Thursday, July 14, 2005

Porque estou melosa e chá príncipe é dos meus favoritos, e sim, este título é ainda pior que o post em si

{1} Tamanho total dos arquivos do meu computador
O meu computador...errr conceito interessante: um está num armário com disco arranhado e arreganhado para mim, até eu voltar e lhe dar uma sova, tem muita música, recordo, isto é, muita para mim, uma insignificância para gente com pcs dignos desse nome com memórias de jeito; vou adicionando mp3 a pc alheio que uso, devem ser uns 2 gigas...mas muita coisa foi gravada entretanto.

{2} Último disco que comprei.
Nick Cave & The Bad Seeds, Abbatoir Blues / Lyre of Orpheus.

{3} Canção que estou a escutar agora.
Dizzy Dizzy, dos Can, nos ficheiros recheados do meu mano, que costumam reservar boas surpresas e que frequentemente me fazem referir, como quem não quer a coisa, Ah, o que seria dele se não tivesse tido a minha iniciação musical...

{4} Cinco discos que ouço frequentemente ou que têm algum significado para mim.
Os do Fausto, que já não escuto há algum tempo, mas ainda bem que mo lembram, vou roubá-los já e levá-los comigo, a saber, e sobretudo, Por este Rio Acima, Crónicas da Terra Ardente e O Despertar dos Alquimistas, Mystery White Boy, do Jeff Buckley, Ar, Danças Ocultas. (São tantos...tenho que referir desrespeitando quantidades: Caetano Veloso, vários...)

{5} Lanço o repto a outros bloggers.
Não lanço...Não tenho grande jeito para interrogações. Acho.

Saturday, July 02, 2005

Grani di sabbia


by Alexandre Monteiro
Originally uploaded by Kanuthya.

Ele passeava com o avô num areal banhado por águas mornas, tão distantes e diferentes do oceano em que nasci e me fiz. As grandes superfícies de água têm esta magia, desde que abertas, permitem-nos a suposição de encontros pouco prováveis de duas minúsculas moléculas d'água, por mais longe que se encontrem.

Ele prometera ao avô: Um dia farei um castelo de areia com a minha namorada na praia. E passearei com ela na areia, de mãos dadas.

O senhor sorriu abertamente ao neto predilecto. A tal namorada teve a fortuna de o chegar a conhecer, esse mediterrânico altivo e belíssimo, já afundado na névoa da idade que lhe pesava, e nas saudades da mulher partida tão cedo. E tem pena, apesar de se dizer que o que nos está destinado tem muita força, de não ter chegado a fazer o castelo de grãos de areia moldados pela humidade salgada e por mãos entrelaçadas. Tem pena mas não dói. Por vezes.

Wednesday, June 29, 2005

Ora bem, sei que é a crise e tal, mas a vossa terra é tão linda

Para mim que sou estrangeira sendo nativa também no sentir amor pela terra, este lugar começa agora pelo Côa. Podia ser por Miranda, onde pararia e me banquetaria com uma belíssima posta que se desfaz na boca como manteiga (para os que abominam manteiga, duas coisinhas: 1. imaginem o sabor do que mais gostam acariciando papilas, desfazendo-se na boca - se o vosso sabor preferido é o dos torresmos a coisa complica-se; 2. como é possível não gostarem de manteiga?).
Poderia ser uma entrada mais deliciosamente kitsch por Badajoz carregada de sacos de caramelos, sendo depois brindada com Elvas, na sua beleza de cal que me vai antecipando outros Alentejos. Mas foi pelo Côa, dá jeito depois do percurso com que nos brindamos por um dos locais eleitos no planeta conhecido, o País Basco.
É tão bom ser-se acolhida por braços de gente ou de terra.

P.S. Qualquer incoerência maior do que a habitual deve-se ao sono (prefiro pensar que é ele o responsável...)

Friday, June 24, 2005

Post Scriptum manguito pour vous

Ah, faltou dizer que eles adorariam escutar essa palavra, manguito, que depois geralmente se faz, em vez de se dizer, mas soar-lhes-ia a espanhol, o que fica sempre bem, que aqui se fazem muitas corridas de toiros e se anuncia a letras gordas e exóticas paella, nem sempre bem escrito, mas com boa intenção.

