Da retórica barata
Não sei bem em que se tornou este espaço. Até que ponto necessitamos da nossa própria aprovação?
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1:23 PM
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No meu deserto não vejo abrigo
sem ter um amor neste mundo.*
É para mim dos mais belos desvios populares, o que criou a palavra vagamundo.
*O asterisco não marca erro, apenas um excerto de uma letra de Amália Rodrigues.
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10:14 AM
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Um conhecido chama-a Isabel, a Lêndea. Nunca a leu, colocando-a na prateleira dos bestsellers a evitar.
Deliciei-me com os seus livros durante anos. Algo mudou, porém. Depois do autobiográfico Paula, ou talvez mais precisamente após Afrodite, uma nova autora surge, e é com tristeza e algum espanto que me deparo com as imagens menos conseguidas, as repetições, o empobrecimento do estilo. Talvez não pudesse ser de outra forma, após a travessia da dor.
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10:48 PM
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O livrinho ficou pousado na mesinha-de-cabeceira por mais de um ano. Tendo a fugir de existencialistas. Aceitei a perturbação neste Natal, a mesma que me costumam causar autores russos, e gostei, muito embora prometendo como de costume visitas muito espaçadas, evitando mini-depressões, protegida momentaneamente pelos tons quentes do quarto que deixei, rodeada de barcos pelas paredes e móveis, com o barulho das ondas no ouvido. Os livros lidos nesse quarto têm outro sabor.
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10:34 PM
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Giuseppe Arcimboldo, L'inverno
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Creio ter Agosto em casa, aguardando ser lido. A Grande Arte foi devorada num instante. A voracidade na leitura assusta quando não se tem a estante mor ao alcance da mão, quando se vão trazendo os volumes que a bagagem precária permite.
Deste senhor costuma-se dizer que inaugurou a literatura brutalista, não sei se pelo facto de os seus criminosos serem particularmente amorais, se pelo facto de a vida assustar tanto aos que nomeiam estilos de escrita ou de qualquer outra forma de arte.
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11:20 PM
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Ai, o vício de narrar destrambelhadamente, misturando tempos a bel-prazer...
Nas alturas, remoída pelo vento que abanava o aparelho (por que será que fico sempre sentada junto das asas?), acompanhava-me este senhor numa outra viagem, esta pelos meandros da massinha que nos permite todas as viagens. Em Memória de Nova Iorque e Outros Ensaios aguçou-me o olhar para o senhor que se segue, num deleite de sentidos que me fez esquecer o sangue pulsando furioso nas veias cansadas.
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12:34 PM
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calma...
está quase...
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Moribundo está este blog. Mas regressa. Não no terceiro dia, que a idade já lhe pede mais tempo para recuperar após festividades grossas.
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não há nada mais triste que uma pessoa que pensa que sabe tudo
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8:32 PM
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Será o hábito de cultivar plantas em casa uma reminiscência dos tempos em que o homem vivia sem um abrigo construído por suas mãos? Muitos recheiam os seus habitáculos de betão de tons verdes, pinceladas de vida respirando entre as coisas ditas sem vida.
Algumas mais manhosas conspiram. Uma favorita é a avenca, adoro-as, mas provavelmente por questão hereditária, não duram. A minha mãe é uma maga da botânica, adora plantas, elas retribuem-lhe, mas as avencas sempre lhe morreram.
Há pouco mais de um mês ofereceram-me uma orquídea, essa flor donde, em tempos remotos, a fêmea da espécie humana parece ter ter tirado o seu modelo de genitália. Enquanto a mirava num misto de admiração e lamentos antecipados, a pobre devia sorver do ar o receio da vítima caída nos braços do algoz. As flores já foram, descansem em paz.
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3:15 PM
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O poster na parede era exactamente este. A aragem fria insinuando-se pela saia acima fazia sempre sorrir, num toque sádico matinal. Um dia antes de regressar, ao abrir as portadas de manhã, a montanha tinha o aspecto de ter sido pulverizada pelas cinzas de um espirro de vulcão. Momentos mais tarde o sol lá se dignou a espreitar e devolveu o pouco verde às encostas, derretendo a escassa neve fantasiada de cinza.
Nessa tarde, na roda viva do consumismo andorrano, entre baforadas saídas das bocas, volumes de tabaco empilhados e alardes luminosos dos fabulosos preus despidos de imposto, tive a visita da minha personagem querida, a quem não fiz justiça na escrita. O seu nome surgiu-me em letras luminosas, anunciando não sei que produtos numa loja. Não fui verificar, não importava. era ela, insunuando-se e lembrando-me de que merece mais. Aproveitei o momento em que o polícia sinaleiro se girava para o outro lado, ordenando que o trânsito fluísse, e pisquei-lhe o olho, prometendo-lhe escrever melhor a estória que me murmurou em sonhos.
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