão.

Na impossibilidade de...

...aqui colocar a obra de arte que o Miguel Esteves Cardoso fez a partir de duas línguas pouco fraternas...

Quando fores velha e grisalha,
E cambaleares de sono junto à lareira,
Pega neste livro e lê-o lentamente,
E sonha com o suave olhar
Que os teus olhos e suas profundas sombras
tiveram um dia.

Quantos amaram os teus momentos de graça pura
E amaram a tua beleza com amor falso ou verdadeiro
Mas apenas um homem amou a tua alma peregrina
E amou as mágoas do teu rosto enquanto este se transmutava.

E inclinando-te sobre o ferro incandescente
Murmura, com alguma tristeza, como o amor partiu
E galgou as montanhas
E escondeu o seu rosto
Entre uma multidão de estrelas.

W. B. Yeats

Monday, May 16, 2005

Este senhor escreveu...


Yeats
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When you are old and gray and full of sleep
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true;
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face.

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how love fled
And paced upon the mountains overhead,
And hid his face amid a crowd of stars.

W. B. Yeats

Tenta...

...deambular entre páginas de João Lobo Antunes, mas antes do sono refugia-se sempre na ficção. Não que tal seja alimento para os sonhos. Esses são surrealistas, como a vida.

Thursday, May 12, 2005

Mai addio. A dopo...


Nude in Chair by Elena Morzov
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Jogas fora um livro, uma boneca de pano, uma peça de lingerie azul-celeste, um tecido bordado com estrelas e um poema que só passou a fazer sentido quando lido por ti.

Como lavas um odor entranhado na epiderme da alma?

Tuesday, May 10, 2005

De beleza pura II


fetus (Da Vinci)
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Em que outro universo que não de líquido amniótico está suspenso o teu perispírito, Clara?

Sunday, May 08, 2005

Intimacy Draft


07_Drawing_II_jpg
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Therefore, slowly uncover your deepest secret, your most inner hidden self-made craft, and trust me as its faithful keeper.

Thursday, May 05, 2005

... II


joquinha1
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Para compensar, roubo a frase à So : segundo o último comunicado oficial, a Joca vai ser canonizada pelo Vaticano Canino. Não, ela não é budista, por um simples pormenor: a gula...

A propósito disto - I


fred1
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Fica sabendo, senhor Fred, que és responsável pela anulação do sonho da white fence que habita em todos nós!

let's go grandpa


let's go grandpa
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As tuas mãos não eram assim, não.
Mas continuo a sentir a tua suave presença.

Wednesday, May 04, 2005

A janela lá longe

Eu costumava adormecer com ondas a desmaiar na areia.

Momento piroso

The bird with the thorn in its breast, it follows an immutable law; it is driven by it knows not what to impale itself, and die singing. At the very instant the thorn enters there is no awareness in it of the dying to come; it simply sings and sings until there is not the life left to utter another note. But we, when we put the thorns in our breasts, we know. We understand. And still we do it. Still we do it.

Colleen McCullough

Grazie, Simone :)

fait divers

Nas imediações todos se parecem ter lembrado de fazer obras, levantando cercas (não, isto era o que os meus olhos pediam, são muros mesmo), aumentando casas, reformando garagens. Vou pregar uns pregos e pendurar uns quadros e já volto.

Tuesday, May 03, 2005

Don't fear for my sanity - part II

Fizeste-me recordar o perfeito horror recontado numa carrinha branca. Dei-te o cognome do meu chá preferido, estás exactamente na terra das plantações, mas chamo-a com o nome nativo da minha terra. Bissapa.
Como sobreviver ao terror? Como vivê-lo. Como viver o momento em que nos apontam uma arma e querem obrigar a esmagar o fruto de nosso ventre (ou de qualquer outro, for that matter) com um pilão? Como continuou vivendo moribunda a mulher a quem arrancaram um bebé quase recém-nascido, o viraram de cabeça para baixo, e, pegando em cada uma das tenras pernas, o dividiram ao meio?

Thursday, April 21, 2005

Aviso à navegação

Acaba de passar Chris de Burgh.
É a decadência.

O Lobo diz que sabemos estar a envelhecer quando passamos a gostar de sopa

Escolher como temática de rádio online, Lite Office Music...
Deve ser a decadência...

Per il mercatore

Porque os outros se mascaram e tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não


Porque os outros são os túmulos calados
Onde germina calada podridão
Porque os outros se calam mas tu não


Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo
Porque os outros são hábeis mas tu não


Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia

Tuesday, April 19, 2005

Don't be afraid

A crer no que escutei, que compreensão mórbida e partilha poderei ter com o Mourão-Ferreira, no sossego que lhe é dado pela morte da sua virgem, garantia vã que não será de outro alguém?
Que espécie de monstro se pode ser?

Thursday, April 14, 2005

Telepatias

Sintonizamo-nos assim, eu escrevinhando sem as penas afiadas que adoro, tu lendo-me. E lendo-te também, muitas das linhas que aqui estiveram estão nas tuas mãos.

Sunday, April 10, 2005

lettera al mio angelo

Envolve-me nas tuas asas de algodão e mostra-me, faz-me compreender, escutar sem reclamar tanto, perdoar sem ter de explodir primeiro. Ecco, compreender. Para poder ser.

Wednesday, April 06, 2005

Slow down

Aqui até o sangue é desobediente. Pedem-lhe que se passeie, tranquilo e eficiente, por estreitas ruas, levando o essencial ao corpo. Mas ele corre, sempre, a velocidade impensável num corpo jovem.

