Friday, August 26, 2005

Lendo isto...


terrabendita
Originally uploaded by Kanuthya.

Wednesday, August 24, 2005

Apenas assim sei que vivo


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Apenas
amor,
não me dês tanto não
uma vez ou outra
prende-me nos teus braços
e envolve-me na carícia morena e loira
do teu desejo

uma vez ou outra
esquecerei tudo
até as manhãs
em que nos vêm buscar
e não sabemos se voltamos
e se somos homens ou coisas
e se conhecemos o sentido natural do riso
e se é verdade ou mentira
os filhos a chamar
e a casa e a mulher
de olhos espantados de medo
nem um assomo de remorso despertando

amor
não me dês tanto não
só uma vez ou outra
prende-me nos teus braços em cruz
e envolve-me na carícia morena e loira
do teu amor
e na certeza de paz
do teu carinho.
uma vez ou outra
só uma vez
só uma vez ou outra
prende-me nos teus braços,
amor.

José Craveirinha

Tuesday, August 23, 2005

Do tal poeta dado a artes gastronómicas, com o perdão pela alteração do desenho estrófico


caldillo_congrio
Originally uploaded by Kanuthya.

No mar tormentoso do Chile vive o rosado congro, enguia gigante de nevada carne. E nas panelas chilenas, na costa, nasceu o caldillo grávido e suculento, proveitoso. Levam para a cozinha o congro esfolado, a sua manchada pele cede como uma luva e a descoberto fica então a uva do mar, o congro tenro reluz já nu, preparado para o nosso apetite. Agora pegas em alhos, acaricia primeiro esse marfim precioso, cheira a sua fragância iracunda, então deixa o alho picado cair com a cebola e o tomate, até que a cebola tenha cor de ouro. Entretanto cozem-se no vapor os reais camarões marinhos, e quando estiverem a chegar ao seu ponto, quando se consolidar o sabor num molho formado pelo suco do oceano e pela água clara que soltou a luz da cebola, então que entre o congro e mergulhe na glória, que na panela se aceite, se contraia e se impregne. Já só é necessário deixar no manjar cair o creme como uma rosa espessa e ao lume lentamente entregar o tesouro até que no caldillo se aqueçam as essências do Chile, e à mesa cheguem recém-casados os sabores do mar e da terra, para que nesse prato tu conheças o céu.

In Odes Elementares, de Pablo Neruda

Sunday, August 21, 2005

Eco de grito longínquo - para ouvir com tempo


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O Zé avisa, logo no início. As referências são de tempos idos, as personagens hoje em dia têm nomes diferentes. Sem pedidos de desculpa a ouvidos mais sensíveis.

Friday, August 19, 2005

Venha a morabeza


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Eis um dos meus músicos favoritos.
Em absoluto.
Absolutamente genial.

Thursday, August 18, 2005

Correio Aquático

Aguardo o momento de me espraiar, dando forma à palavra que compõe o verbo, ficar assim, na diagonal, revelando apenas o bocal, procurando ser visível para quem me saiba ver, pegar em mim e com cuidados maternais ou curiosidade infantil, sacar uma rolha que tenha sabido conservar-me do sal e do chão de água em que boiei durante todo este tempo.

Com as preocupações tolas próprias de uma mensagem engarrafada, receei que o vidro fizesse o papel de lupa, e que nos ares ardentes dos trópicos que me bafejaram, o papel enrolado desistisse de chegar ao areal e pegasse fogo, abandonando-se à justa lei física.

Cruzei-me com barracudas que me miraram com olhos de apetite, confundindo-me com presa, e receei por elas, não lhes querendo ferir a boca com os meus cacos de vidro; com congros nos mares do Chile, a quem desejei longa vida, se não fossem parar às mãos de algum poeta dado a artes gastronómicas; levei comigo uma estrela do mar, que me abraçou com suas ventosas, largando uma mão de vez em quando para acenar aos cavalos-marinhos que por nós passavam.

Na borrasca de um mar que se atrevem a chamar de Pacífico, veio-me o medo, o medo de que as ondas me levassem contra as pontas do recife, me quebrassem a pele, e ali jazeriam meus restos, os vidros permanecendo e reflectindo as cores surreais, o papel desfazendo-se, as palavras afogando-se nas águas menos mexidas do fundo, olhando para cima de vez em quando e vendo milhares de bolhas, numa revolução de águas zangadas.

Agora que penso nisso, seria honroso jazer numa tamanha profusão de coral, de peixes de cores impossíveis e anémonas brilhantes, aguardando as noites em que a lua incha até quase estourar, grávida de luz que me pareceria prata, ali, no fundo.

Wednesday, August 17, 2005

Howdy again, Mr. Joyce


dubliners
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Após interrupções que me levaram a páginas mais quentes, regresso a ruas cinzentas num país verde, verdíssimo. É bom estar de volta.

Tuesday, August 16, 2005

Ela era mais Ella


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Porque as palavras fogem daqui para outras páginas.
Porque sequer escrevo sobre a Ella ou como ela acompanhou o meu crescer.
Porque fujo para cá com pés de lã, na esperança que as outras personagens penduradas durmam ainda, e não se sintam abandonadas.

