Wednesday, September 14, 2005

ao longo de um claro rio de água doce


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E parecia aquele Tejo
este rio doirado
parecia até que tu vinhas
comigo a meu lado
ou seria das flores
e das matas cheirosas
das madressilvas dos frutos
das ervas babosas

E pareciam campinas
vales tão estendidos
pareciam mesmo os teus braços
que me abraçam cingidos
ou seria das silvas
do gengibre e benjoim
do cheiro daquela chuva
dos cacimbos enfim

porque haveria de ter
saudades tuas
ao longo de um claro rio
de água doce

E parecia verão
no imenso arvoredo
parecia até que dizias
qualquer coisa em segredo
ou seria dos dias
muito quedos sem fim
das noites muito melhor
assombradas assim

porque haveria de ter
saudades tuas
ao longo de um claro rio
de água doce

Antes da canção

Se nem na vida consigo pôr ordem nos acontecimentos, não haverá certamente motivo para aqui ir colocando com lógica cronológica Fausto e retalhos da história do país que abracei como também meu, porque precisamos por vezes dessa noção de pertença.
Trocando as voltas à Peregrinação e à Trágico-Marítima, começo pelo fim, por ser o único início possível, subindo o rio vou-me embrenhando nas matas até chegar ao planalto que primeiro aqueceu os meus pais, e também o músico já lá deve andar. Contar-nos-á certamente no próximo disco, se o próximo for o último da prometida trilogia, vem um em cada dez anos. É um gajo esperançado, o Fausto. Pelo menos acredita que viverá até lá.

"E tomou-se a boca do rio de S.Lourenço, achando por novas que numa povoação acima estavam alguns portugueses no resgate do marfim. E foi-se por ele, muito quietamente, entre margens povoadas de altas e espessas árvores que levam entretecidas os braços em formosa folhagem. E as matas de diversas cores cheiravam a tigres, onças, leões elefantes e gatos de algália. As flores em cachos amarelos fazem um suave rugido que aos três sentidos enche e farta. Cheirava a oregãos, fetos, agriões, poejos, malvas, alecrim... alecrim..."

p.s. A do gato de algália é excelente, convenhamos. Esperemos que hoje em dia o bicharoco seja conhecido por gato almiscareiro.

Tuesday, September 13, 2005

Flamingos na Petite Camargue


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Originally uploaded by Kanuthya.

Povoam profusamente estas lagoas, estes belíssimos animais equilibristas. Não migram, como os seus primos de outras paragens, nem mesmo quando o frio vem bem forte.

E se ele vem forte... há pouco de temperado nesta região, o frio é gélido, o calor abrasante e os Verões mais parecem a época das monções africanas.

Não nos deixemos enganar pelo porte altivo dos bicharocos. São mais simpáticos e acessíveis que os vizinhos humanos da zona.

Monday, September 12, 2005

Odores

A palavra soa a coisa boa, mas não é o caso.

Neste momento, com tanta água caindo, as imensas lagoas que rodeiam o local onde me encontro lembram Veneza e Aveiro. E não, não sinto qualquer culpa na comparação. Entre Aveiro e Veneza, entenda-se...

São belíssimos os locais próximos, virão aí fotografias que os antecipam, mas convém passear de lenço tapando cavidades nasais.

E daí concluo que os flamingos não devem ter grande faro.

Friday, September 09, 2005

H2O


...não faltou por cá, e na companhia dos retratados na foto afastaram-me deste canto. Fiquei por aqui entre folhas soltas e a lembrança de Marguerite Gautier e Armand Duval, que se recolheram novamente para dentro das folhas impressas.
A água é tanta que segui pela mão de uma autora que me surpreendeu, como sempre acontece com preconceitos que se instalam vindos sabe-se lá donde. Povoam agora noites à espera do sono os últimos dias da aldeia Rio de Anjo, no Prenúncio das Águas, da Rosa Lobato de Faria.

Monday, September 05, 2005

Pó de estrelas


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And I dreamed I saw the bombers
Riding shotgun in the sky
And they were turning into butterflies
Above our nation

Para o título deste post podia ter roubado novamente ao Caetano - Beleza Pura.
Outras letras me chamam hoje com urgência, saio de fininho, deixando-vos a Joni Mitchell e esta coisa linda.

Friday, September 02, 2005


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Cá em casa até se benzeram quando ouviram isto, mas não há nada a fazer. Continuo a adorar Faith No More, até quando brincam com covers. Fica a faltar o tema do Midnight Cowboy tocado a harmónica.

Thursday, September 01, 2005


dama
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A desordem mental reflecte-se nos volumes sobre a mesinha de cabeceira. Maravilhada pela linguagem de Remarque, do que menos precisava agora era da guerra crua. Assim, pousei o velho livro de bolso do meu pai e traio-o actualmente com A Dama das Camélias, que comprei n'A das Artes, numa tarde de vergonha pela fuga de anos aos clássicos franceses. Fugirei da crueza dos campos de batalha de Remarque para outra miséria, esta fantasiada de fausto do Dumas Filho?