Monday, March 14, 2005

Morena de Neve

Brindaram-nos com a variedade neste planeta, e os flocos brancos também estão incluídos, ainda em que em locais onde só o conforto artificial permite a vida ao homem. E o atingir alturas quase tão elevadas como os nossos sonhos, que não necessitam de telecabines transportadoras. Mas esta aqui nasceu numa baía ensolarada, de calor húmido e pegajoso.

De beleza pura

Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Alexandre O'Neill

Thursday, February 24, 2005

...

Vêm ter consigo sem horas marcadas, não pedem licença para entrar e instalam-se por entre os canais turvos como os de Veneza. Pedem satisfações, não há direito, estamos cá, existimos, temos vida própria, tens obrigação da a registar, assim, em folhas soltas ou em encadernações cuidadas, o que não podes é deixar-nos penduradas in continuum.
A CGD tem uma foto ternurenta com os pés de uma garota, sobre uma caixa enfeitada de asqueroso consumismo natalício e a Dunhill promove acessórios de luxo para homem que poucos podem comprar, e tu refugias-te em fait-divers, tudo para nos deixares cá, asfixiando dentro da tua caixinha mental redutora e cansada.

Bandoleira

Pessoas que fazem compras ou fingem que as fazem, populando centros comerciais depressivos, a dona que compra alho francês ou endívias na mercearia do lugarejo, o rapaz que corre de olhos abertos para o eléctrico, um dono de restaurante siciliano, cantarolando incansável e louco num país de gente de nariz arrebitado, que secretamente, mas pouco subtilmente, inveja outras latinidades sorridentes e morenas, o triste candidato a gigolo que me baba as mãos num bar supostamente fino mas decrépito, com árabes que fogem da abstinência de Meca. A todos retiro algo sem pedir licença. E fica aqui tudo, comigo, alimentando as vidas que se criam independentes, que povoam esta massa confusa de dendrites e sinapses. Alguns dão-se bem, trocam piropos, impressões e apalpões. Outros vão cultivando odiozinhos de estimação, vários querendo ser vilões, que isso de ser herói da história é uma chatice. Esperam ser deitados e deleitados em linhas desalinhadas.

Tuesday, January 25, 2005

Perdão

Senti como uma bofetada o enviar-te para onde menos desejarias ir, sem outras hipóteses de te ajudar ou de te manter junto de mim. Vi-te partir para junto de quem tanto contribuiu para essa derrocada implacável que te arrancou do solo. Espero que me perdoes um dia.

Num instante

Em que momento caiu esse véu sobre ti, em que momento puseste o primeiro pé, sem timidez de quem avança em terreno incerto, num umbral escuro, labiríntico, em que se misturam os tempos e se perdem fios condutores de enzimas, circuitos mentais cintilantes que não são medidos com tomografias. Avançaste e revoltei-me, gritei, agarrei-te com força violenta que não costumas ver em mim, tentei puxar-te, na ignorância súbita causada por um amor profundo que nos acompanha desde que voltaste ao corpo, nesta vida. Não te pude reter, e seguiste numa barca pelos meandros mais escuros, vendo o que eu adivinhava mas não me atrevia a nomear, por ter imaginado e esperado que coisas assim podiam acontecer aos outros mas não a ti. Não a ti.

Thursday, January 20, 2005

Soon to come... errr

...e viva a improdutividade.
Vai custar. Mas mais logo tenho que te escrever. Me escrever. Mais logo.

Friday, December 17, 2004

olha

Olha,
sei que me tenho desleixado, não te levo para fora, não digo que reparo na forma como a madeixa de cabelo te tapa a cara, não a afasto e não sentes as minhas mãos emoldurarem-te o rosto assim, numa fotografia que ficaria para sempre comigo, que não podes rasgar, que não podes levar contigo agora, que o turquesa te fica bem, que gostava de vez em quando de te deixar bilhetes quando saio e nunca o fiz, não te falo em cadência que condiga com que aqui vai quando te vejo descer as escadas e guardo comigo esse som de madeira sobre madeira que só tu podes produzir, assim esse timbre exacto, que não te pergunto porque não falas, olha, já pendurei as prateleiras na cozinha, e sei que estás cansada, exausta dos silêncios sem cumplicidades, tirei a roupa da corda, esses estendais que enfeiam a nossa rua e a nossa varanda, onde não cheguei a fazer os furos para as floreiras, que podiam ter sardinheiras vermelhas, assim a dar um ar feliz, sabes dizer porque motivo as floreiras dão um ar feliz às casas? Há pouco aqueci os restos de ontem para o jantar. Estão dois pratos, parelhas de talheres, copos de pé alto, como tu gostas, os guardanapos com girassóis. És capaz então de me dizer. Porque porra não chegas.

Friday, November 19, 2004

Empréstimo de Clarice e Chico, na voz de sempre

Eu sei de muita coisa que não vi
E vocês também, eu sei
Não se pode dar uma prova de existência
daquilo que é mais verdadeiro
O único jeito é acreditar
E acreditar chorando
Esse show acontece
em estado de emergência e de calamidade pública
Trata-se de um show inacabado
porque lhe falta resposta
resposta que espero que alguém no mundo me dê
É um show em technicolor
para ter algum luxo, por Deus
que eu também preciso
Ámen
Para todos nós.

O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho

O que será que será
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido

O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo.

(Clarice Lispector/ Chico Buarque, À Flor da Terra)