Tuesday, November 25, 2008

So long, beautiful Sangoma...

Miriam Makeba







Thank you for bringing beauty and meaning to this world.



Monday, November 24, 2008

de las noches de viento e mañanas de hielo



As matinas em Madrid vão mostrando os traços do frio que a noite deixou, finíssimas camadas de gelo abraçadas às telhas.
Em frente, uma vizinha cobriu suas flores com capas de plástico, tentando adiar o momento em que os vasos nas suas janelas dependurados deixarão de ter fortes cores, contrastando com a alguma monocromia dos edifícios.
Esta noite o vento das montanhas prestou visita impetuosa ao vale, sobressaltando a vizinha, que se interroga se as plásticas protecções resistirão...

O ser humano conseguiu, de facto, fazer de seu habitat qualquer ponto no globo, praticamente, e os agasalhos foram-se tornando cada vez mais sintéticos e poderosos. Eu não acompanhei essa evolução do homo sapiens, não pelo frio, que não impera, pelo menos por enquanto, de forma forte por aqui, nesta cidade de que bem gosto. Madrid é a capital mais alta da Europa. Definitivamente, apesar de passar tempo considerável na lua, eu sou marinha, e o meu corpo grita-mo com veemência, zangando-se quando por paragens mais altas me aventuro.
Calma, meu mar oceânico que teimo em chamar de mar, e sei que gostas de tal. Já vou.

Thursday, October 23, 2008

da gestão do acondicionamento de itens comprados

As listas de supermecado serão, aparentemente, vistas por algumas almas como orgíacas, vergonhosos bacanais (os decentes são os pratos fundos de esparguete), misturando itens de convivência improvável. Nunca soube o que era a convivência improvável.

Num momento muito escuro, há que aclamar com olés e palmas andaluzas quem nos faz rir ou sorrir.
Num momento muito escuro, há já um bom tempo, aproximo-me da caixa registadora do supermercado, apressada, apresentando umas caixas de gelado, sabores sortidos, como me havia sido solicitado (os minúsculos cubos de caramelo enterrados na cama do doce de leite, a antecipação da luta da colher de sopa em busca dos cubos, a batalha à mesa para ver quem os apanha) e pacotes de pensos higiénicos.

Sou toda pela poupança de sacos plásticos e pela preservação dos meus dedos, gelados pelo gelado. Atiro, eco-economicamente, as parcas compras para um saco.
A moça da caixa atira os seios para cima da superfície, alçando a voz em descrédito e genuína preocupação.
Então não sabe que nunca se juntam os pensos a congelados?! É que se não... ficam mesmo gelados, percebe?

Senti a boca abrir e as palavras a chegarem velozes, traqueia acima, e num inusitado impulso de compaixão quase quase mudava a vida daquela mulher, explicando-lhe as maravilhas dos pensos e das cuequinhas colocadas no congelador. Depois contive-me e agradeci-lhe.
Não é todos os dias que demonstram tanta preocupação pela nossa mais-que-tudo.

Sunday, October 05, 2008

Amado

(helenice.com)

Fazias-me moinhos para que eu corresse no terraço que me parecia imenso, e hoje sei não ser tão grande, mas aos olhos da criança é tudo grande, como deves recordar.

Fazias-me moinhos e móveis para que brincasse. Um pequeno guarda-roupa, que a avó completou com toque de ouro sobre azul, encontrando cabides minúsculos, onde se podiam suspender as minúsculas roupas. o Guarda-roupa tinha duas portas e uma gaveta. Dizes que não? É assim que o vejo, e sei bem que não te importas. As tuas preocupações escapavam em muito aos comuns. Aéreo e pragmático. A estranha combinação que creio ter de ti herdado, apesar de não bater tantas vezes contra as coisas como tu, que via sempre com curativos.
Há já algum tempo, um bom escriba, presente nas linhas alheias, escreveu algo lindo, aquando da partida de uma familiar. Duas curtas frases, caixa fechada, sem direito a comentários, sabiamente. Dizia (perdão pelo roubo descarado, D.): "Foste um anjo. És uma estrela."

