Monday, October 10, 2005

life samples


Penn.Sample
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Madame L. passa os dias esperando que passem perto da sua cancela, de nariz convenientemente espetado por detrás da cortina de renda fingida. Os gatos são uma excelente desculpa para sair, chama-os dias inteiros, assobiando como um rapazinho. Eles fazem ouvidos de mercador, cumprindo o papel de gatos, naturalmente. É terreno fértil em aventuras para felinos, o que rodeia a mulher que os acolheu.

A minha filha, sabe, sabe pois, já a viu, teve cancro e trazia bebés ao mundo, volta agora ao trabalho, que está melhorizinha, ela queria que eu tivesse um cão, assim sempre caminhava alguma coisita, mas eu...eu sou mais de gatos, compreende?

Compreendo.

Viu a minha neta? Essa sim, oh la la, trabalhou como hospedeira na Air France.

Tudo sabe da residência Madame L, só que está com os seus gatos, assobiando e chamando os mais distraídos que preferem caçar lagartixas e besouros a apanhar sol no jardinzinho.

A partir das sete da tarde, não se pode fazer barulho. Madame L. vê televisão, preenche a casa com a presença imaginária que lhe chega através da pequena tela, com o volume a um nível que justifica a fuga dos gatos. Fica assim, até de madrugada subir com dificuldade os degraus que levam ao seu pequeno quarto, parando de quando em quando, cerrando os olhos num esgar de dor, friccionando os joelhos inchados.

Veio de Lile, longe que estava dos olhos filiais preocupados, para um sul que acha mais frio que as suas paragens de origem, falta-lhe o calor humano que dizia ter na sua terra. De quando em vez escapa à vida reformada para ir comprar bugigangas a Espanha com os vizinhos que vieram de Paris gozar os últimos anos junto do mar, atentos ao mínimo burburinho no condomínio, controlando antenas, carros mal estacionados, dedicando-se à jardinagem, apesar de imaginar que não seguem os conselhos dos Monty Phyton, deve-lhes faltar a masturbação e estrangulamento de animais de estimação, que não têm, estragar-lhes-iam o jardim imaculado.


Thursday, October 06, 2005

Lobito


lobito_2004_1
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(imagem: www.cpires.com)

falésias e bocas de mar


falésia
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Há três lugares em mim cravados, como aquelas raízes de árvores que parecem atingir o núcleo terrestre, que de tão fundas devem trazer consigo o fogo do magma que reside tão abaixo dos nossos pés. Curiosamente ou não, os três são baías. Luanda recebeu-me neste acordar para esta vida, meio por acaso da mãe barriguda por lá estar estudando. De lá vou saltando directamente para a baía que escolhi, e Sines deve funcionar como um filho adoptivo, filho do coração como dizia a outra. A terceira perde-se na bruma do meio. Nunca lá estive, pelo menos que recorde, mas desde miúda queria viver ali, rir ali, fazer uma casa ali, nadar ali, evitando as ondas quando cheirasse a melancia, para não ofender o familiar que me avisa que tal odor é presença certinha de tubarão. E eu cumpriria. E acreditaria.

Tuesday, October 04, 2005

constatação inútil

Certas coisas são-lhe tão vergonhosas e duras que não se atreve a escrevê-las em português.

Seis Janelas - Soraia Galhardo


Tenho à minha frente as seis janelas que me pintaste. Não estão penduradas. Posso pegar nelas e levá-las para onde for, debaixo do braço. A imagem não lhes faz justiça, é redutora, tal como o são as palavras que agora escrevo com luz de uma vela e a luminosidade de um écrã de televisão, companhia para alguém que clama dar-se bem com o estar fisicamente só.

Fecho os olhos e tenho uma idade qualquer, convinha ser criança e embarcada numa fantasia de fuga de casa, mas desconfio que pouco funcionaria tal ideia, era acusada de fugir com frequência, mas não se passava nada disso, os grandes ignoravam que simplesmente não me ocorria avisar alguém do que faria nos próximos tempos. E saía, assim, distraidamente porta fora. Fecho os olhos e tenho novamente essa idade qualquer perdida numa linha imaginária a que convencionámos chamar de tempo. Debaixo dum braço poderia levar a tela, no outro talvez o tradicional urso, que para mim sempre foi o Beto, hoje cego, sem nariz, de braços remendados e a pelúcia ruça das lavagens. Não pesam nada, o resto que vai cá dentro sim.

Thursday, September 29, 2005


les amants by Raymonde Jodoin
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o silêncio dos amantes abraçados contra a morte

(les amants, Raymonde Jodoin)

O O'Neil é que sabe


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Wednesday, September 28, 2005

vertigem

As personagens que me acompanharam durante poucos meses partiram encaixotadas, sem esperança de existirem para além das páginas. Deixaram-me numa vertigem leve, ainda caminhando num fio de arame, não muito fino, vou ensaiando por ele passos desprovida de sapatos salpicados com pó-de-talco. Lá em baixo há uma rede. Não torna a queda menor, porém.