Wednesday, August 31, 2005

let them begin the beguine


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Pearl


pearlbuck
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Deixei ontem as palavras de Ms. Buck, a sua China, Wang Lung, a terra. Mergulhei em Remarque e num livro que viria a ser queimado em praça pública. As chamas devem continuar a perseguir este livro de bolso, as letras avançam tímidas, com pouca tinta na impressão, como que tentando passar discretamente. Mas algo me diz que vão ficar gravadas.

Tuesday, August 30, 2005

voarei daqui


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Seria Natal? Talvez. Tenho febre e sou alçada da cama com esforço,

-são horas, pinguim de água doce.

Não sei como me levam para aquele teatro, desconheço a peça, enredo ou a personagem que desempenho. Alguns diziam aos filhos que eramos os retornados, que vínhamos piorar a situação de crise, tirar empregos aos de cá, que se tinha acabado a nossa vida boa. Eu não sabia o que aqui fazia e não retornara de sítio algum, só queria deitar-me e que a mãe me envolvesse na manta e me pusesse panos frios na testa. Ao meu redor correm todos apressados, enfiam-me em collants infantis coloridas e pregam-me asas de borboleta. Picam-me com os alfinetes que prendem os apêndices e é pena que me doa, senão levantava voo dali para uma cidade quente e levava-a comigo,

-está quieta miúda, deixa pregar as asas,

Não sei onde entro na peça, vejo-me em palco maquinalmente, corrompendo aquele espaço sagrado que deve libertar, mas o corpo está quente e até asas de borboleta pesam. Ela está sentada à frente, nos primeiros fatos que protegem do frio, desconhecidos da sua pele branquíssima habituada à distância entre o morno da planície em que nasceu e ao escaldante da baía em que me pariu. Devo vê-la sorrir ao ver-me assim, o cabelo num coque como uma pequeníssima bailarina, e as asas esvoaçantes. Sorria por não saber que as asas me picavam.

Nas fotos que nos entregam está no seu fato invernoso, pensando na sua morna terra, talvez adivinhando que eu preferiria colocar à volta da cintura as franjas que usava quando era ainda mais pequena, e ensaiar um merengue. Mesmo que estivesse a arder em febre.


Sunday, August 28, 2005

-ismos para cá, -ismos para lá


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Quando se aproximava a data de eleições, quaisquer que estas fossem, a avó fazia a sua costumeira visita à prima, imagem matriarcal na família, apesar de não ter sido mãe, mas suspeito que com afilhados pelos cinco continentes. Aquela senhora enorme, instalada num cadeirão respeitável, recebia ao longo do dia, tal Godfather, um séquito de gentes que lhe buscavam os conselhos, bençãos, ou amena cavaqueira acompanhada de merendas copiosas trazidas pela criada de tempos antigos, daquela que vive uma vida inteira na mesma casa, servindo as diferentes gerações da família. Hoje em dia a palavra é pouco agradável, mas era adequada, se bem que ali a senhora governa. estou certa que teria achado muito bem ser vista como governanta da casa.

Todas as tardes de escutava o terço pela rádio naquele lar tradicionalista. Até que vinha a avó, com o seu elogio ao comunismo, garantindo que o seu voto iria para os seus camaradas. Creio terem sido as únicas vezes em que assisti ao rosto daquela prima-avó encher-se num vermelhão nervoso, tal a urticária que a terminologia lhe causava, e ao pavor de ter na família uma vergonha daquelas. As facções políticas tinham um peso muito diferente então. Tão diferente que recordo, noutra parte da tribo, um amigo de família que se munia da caçadeira cada vez que Cunhal aparecia no écran a preto e branco. Assim foram dois aparelhos de televisão para a sucata, até a esposa se ter convencido que era melhor não voltar a investir na tecnologia, naqueles tempos conturbados de suposta instalação da democracia.

Friday, August 26, 2005

O livro mira-me da prateleira. Eu deixo-o lá ficar, por agora. Mas escuto-o.

E isto porque o som de um comentário do Discovery Civilization me fazia companhia ao tentar "trabalhar". Até ter chegado o nome do próximo programa aos tímpanos- Grandes Livros. Debruçam-se hoje, pelos vistos, no Coração das Trevas, que li no original, felizmente, há vários anos, e que me marcou de tal forma que me vou recusando a lá voltar.
O Conrad, esse nato polaco que só viria a aprender a língua na qual escreveu com mestria depois dos vinte anos de idade, e após ter balançado o corpo em navegações longas por mares revoltos, voltou-se para o mais tormentoso dos oceanos, que nos banha interiormente. O Coppola imaginou, suou e sangrou o seu magnífico Apocalypse Now a partir da viagem interior deste livro. No processo quis matar-se, quase acabou o casamento, o seu actor principal ia morrendo com um ataque cardíaco, foi à falência, arranjou problemas com governos de terras distantes, o da terra em que filmava, debatendo-se com a sua própria guerrilha, e o outro, que não achou grande piada ao recontar da pura loucura da guerra. E deu-nos um Kurtz que fica sempre connosco.