Eu não sei se foste um anjo. Para mim, estiveste perto. Conheci-te de poucas palavras, as pronunciadas certeiras. Calavas ou dizias justamente o que pensavas. E, estranhamente para alguns, tal não diminuía o respeito e carinho que te votavam. Nem mesmo quando, numa qualquer tarde de Domingo, uns parentes se sentavam na sala, após terem devorado a minha farinheira, lançando para o ar mil e uma narrativas. A tua mulher viu-te levantar e dirigir para a porta, empalideceu e perguntou, a medo, Mas onde vais tu? E tu, com sorriso e o mais plácido ar, Vou para o terraço, que não tenho paciência para estar sentado a ouvir mentiras e disparates.

Fazias-me moinhos para que eu pensasse que corria nos braços do vento, como é de direito que uma criança pense.

Tinhas lendária fama de lunático. Muitos dias, que a mim pareciam ser todos, levavas-me a passear e brincar na rua. O mundo lá fora que eu conhecia pouco, os outros miúdos, que não conhecia, crescia com adultos numa terra estranha. Todos os dias me deixavas fazer parte do percurso por cima de um muro, que separava a estrada e passeio de uma quinta. As árvores do pomar atreviam-se, e espreitavam para o passeio, e eu tinha sempre de tocá-las, sentir a rugosidade da casca do ramo, tocar o verde das folhas. Que me faziam alergia, para depois chegares a casa e ouvirmos os dois que eu não podia tocar-lhes. No dia seguinte já havias esquecido mais um desses pormenores que os outros lembram. Eu agradecia e calava, enquanto tu, sorrindo como se fosse sempre a primeira vez que te fizesse tal pedido, me ajudavas a subir para cima do muro, que percorria de mão entrelaçada na tua.

Já um ano se passou, Amado. Já que, por um mistério, não fiquei, nem ficámos, nós que tanto o queríamos, com o teu nome, tomo-o para mim, e sei que não te importas e ficas feliz com o meu orgulhoso roubo. Um teu colega de juventude brincava com o teu sobrenome, dizendo, Aí vem o que antes de o ser já o é. Pelos vistos afinavas, eu que nunca te vi com nada afinar, de tal forma que decidiste que ninguém faria piada com os sobrenomes dos teus descendentes, se de ti dependesse.


Não ouvi de ti um queixume. Jamais te tinha visto doente. Sequer combalido. pensaram ainda, no início, talvez, que não soubesses o que se passava. Sabias. E a tua dignidade e amor por nós foi tão imensa que fingiste não saber.
De vez em quando penso que te vou levar ou dizer quando aí for. Depois recordo.
Prometi na altura que só contigo podia aqui regressar. Já passou um ano. E há pouco tempo, compreendi que, como criança, fazia de conta que não partiste, enquanto não o escrevesse.
Tem prontos para mim, avô Amado, os moinhos. Quero correr e pensar que ainda tenho muito que correr até ter de parar. Mesmo que não seja assim.
Até logo.



Saturday, December 29, 2007

Nota

A todos os que foram deixando mensagens, a todos os que me escreveram preocupadamente. Obrigada. Dizia o Eduardo Pitta há pouco tempo que o autor do blog assume um compromisso com o leitor. Não desaparecer, basicamente. Alguns, sabendo quem são, conhecem os motivos. Nada de discursos apologéticos. Tão somente, Obrigada.

Thursday, November 01, 2007

Grãos

Umas quantas jogadas de spelling bee, e para cada palavra certa, 10 gramas de arroz para populações carenciadas, através de um programa das Nações Unidas. Fácil, rápido, não dói. Alimenta.

Sunday, September 09, 2007

aparentemente.ainda.aqui.estou.

Friday, June 08, 2007

pré-viagem telepática

Há clausuras felizes que não aprisionam.
Fotografia de Nicole Pey
(Mosteiro dos Jerónimos)


E há igrejas de facto singulares, em que nos sentimos mais perto do céu.
Fotografia de Carla Batolomucci
(Igreja do Carmo)


Uma antiga professora muito viajada jurava que as cidades mais belas do mundo eram Dublin e Lisboa. Quem sou eu para contradizê-la?





Friday, June 01, 2007

A história da Hope

Tuesday, May 22, 2007

Desta vez é por aqui que entrarei.