Manguito pour vous

Por esta banda há muito quem fuja da aguinha, digo eu, excepto da de perfume. Em qualquer tasca de Portugal, por mais moscas que esvoacem, por mais sujo que o vidro do expositor de pastéis de bacalhau e rissóis esteja, pega-se nos ditos cujos com uma tenaz, essa fabulosa invenção, e atrevo-me a dizer que não é muito bem visto pegar directamente em comida e dinheiro, de seguida, ou em simultâneo, que Deus Nosso Senhor nos brindou, na maior parte dos casos, com duas mãos. Aqui uma prestimosa senhora na padaria não perde tempo munindo-se de luva de plástico, já estou como o outro, que não acreditava em fantasmas nem em germes, porque nunca vira nenhum dos dois. De seguida vêm os troquinhos, pois claro. Mas isso viria eu a constatar ser a mais inocente das badalhoquices. Quando a senhora da padaria se corta e sangra copiosamente, quiçá após trinchar um pão de forma, que as coisas querem-se já prontas e práticas, continua servindo o pãozinho aos clientes, que não se mostram chocados. A pessoa que me acompanhava ria à gargalhada perante a minha boca aberta. Felizmente não entraram moscas.
Um gajo passa perto da estação de comboios, que como sabemos, costuma ser um local asseado, e vai degustando uma tarte de amêndoa, sem papelinho por baixo. Eis quando senão repara que tem o atacador solto, e ei-lo fresco da silva, pousando a tarte num beiral de janela coberto de caca de pombo, agachando-se e compondo a toilette, não vá ele cair no meio da sujidade da rua. Na minha estupidez penso, Olha que porco, não podia ter colocado a tarte no caixote do lixo ali ao lado? Está calada que fazes bem melhor, qual deitar fora qual quê, depois do sapato atadinho, a tarte segue goela abaixo, acompanhada de nutrientes extra que não vinham na receita original.
Isto já soa a saiolice da minha parte, bem sei, mas não sou nova em andanças, e devo dizer que aqui encontrei o conceito de higiene mais original de sempre.
Nesta residência é estrictamente proibido fazer barbecues, ah como abomino o estrangeirismo flatulento, ainda que cada casa esteja bem isolada em relação à seguinte, e não há por cá os ventos de Sines, colocar antenas, parar o carro à porta para descarregar meia tonelada de coisas, nem que seja por alguns minutos, e uma série de coisas que ainda não pude ler por estarem em letra muito reduzida, à entrada.
Ando com ganas de fazer uma sardinhada com pimentos assados.

Wednesday, June 22, 2005

Camelia Fimbriata Copihue


Camelia-Fimbriata-Copihue
Originally uploaded by Kanuthya.

Não prefere que a tomem por dama, e ali permanece, irradiando luz que quase fere olhar, entre folhagem verde, fazendo-se cara a quem a desejaria colocar num decote ou plantá-la em longa cabeleira.

In viaggio IV

O avô Amado, de nome estampado nos documentos que nos exigem nas burocracias da vida, e de coração, trocou-se todo nos dias de registo e baptizados da sua prole, de forma que o nosso devido apelido familar se perderá. Há quem na família se tenha mexido para recuperar o sobrenome, temerosos que estavam pelo arrancar abrupto de palavra tão auspiciosa. Se as palavras têm tal poder e força, não se admite que lhes tivessem tirado logo essa, parece mau agoiro.

O Amado fez-me um carrinho de madeira e verga, onde eu inchada colocava um chorão que havia sido da minha mãe. Não pude dar outro nome ao boneco já algo desbotado dos sóis tropicais, teve de ser Bochechas, tal era a semelhança que apresentava com aquele senhor que eu via na televisão a preto e branco.

É uma sorte danada ter gente habilidosa e criativa a rodear-nos nos anos primeiros, os brinquedos à mão feitos esbateram as coisas más, que apagá-las não se poderia nem deveria fazer. Moinhos de vento para trazer na mão, correndo por um terraço encantado e que eu via como gigantesco, mobílias em miniatura, presépios únicos, os mais belos que vi, tudo isso fazias, Amado. Deste-me sonhos para encher uma data de livros, fora os segredos que te povoam e que não deixarás registados, por serem só teus.

Monday, June 20, 2005

O rapaz que olhava as estrelas

John Russell

Na passagem do milénio, que não deixa de ser criado por nós (será mais artificial e fugidio da natureza por isso?), um rapaz refugia-se nas montanhas ermas onde o gelo derrete, levando consigo troncos vergados e caídos das tempestades, arrasta segredos pelas encostas abaixo, entregando ao rio turbulento seres perecidos nas durezas do Inverno, carcaças não são, que permanecem conservadas meses a fio pelo gelo, para virem a encontrar nas águas que correm o banho final que revela o que deles resta.