Algumas ficaram comigo, fazendo-me cócegas quando estou distraída, outras queixando-se do excessivo ou escasso destaque que lhes foi dado. Foi bom ter espreitado para o lado de lá, de forma mais longa do que sempre fiz desde que aprendi o abecê. Obrigada por me terem dado um vislumbre das vossas vidas.

Tuesday, September 27, 2005

Colírio...

para o olhar, na nova secção, ali ao lado, Miradouro.

Friday, September 23, 2005

hipérbatos forçados


human heart
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tempo preciso de

de preciso tempo

preciso tempo de

Aigues Mortes


Aigues-Mortes
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Uma das muitas localidades atravessadas por canais navegáveis. O departamento de turismo da Camargue podia pagar-me alguma coisa pela publicidade que tenho feito, mas são capazes de suspeitar que é tudo um subterfúgio.

Wednesday, September 21, 2005

febre


Monday, September 19, 2005

La Grande Motte au coucher du soleil

Ei-la, a versão Kitsch de Vilamoura (1. ai isso é que é, se acham Vilamoura kitsch devem rever o conceito; 2. aos fãs de Vilamoura não vale a pena pedir desculpa). Aparentemente um grupo de arquitectos juntou-se algures na década de setenta, apanharam uma grande piela e hoje passeamo-nos pelas suas construções de formas impossíveis. No Inverno fica silenciosa e com as persianas baixas.

mas não chega ainda?

Não... embrenhada que estou numa montanha de papéis.

Pena que por trás deste pôr-do-sol (poderei tornar-me mais vulgar que isto? sim, poderei) esteja um outro emaranhado, que pelos vistos orgulha muito boa gente, de prédios mirabolantes, um deles ostentando o nome do Vasquito, esse mesmo, o Gama. A outra face de La Grande Motte, fronteira de acesso aos arrozais de La Petite Camargue, no post acima...
(Vicent Formica)

Saturday, September 17, 2005

água, água e mais água


(Vicent Formica)

Redoute de Ballestras


redoute de ballestras
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Erguido em meados do século XVIII, para proteger a área dos crescentes ataques de piratas, alberga hoje em dia o Museu Humorístico Albert Dubout.

p.s. as coisas que se vão buscar quando o tempo nos escorre entre os dedos...

Friday, September 16, 2005

Em Palavas Les Flots...


Palavas2
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fica este pequeno forte, literalmente numa ilhota boiando num lago, no post acima vêmo-lo à luz do dia.

Thursday, September 15, 2005

Pedra e Luz


visitemagueloneetage01
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Um dos locais mais belos da zona, para mim, Maguelone.

Aqui, subindo escadas da catedral do século XI. Despojada, por isso ainda mais bela, localizada num emaranhado de lagoas e charnecas cujos trilhos não domino.

Wednesday, September 14, 2005

ao longo de um claro rio de água doce


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E parecia aquele Tejo
este rio doirado
parecia até que tu vinhas
comigo a meu lado
ou seria das flores
e das matas cheirosas
das madressilvas dos frutos
das ervas babosas

E pareciam campinas
vales tão estendidos
pareciam mesmo os teus braços
que me abraçam cingidos
ou seria das silvas
do gengibre e benjoim
do cheiro daquela chuva
dos cacimbos enfim

porque haveria de ter
saudades tuas
ao longo de um claro rio
de água doce

E parecia verão
no imenso arvoredo
parecia até que dizias
qualquer coisa em segredo
ou seria dos dias
muito quedos sem fim
das noites muito melhor
assombradas assim

porque haveria de ter
saudades tuas
ao longo de um claro rio
de água doce

Antes da canção

Se nem na vida consigo pôr ordem nos acontecimentos, não haverá certamente motivo para aqui ir colocando com lógica cronológica Fausto e retalhos da história do país que abracei como também meu, porque precisamos por vezes dessa noção de pertença.
Trocando as voltas à Peregrinação e à Trágico-Marítima, começo pelo fim, por ser o único início possível, subindo o rio vou-me embrenhando nas matas até chegar ao planalto que primeiro aqueceu os meus pais, e também o músico já lá deve andar. Contar-nos-á certamente no próximo disco, se o próximo for o último da prometida trilogia, vem um em cada dez anos. É um gajo esperançado, o Fausto. Pelo menos acredita que viverá até lá.

"E tomou-se a boca do rio de S.Lourenço, achando por novas que numa povoação acima estavam alguns portugueses no resgate do marfim. E foi-se por ele, muito quietamente, entre margens povoadas de altas e espessas árvores que levam entretecidas os braços em formosa folhagem. E as matas de diversas cores cheiravam a tigres, onças, leões elefantes e gatos de algália. As flores em cachos amarelos fazem um suave rugido que aos três sentidos enche e farta. Cheirava a oregãos, fetos, agriões, poejos, malvas, alecrim... alecrim..."

p.s. A do gato de algália é excelente, convenhamos. Esperemos que hoje em dia o bicharoco seja conhecido por gato almiscareiro.