Monday, March 14, 2005

Morena de Neve

Brindaram-nos com a variedade neste planeta, e os flocos brancos também estão incluídos, ainda em que em locais onde só o conforto artificial permite a vida ao homem. E o atingir alturas quase tão elevadas como os nossos sonhos, que não necessitam de telecabines transportadoras. Mas esta aqui nasceu numa baía ensolarada, de calor húmido e pegajoso.

De beleza pura

Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Alexandre O'Neill

Thursday, February 24, 2005

...

Vêm ter consigo sem horas marcadas, não pedem licença para entrar e instalam-se por entre os canais turvos como os de Veneza. Pedem satisfações, não há direito, estamos cá, existimos, temos vida própria, tens obrigação da a registar, assim, em folhas soltas ou em encadernações cuidadas, o que não podes é deixar-nos penduradas in continuum.
A CGD tem uma foto ternurenta com os pés de uma garota, sobre uma caixa enfeitada de asqueroso consumismo natalício e a Dunhill promove acessórios de luxo para homem que poucos podem comprar, e tu refugias-te em fait-divers, tudo para nos deixares cá, asfixiando dentro da tua caixinha mental redutora e cansada.

Bandoleira

Pessoas que fazem compras ou fingem que as fazem, populando centros comerciais depressivos, a dona que compra alho francês ou endívias na mercearia do lugarejo, o rapaz que corre de olhos abertos para o eléctrico, um dono de restaurante siciliano, cantarolando incansável e louco num país de gente de nariz arrebitado, que secretamente, mas pouco subtilmente, inveja outras latinidades sorridentes e morenas, o triste candidato a gigolo que me baba as mãos num bar supostamente fino mas decrépito, com árabes que fogem da abstinência de Meca. A todos retiro algo sem pedir licença. E fica aqui tudo, comigo, alimentando as vidas que se criam independentes, que povoam esta massa confusa de dendrites e sinapses. Alguns dão-se bem, trocam piropos, impressões e apalpões. Outros vão cultivando odiozinhos de estimação, vários querendo ser vilões, que isso de ser herói da história é uma chatice. Esperam ser deitados e deleitados em linhas desalinhadas.

Tuesday, January 25, 2005

Perdão

Senti como uma bofetada o enviar-te para onde menos desejarias ir, sem outras hipóteses de te ajudar ou de te manter junto de mim. Vi-te partir para junto de quem tanto contribuiu para essa derrocada implacável que te arrancou do solo. Espero que me perdoes um dia.

Num instante

Em que momento caiu esse véu sobre ti, em que momento puseste o primeiro pé, sem timidez de quem avança em terreno incerto, num umbral escuro, labiríntico, em que se misturam os tempos e se perdem fios condutores de enzimas, circuitos mentais cintilantes que não são medidos com tomografias. Avançaste e revoltei-me, gritei, agarrei-te com força violenta que não costumas ver em mim, tentei puxar-te, na ignorância súbita causada por um amor profundo que nos acompanha desde que voltaste ao corpo, nesta vida. Não te pude reter, e seguiste numa barca pelos meandros mais escuros, vendo o que eu adivinhava mas não me atrevia a nomear, por ter imaginado e esperado que coisas assim podiam acontecer aos outros mas não a ti. Não a ti.

Thursday, January 20, 2005

Soon to come... errr

...e viva a improdutividade.
Vai custar. Mas mais logo tenho que te escrever. Me escrever. Mais logo.

Friday, December 17, 2004

olha

Olha,
sei que me tenho desleixado, não te levo para fora, não digo que reparo na forma como a madeixa de cabelo te tapa a cara, não a afasto e não sentes as minhas mãos emoldurarem-te o rosto assim, numa fotografia que ficaria para sempre comigo, que não podes rasgar, que não podes levar contigo agora, que o turquesa te fica bem, que gostava de vez em quando de te deixar bilhetes quando saio e nunca o fiz, não te falo em cadência que condiga com que aqui vai quando te vejo descer as escadas e guardo comigo esse som de madeira sobre madeira que só tu podes produzir, assim esse timbre exacto, que não te pergunto porque não falas, olha, já pendurei as prateleiras na cozinha, e sei que estás cansada, exausta dos silêncios sem cumplicidades, tirei a roupa da corda, esses estendais que enfeiam a nossa rua e a nossa varanda, onde não cheguei a fazer os furos para as floreiras, que podiam ter sardinheiras vermelhas, assim a dar um ar feliz, sabes dizer porque motivo as floreiras dão um ar feliz às casas? Há pouco aqueci os restos de ontem para o jantar. Estão dois pratos, parelhas de talheres, copos de pé alto, como tu gostas, os guardanapos com girassóis. És capaz então de me dizer. Porque porra não chegas.