Fotografia de David Letts



Foi nesta cidade que passei parte da minha infância. Após a viagem descendente, a cidade continuou morando em mim. A minha bagagem é sempre pesada, mesmo quando engana largamente as balanças de check in.



Fotografia de Paulo Mendonça

Bela além do que palavras podem dizer.



Fotografia de Paulo Mendonça

Desabafo do dia: se ouço mais alguma vez (dou o desconto e refiro-me tão somente ao dia de hoje, que isto tem que ser levado um dia de cada vez) que "este é o país que temos", a minha orientação zen, reforma interior de nativa de Escorpião, tentativa de caminhada para uma vivência mais espiritualizada, enfim, tudo isto ficará seriamente comprometido, dado que me inclino seriamente para a possibilidade de vir a praticar sevícias ao meu próximo, sendo que os próximos se encontram relativamente a salvo pelo facto de estarem longe de mim, isto é, de estarem no tal "país que temos". O país que temos é feito por nós, e estou fartinha de ouvir essa porra. Deixem-se de queixas infindas, cabrões. Têm um país deslumbrante de tão lindo que é, tem muitas dificuldades, como muitos outros locais, tem muito menos dificuldades que vários outros locais no planeta, façam a vossa parte, que é o que vos cabe, em vez de bradarem aos céus tantos direitos sem deveres alguns. É triste que sejam poucos a amar essa terra, ao ponto de vir esta badameca que nem aí nasceu, e nem sequer dessa nacionalidade se considerou até muito tarde, vir dizer isto.

Thursday, May 10, 2007

lufada



Sopram novos ventos! Eu por mim abro os braços em cruz e acolho-os, fortes rajadas que me despertam ou leve brisas que me embalam.

Tuesday, May 01, 2007

coisas boas. porque são precisas.

Chegou a minha estação favorita. Vem já demasiado quente, a desgramada. Os campos estão rubros de papoilas e eu amo essa visão. Pois, bem sei que a foto não é dos campos rubros, mas não me deu muito jeito tirar a fotografia correspondente enquanto curvava e contra-curvava os ditos campos.
Mas quem disse que eu não gosto de nada por estas bandas?
Eu? Ups. Ma dai, não é bem assim...
Gosto muito de não ver animais abandonados. Eles existem por aqui também, claro. Mas em menor escala. Incomparavelmente menor.
Os felinos versão portátil escapam mais facilmente da segurança responsável dos seus companheiros de duas patas. Por isso são os que acabo encontrando mais nas minhas passeatas.

Ah, a cedência de uns segundos para a pose. Que enfado...
A mestiçagem é linda :D

Faz-te à estrada, pá. O que é de mais enjoa.

Wednesday, April 18, 2007

memories. too many of them

Pixies - Where is my mind

Tuesday, April 10, 2007

Orgulhosamente só

(cognitiva.net)


Disclaimer:
1. Picardia engraçada sim, parvoeiras violentas não, se faz favor;
2. Passemos ao que interessa.

Ora bem, não me bastava ter crescido bem rodeada de lagartos. Agora moro com um. Todos temos o nosso karma a queimar.
Já cá estava isolada em terras gaulesas (no pequeníssimo círculo em que me movo ou arrasto) como a única benfiquista. Mas não bastava, ah pois não.
Ontem chegou uma... amiga futura, quiçá. Alguém que já conheço e que não me provoca urticária, o que já é uma carrada de pontos a favor. Condescendo até a passear-me por supostos assuntos femininos, que também aprecio, não sou apenas uma maria-rapaz com os joelhos cobertos de cicatrizes de quedas monumentais de bicicleta, ah pois não sou. Até faço ponto cruz. Jesus, Maria, José. Adoro cozinhar. Pinto efusivamente os olhos desde os meus treze ou catorze anos, porra.
Agora, outra sportinguista...ah meu pai, tem dó, né?! Valham-me os santos todos... Até trouxe o respectivo cachecol para berrar junto do meu conversado. Snif. A coisa está tão dura para os meus lados que assistiu-se a algo inédito. A dar para a categoria do sobrenatural. Um simpatizante portista uniu-se a mim por pena. Diz que vai torcer pelo clube do meu coração no próximo derby. Vejo a coisa mal parada para o meu lado. A única coisa que consola é ter assistido a uma suposta aposta entre os machos que envolvia cortes de cabelo. Como não é o meu, estou nessa.