Saturday, August 13, 2005

De passagem. No fundo tudo isto se deve à raiva surda da improdutividade literária.

- Les choses sont pas comme ça en France!
- Pois, filha, esse é um dos problemas.

Os fiéis leitores, parte deles silenciosos ( e fiéis por serem fiéis amigos :) ) questionam-se àcerca do estado mental que origina tão tolos posts. Não, não, não se preocupem. É defeito de origem mesmo. Esclarecidas las cositas, passemos a assuntos mais sérios.
Já tenho TV Cabo! Nunca fui grande espectadora de televisão, mas estou longe, porra, e, sobretudo, acabo de descobrir que afinal aqui têm mas é inveja de eu poder ver o Sai de Baixo, as entrevistas da Marília Gabriela, de ter colocado uma parabólica impossível de vislumbrar de qualquer ponto da residência, ameaçando iniciar uma revolta que transformaria estas casinhas numa plantação de champignons, que se espalharão rebeldes pelos telhados, por estar prestes a empestar o ar com um belo entrecosto assado (a sorte deles é não haver sardinhas frescas), e ainda por ter em cima da secretária um pacote meu, só meu, de bolachas Maria do Continente (não, não são da Triunfo, mas não sejamos picuinhas, sim?).

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Aside lousy comment - hi there guys

Getting all the fantastic techniques about penis enlargement in hotmail accounts wasn't enough, spam finally gets to blogs. Fortunately, most links left here don't really work.

Friday, August 12, 2005

...


books by Noe Villarreal
Originally uploaded by Kanuthya.
Por vezes luta entre a necessidade física de não se largar o que se lê, mesmo que se anuncie a decepção por o livro estar a terminar, amua porque as personagens partem das suas noites no travesseiro, para voltarem a repousar entre lombadas na estante.

Wednesday, August 10, 2005

Raízes entranhadas


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pés descalços e dendém



Aos Domingos de manhã enfiavam-lhe os sapatos que magoavam, ainda para mais depois de passar pelo adro da igreja, onde minúsculas pedrinhas se enfiavam da forma mais improvável, cravando-se na pele. Assim que o padre findava a homilia, fugia para casa, sapatos na mão, chegando antes dos outros para se refugiar na cozinha, onde se ia lambuzando com as bolinhas de funge, moldadas pelos dedos mais vividos da bá, entregando-se toda ao prazer de as molhar no dendém que encharcava a galinha, desfeita de tanto boiar naquela profusão de aboborinha e quiabos. Não engolia de imediato, concedendo ao palato o prazer da mescla de sabores. Quando a tribo que partilhava a sua cor de pele chegava empoeirada pelos caminhos, sacudindo os chapéus domingueiros, já o estrago estava feito, restava esfregá-la com sabão de côco para tirar essa mancha odorosa e amarela, que se faz nos cachos das palmas.

Monday, August 08, 2005

Ibrahim


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Gracias




Parecia que estava a antever. Sem saber hoje envergava já minha cor branca de luto e ouvia-te há dias seguidos, Oye el consejo... Recusaste cantar durante tempo, magoado de desilusões, voltaste em glória até o coração to ter permitido. Costumavas perfumar a santa na prateleira com representações de orixás, na tua lógica de que, se gostavas de andar perfumado, por que motivo não o apreciaria a santa também? Estou certa de que ela não se esqueceu do desvelo carinhoso e te pegou na mão, conduzindo-te pela rua cálida de sons timbaleros.

Vinícius escreveu, Ney cantou.


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A Rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Vinícius de Moraes

Sunday, August 07, 2005

Metereologia Anunciada

Aproximam-se certamente as tempestades de Verão, semelhantes às africanas no troar que me faz querer esconder debaixo da cama. Como o sentido prático cá acampa de vez em quando, dir-se-ia que a cama encontrada fazia já parte de uma terapia conveniente ao ultrapassar de medos, japonesa e rasteira, fica-se sem fuga. Não esperava topar com raios destes no Mediterrâneo, ou daqueles, melhor dizendo, uma vez que ainda não nos visitaram este Estio, apenas se fizeram ouvir na sua imponência a vários quilómetros de distância, um dia destes, como visitas régias que levam banda à frente para nos irem preparando para a chegada. Os temporais e enxurradas de Verão têm uma característica peculiar por aqui: não diminuem o calor pegajoso, que se cola a nós como uma segunda pele, o ar mantém-se pesado, pesadão, um fardo tremendo.
Venham, pois. Cá vos espero.

Friday, August 05, 2005

pronto, pronto, não insistam mais...


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Thursday, August 04, 2005

Já era tempo

É um título de uma canção da Gal, escrita pelo Ary Barroso e Vinicius de Moraes, e existe um risco real de muita da música que por aqui vier a passar ser feita no Brasil. Faz-me sentir mais perto de uma casa que busco desde que me lembro de ser gente.
Mas nada disto tem a ver com o post, eu é que mudo constantemente de tema. Já era bem tempo de encontrar um dicionário de Língua Portuguesa on line que fosse minimamente decente, aqui - http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx.
Avé.