Aguardo o momento de me espraiar, dando forma à palavra que compõe o verbo, ficar assim, na diagonal, revelando apenas o bocal, procurando ser visível para quem me saiba ver, pegar em mim e com cuidados maternais ou curiosidade infantil, sacar uma rolha que tenha sabido conservar-me do sal e do chão de água em que boiei durante todo este tempo.
Com as preocupações tolas próprias de uma mensagem engarrafada, receei que o vidro fizesse o papel de lupa, e que nos ares ardentes dos trópicos que me bafejaram, o papel enrolado desistisse de chegar ao areal e pegasse fogo, abandonando-se à justa lei física.
Cruzei-me com barracudas que me miraram com olhos de apetite, confundindo-me com presa, e receei por elas, não lhes querendo ferir a boca com os meus cacos de vidro; com congros nos mares do Chile, a quem desejei longa vida, se não fossem parar às mãos de algum poeta dado a artes gastronómicas; levei comigo uma estrela do mar, que me abraçou com suas ventosas, largando uma mão de vez em quando para acenar aos cavalos-marinhos que por nós passavam.
Na borrasca de um mar que se atrevem a chamar de Pacífico, veio-me o medo, o medo de que as ondas me levassem contra as pontas do recife, me quebrassem a pele, e ali jazeriam meus restos, os vidros permanecendo e reflectindo as cores surreais, o papel desfazendo-se, as palavras afogando-se nas águas menos mexidas do fundo, olhando para cima de vez em quando e vendo milhares de bolhas, numa revolução de águas zangadas.
Agora que penso nisso, seria honroso jazer numa tamanha profusão de coral, de peixes de cores impossíveis e anémonas brilhantes, aguardando as noites em que a lua incha até quase estourar, grávida de luz que me pareceria prata, ali, no fundo.