Monday, April 02, 2007

Telemarketing - dê-lhe com força


Nos comentários ao post anterior constava uma técnica a que também costumo recorrer. Aqui as chamadas inoportunas são de uma frequência insuportável.
Tenho geralmente um destes procedimentos:
- não atender sequer
- falar um francês incrivelmente macarrónico ( desisti do espanhol, pois nesta zona há vários descendentes hispanos e muitos gauleses que acham que falam um excelente castelhano - burp)
- levantar o auscultador e assim que ouço o Ouuuiiiiiiii, ou Alôooooooooo com a entoação que só os operadores de telemarketing têm, desligo sem pronunciar palavra.
Há, no entanto, outros métodos criativos. O pior são as chamadas em que atendemos e ninguém fala do outro lado. São chamadas efectuadas automaticamente, que se destinam a verificar tão somente os horários em que as vítimas se encontram em casa. Os dados são guardados e processados, para depois passarem às chamadas propriamente ditas. Não terei sido muito clara, mas prometo, quer queiram quer não, regressar a este assunto com as devidas dicas. Assim que conseguir encontrar as ditas cujas nos arquivos de mail...
Hoje deixo uma solução prática. Lamento não poder dar os créditos devidos, mas não havia identificação do autor...
"- Está?
- Está, estou a falar com o senhor Nuno?
- Sim...
- Sr. Nuno, aqui é da TMN, estamos a ligar para apresentar a promoção TMN 1.382 minutos, que oferece...
- Desculpe interromper, mas com quem estou a falar?
- O sr. está a falar com Natália Bagulho da TMN. Eu estou a ligar para...
- Natália, desculpe-me, mas para minha segurança gostaria de conferir alguns dados antes de continuar com a nossa conversa, pode ser?
- ...Sssssim, pode...
- A Natália trabalha em que área da TMN?
- Telemarketing Pró-Activo.
- E tem número de funcionária da TMN?
- Desculpe, mas não creio que essa informação seja necessária.
- Então terei que desligar, pois não estou seguro de estar realmente a falar com uma funcionária da TMN.
- Mas eu posso garantir...
- Além disso, sempre que tento falar com a TMN sou obrigado a fornecer os meus dados a uma data de interlocutores.
- Tudo bem, a minha matrícula é TMN-6696969-TPA.
- Só um momento enquanto verifico.
- ...???
(Dois minutos mais tarde)
-Só mais um momento, por favor.
- ...???
(Cinco minutos mais)
-Estou sim?
- Só mais um momento, por favor, estamos muito lentos hoje cá por casa.
- Mas, senhor...
(Um minuto depois)
- Pronto, Natália, obrigado por ter aguardado. Qual é mesmo o assunto?
- Aqui é da TMN, estamos a ligar para oferecer a promoção TMN 1382 minutos, pela qual o Sr. fala 1.300 minutos e ganha 82 minutos de bónus, além de poder enviar 372 SMS totalmente grátis. O senhor estaria
interessado, Sr.Nuno?
- Natália, vou ter que transferir a sua ligação para a minha mulher porque é ela quem decide sobre alteração de planos de telemóveis. Por favor, não desligue, pois a sua chamada é muito importante para mim...
(Pouso o telemóvel em frente ao leitor de CDs, coloco a música "Quero cheirar teu bacalhau" a tocar em repeat mode e vou beber um cafezinho...) "

Wednesday, March 28, 2007

spam

Todos conhecemos a chatice do spam, seja na nossa caixa de correio tradicional (onde de facto podemos pelo menos colocar um pedido Publicidade Aqui Não protegido por lei), seja na virtual. Aqui vim a ter contacto com as agruras de uma outra forma de melgar completamente as pessoas. O Telemarketing. Ele existe em Portugal também, pois claro. Mas aqui ultrapassa os limites da minha paciência. Enquanto não coloco em prática alguns passos muito úteis para evitar que me chaguem o santo juízo pelo telefone, lamento informar que grande parte das vezes não o atendo, sobretudo a certas horas.
As dicas virão no próximo post.
Hoje ficam as pérolas do dia, inaugurando uma categoria.
Fascinam-me os títulos dos mails de spam. Já as cartas da nobreza nigeriana que pede o nosso auxílio não têm piada nenhuma, pois costumam chegar escritas em inglês correcto.