Friday, November 19, 2004

Empréstimo de Clarice e Chico, na voz de sempre

Eu sei de muita coisa que não vi
E vocês também, eu sei
Não se pode dar uma prova de existência
daquilo que é mais verdadeiro
O único jeito é acreditar
E acreditar chorando
Esse show acontece
em estado de emergência e de calamidade pública
Trata-se de um show inacabado
porque lhe falta resposta
resposta que espero que alguém no mundo me dê
É um show em technicolor
para ter algum luxo, por Deus
que eu também preciso
Ámen
Para todos nós.

O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho

O que será que será
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido

O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo.

(Clarice Lispector/ Chico Buarque, À Flor da Terra)

Wednesday, October 27, 2004

Cala-os

Reparou ontem ao final da tarde. Há discos do Milton que tocam sem parar, canções que falam da sua terra vermelha que seca em minutos após enxurrada, dos seus orixás, de peles aquecidas por um sol que não se digna a aparecer neste lado do mundo.
Bem pode agora encher paredes de máscaras e panos, usar o colar zulu, pensar que ainda terá dupla nacionalidade, depois de tantos anos em busca de si, do que era, da sua terra, de ver o fim de uma lista publicada com seu sobrenome, elaboradinha por gente séria, que lhe veda a entrada no pseudo-país. Assim se disfarça uma ditadura, inclui-se a palavra Social, e por que não Democrata, senhores, no partido que vive na cidade grande. Os meninos catam contentores de lixo dos restaurantes onde ufanados cavalheiros comem santolas gigantes, enquanto as esposas da escol vão pentear-se à Isabel Queiroz do Valle, assim mesmo com dois éles, não numa sucursal aberta no terceiro mundo, mas em Lisboa, pois claro.
Olha, vês este passo, este passo exacto da canção, vê só como foi toda escrita para ti - cala a boca desse mundo.

Thursday, September 16, 2004

Phantoms coming through...

and staying, invited or not, ever staying shadows, smells, narrow corridors of cold mist. Always found the expression "got some thinking to do" interesting. Someone deciding to do what has never been interrupted. Language brings a whole new strenght to it. Spoken forms of thought, feeling.
So they come around again and again. No, not trying to find some twisted logic here. There is no twisted logic in the universe. Our research is everlasting. Even reaching the aimed painful perfection, the being still hurts, this time for others, who remain striving, crawling, crying. What would you feel if you gave someone sweet paradise and then it would become mistreated and destroyed?
A teacher of gone times didn't like Lobo Antunes, claiming the lack of punctuation. I suppose she may feel the same about Saramago.
Punctuation, an interesting subject on the verge of an unexpected match.

We'll all sit in front of the TV screen as if everything was all right.


Ao Jorge

menino que trazes em ti
caminhada de milénios
inspiras o ar que te rodeia
de forma a não perder uma só molécula
juntas sílabas
e afagas cabelos sedosos
de adjectivos
e beijas nomes
com calor sempre inaudito

Monday, August 30, 2004

all day long oracle

Paul Auster's Oracle Night strikes you with a net of stories within stories. Where do the ties touch, mingle so profoundly...
All writers' universe, to the tiniest details. A rescued character from one of the within stories can't live his destiny as a future watcher, seeing yet to come deceiving from a loved one. Future sometimes kills you, just the sight of it, the anticipation of its odour and touch, of how we could manage a situation that we have to believe we control.

Always hated the traditionally viewed such as male/female speech. Horrendous thing.
Taking a second look, though, I found myself prejudiced when it comes to women, usually disliking their company, boring myself to death in dinner parties where men gently put me in my gender place, making conversation (errrr...) with my alike species. Well, we reached the point now...One could say, you certainly know women who don't fit in those stereotypes. Sure I do. Few. So I am basically a female machista chauvinist, a pig (being the latter an appropriate definition). So we're there again. Concern about weight, as well as a google search in the meantime, being the key words "eye makeup"...
I sure have to recognize biological differences, in terms of instinct, but as far as I'm concerned, these differences aren't linked in a definite way to the gender, but to the person as an individual.
What leads a little boy in the inside to play such a sad part, to impose himself, to try to make him look a big shot in front of his friends... lying, lying to himself, to people he...seems to care about. He was asked about who was the one he loved. Well, none, for that matter, especially and most certainly, not himself.

Thursday, June 17, 2004

Ciganeando e outras leituras de mãos rugosas

Me and Mr Jones we got a thing going on. E assim se adulteram letras e também muitas leituras, de quem busca tantas respostas. Ora não é suposto todas as respostas essenciais estarem já dentro de nós?
Aparentemente há muito mais analfabetos do que se cria.