constato que preferia estar a ler isto.


the good earth
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Lendo isto...


terrabendita
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Wednesday, August 24, 2005

Apenas assim sei que vivo


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Apenas
amor,
não me dês tanto não
uma vez ou outra
prende-me nos teus braços
e envolve-me na carícia morena e loira
do teu desejo

uma vez ou outra
esquecerei tudo
até as manhãs
em que nos vêm buscar
e não sabemos se voltamos
e se somos homens ou coisas
e se conhecemos o sentido natural do riso
e se é verdade ou mentira
os filhos a chamar
e a casa e a mulher
de olhos espantados de medo
nem um assomo de remorso despertando

amor
não me dês tanto não
só uma vez ou outra
prende-me nos teus braços em cruz
e envolve-me na carícia morena e loira
do teu amor
e na certeza de paz
do teu carinho.
uma vez ou outra
só uma vez
só uma vez ou outra
prende-me nos teus braços,
amor.

José Craveirinha

Tuesday, August 23, 2005

Do tal poeta dado a artes gastronómicas, com o perdão pela alteração do desenho estrófico


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No mar tormentoso do Chile vive o rosado congro, enguia gigante de nevada carne. E nas panelas chilenas, na costa, nasceu o caldillo grávido e suculento, proveitoso. Levam para a cozinha o congro esfolado, a sua manchada pele cede como uma luva e a descoberto fica então a uva do mar, o congro tenro reluz já nu, preparado para o nosso apetite. Agora pegas em alhos, acaricia primeiro esse marfim precioso, cheira a sua fragância iracunda, então deixa o alho picado cair com a cebola e o tomate, até que a cebola tenha cor de ouro. Entretanto cozem-se no vapor os reais camarões marinhos, e quando estiverem a chegar ao seu ponto, quando se consolidar o sabor num molho formado pelo suco do oceano e pela água clara que soltou a luz da cebola, então que entre o congro e mergulhe na glória, que na panela se aceite, se contraia e se impregne. Já só é necessário deixar no manjar cair o creme como uma rosa espessa e ao lume lentamente entregar o tesouro até que no caldillo se aqueçam as essências do Chile, e à mesa cheguem recém-casados os sabores do mar e da terra, para que nesse prato tu conheças o céu.

In Odes Elementares, de Pablo Neruda

Sunday, August 21, 2005

Eco de grito longínquo - para ouvir com tempo


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O Zé avisa, logo no início. As referências são de tempos idos, as personagens hoje em dia têm nomes diferentes. Sem pedidos de desculpa a ouvidos mais sensíveis.

Friday, August 19, 2005

Venha a morabeza


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Eis um dos meus músicos favoritos.
Em absoluto.
Absolutamente genial.

Thursday, August 18, 2005

Correio Aquático

Aguardo o momento de me espraiar, dando forma à palavra que compõe o verbo, ficar assim, na diagonal, revelando apenas o bocal, procurando ser visível para quem me saiba ver, pegar em mim e com cuidados maternais ou curiosidade infantil, sacar uma rolha que tenha sabido conservar-me do sal e do chão de água em que boiei durante todo este tempo.

Com as preocupações tolas próprias de uma mensagem engarrafada, receei que o vidro fizesse o papel de lupa, e que nos ares ardentes dos trópicos que me bafejaram, o papel enrolado desistisse de chegar ao areal e pegasse fogo, abandonando-se à justa lei física.

Cruzei-me com barracudas que me miraram com olhos de apetite, confundindo-me com presa, e receei por elas, não lhes querendo ferir a boca com os meus cacos de vidro; com congros nos mares do Chile, a quem desejei longa vida, se não fossem parar às mãos de algum poeta dado a artes gastronómicas; levei comigo uma estrela do mar, que me abraçou com suas ventosas, largando uma mão de vez em quando para acenar aos cavalos-marinhos que por nós passavam.

Na borrasca de um mar que se atrevem a chamar de Pacífico, veio-me o medo, o medo de que as ondas me levassem contra as pontas do recife, me quebrassem a pele, e ali jazeriam meus restos, os vidros permanecendo e reflectindo as cores surreais, o papel desfazendo-se, as palavras afogando-se nas águas menos mexidas do fundo, olhando para cima de vez em quando e vendo milhares de bolhas, numa revolução de águas zangadas.

Agora que penso nisso, seria honroso jazer numa tamanha profusão de coral, de peixes de cores impossíveis e anémonas brilhantes, aguardando as noites em que a lua incha até quase estourar, grávida de luz que me pareceria prata, ali, no fundo.