"It conetoe in buckhead."

Monday, March 12, 2007

Manifesto medíocre mas com boas intenções

Não posso bradar aos ventos Morra o apóstrofo PUM PUM. O apóstrofo não partilha as culpas do Dantas. Ah, pois não. Porque eu amo o apóstrofo. Como tal, vejo-me no dever de o defender com unhas e dentes.
Substantivo masculino. Sinal gráfico indicativo da elisão de letra ou letras numa palavra.
Elisão, senhores e senhoras. Na língua portuguesa. E na inglesa também.
Querem fazer-me a delicadeza de parar de o usar nos casos mais disparatados?
O apóstrofo NÃO SERVE para indicar o plural. Em inglês é muito frequente encontrar casos de uso ERRADO do apóstrofo. Um conjunto de computadores pessoais não se designa como *PC's. Argh. Blurp. PC's= Do computador.
Isto é difícil? Não me parece. As hemorróidas são bem piores.

Wednesday, March 07, 2007

"You're not even a nigger. You're an African."

Soco no estômago.
Vergonha.
Continua, apesar dos "nunca mais". No Sudão, por exemplo.

Escutado: "Que culpa temos nós, ou que responsabilidade temos se se dedicam a massacrarem-se uns aos outros?"
Parece que a ideia é bastante flexível quando outros têm petróleo, diamantes...Aí organiza-se uma intervençãozinha.

Palavras que ficam e esfaqueiam a alma.
We're here as peace keepers, not peace makers.
You're not even a nigger. You're an African.

Sunday, February 25, 2007

A morte saiu à rua num dia assim....



Ah...entrei no blogger...por portas travessas, mas cá estou.
Escutava ontem abismada a lembrança da partida do Zeca há vinte anos atrás. Vinte anos. Acho que é a primeira vez na vida que me dou conta da minha idade. Que saudade.
Ficou frustrada mais uma tentaiva de ilustrar o post com a música, mas fica a lembrança da do título.

Tuesday, February 13, 2007

Escutando e não podendo partilhar Portugal, Portugal, de Jorge Palma

Ouvi ao longo dos anos chamarem-me portuguesa de segunda, digo, branca de segunda. Não foram muitas as vezes. Não há, por parte dos enunciantes, culpa alguma dos eventuais escaldões que brindam algumas lusas peles que de celtas guardam mais marca epidérmica. Porque não sou dada a escaldões, apesar do claro tom poder induzir em erro. Se vermelha fico, tal camarão cozido, dura um, dois dias. Depois fico castanha. Como me convém, fica bem e dá ar saudável. Sou então, em tempo de estio, linda morena, muito obrigada. Estou-me a cagar para o tom de pele. Gosto de paletas variadas em sentidos diversos, e, apesar da miopia, a íris cansada mas dotada de alguma inteligência agradece a diversidade. Porque nela cresci e me fiz. E nela criarei filhos, se os vier a ter.
Ora descubro há dias atrás, praticamente em cima da hora, que de nada me serviria ir até ao consulado mais próximo exercer um DIREITO e DEVER.
Os cidadãos com nacionalidade portuguesa que se encontrem, por qualquer motivo que seja, ou pelo período de tempo que for, fora da nossa faixa estendida junto do Atlântico, não puderam votar no referendo sobre o aborto. Disseram os senhores de toga, apoiados por partidos políticos, que não fazia sentido esses mesmo portugueses(?) se manifestarem sobre um assunto que não lhes dizia directamente respeito, não os afectaria, visto não usufruirem do sistema nacional de saúde.
Mas para eleger governo, deputados para assentarem cús, digo, arraiais no Parlamento Europeu e afins, para isso estamos cá, a bem dizer. Nem sequer me dou ao trabalho de perguntar por que porra não posso votar. Eu, que nem sequer anulei, e disso faço questão, a minha inscrição como eleitora no círculo geográfico que continuo a considerar casa, no litoral alentejano. Fá-lo-ia este Domingo, para poder obedecer à minha consciência e votar.