Destrói documentos, rasga cartões de crédito, perde meios de comunicação, e toma para si um novo nome. O rapaz deixa um caderno, e pronto, está vista a minha predilecção por ele, rapazes e cadernos e está tudo perdido. E deixa um telescópio ao seu mano, para que o continue a ver entre as estrelas. Na escuridão que precede a aurora boreal os seus passos traem-no, ele que julgara encontrar o seu real trilho, e fere-se de morte, perdendo os seus fluidos vitais e o sangue que pulsa e impulsiona a sua máquina. As dores corroem-lhe o físico, logo agora que a alma finalmente sorria, e arrasta-se entre folhas secas, pedras que o arranham, descidas vertiginosas que lhe podem terminar a dor a qualquer momento, basta que se deixe cair. Arrasta-se até à beira da encosta para ver em lugar privilegiado da plateia o presente que Deus coloca no hemisfério norte, profusão de cores bailando, o espectáculo que escolhe para deixar os olhos corpóreos e perecíveis.

Vão buscá-lo e arrastam-no numa maca improvisada de galhos e lona, até às conveniências de salvamento. Aceita ajuda, permanece num moderno hospital, longe das matas, cicatrizam-se feridas e ganha-se de novo mobilidade, pais rejubilam por crerem ter de volta um filho que julgam conhecer. Em manhã limpa, assim que pode caminhar, deixa o caderno sobre o leito hospitalar e reassume o nome e vida que o escolheu. E ela estava lá, à sua espera.

Sunday, June 19, 2005

Il palo che voleva avere braccia


David Fokos- West Chop Poles
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Gli altri inviano, chissà, barche di carta con poesie d'amore o di solitudine, o della vita

Che lui non può prendere

Preso che è nella sabbia


Friday, June 17, 2005

Desejo darwinista

A nossa mente podia vir apetrechada de um bloquinho integrado de lembranças, das que surgem nos momentos não acordados, como uma base de dados aberta a consultas posteriores, antes de passarem pelo guardião, o Super Ego que as empurra para as zonas escuras.

Crocus Serotinus Clusii

Disseram-me que és flor solitária no Outono, calculo que sejas brava. Um repasto de arroz forneado contigo deve ser ainda mais especial por isso.

Cytisus Striatus

Não te recordo assim, erguida e só, mas numa profusão de companheiras. Gostava de te colher com a minha mãe, especialista em cuidados botânicos, entre outros, o maior de todos sendo o amar. Tens culpas no ainda hoje ter fraco por flores amarelas.

Thursday, June 16, 2005

Mediocritas

Há uma voz maldosa que desassossega o escriba, quando este se debruça no caderno e indaga que faltará ali, porque lhe soa a tão pouco, a medíocre. A voz insinua-se mais fortemente até se transmutar em pontadas, é mau, é mau porque deixa de fora ou somente aflora o amor, esse é o tema que deve reinar, apoderar-se sempre de qualquer escrito. O escriba sacode a voz, há coisas que ainda doem demasiado para passarem para papel, ainda que num paradoxo precisem de o ser para doerem talvez menos.

Digitalis Purpurea


digitalis-purpurea
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Protegerias dedos esguios armada em dedal, na tua textura de cor suave?

Wednesday, June 15, 2005

...

Tudo soa a pouco e a vazio, porque essas coisas também têm som, enquanto não escrever sobre ti, Mãe.

Tuesday, June 14, 2005

E uma Geninha cantou isto. E é tão bonito.

Dás-me os olhos para ver
o que está na minha mão
ela está entre o que eu sei
e antes do ainda não
dás-me a boca para saber

o que está na minha pele
ela está dentro de mim
e sabe a terra de mel
dás-me o corpo pra sentir

o que está no meu olhar
ele está depois de mim
e antes de aí chegar
dou-te os olhos para ver

o que ainda não chegou
que aqui perto eu penso em nós
ao lado do que passou

Terra de Mel

Confissão


duo accordéon mélancolique
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Há paixões assim, que se distribuem por vários corpos e sonoridades, como se um só não bastasse para abarcar tanta coisa.

É de baba e ranho, ainda que soe mal aqui dizê-lo, mas se é verdade, que fazer? Ainda em tempos que chorar era difícil, com o acordeon foi sempre limpo e fez escorrer sem esforço gotas de sal. Ele perdoa-me o fraco que tenho por violinos, na tendência melodramática que impõem ao meu corpo, assim ao jeito kitsch de um Almodovar. Mas o acordeon, senhores, dito mesmo assim ignorando o portuguesismo, esse vem como nadar nua após a zona de rebentação no mar ou como o mais longo orgasmo. E é tolerante essa paixão, que não costuma sê-lo. Vai desde gargalhadas com as estórias de um algarvio que, ouvindo a senhora dona Eugénia Lima se derretia, balbuciando entre baba que lhe escorria, Que "habulidade" do dedo, que linda mulher para mim; é de um Piazzolla de olhos fechados rasgando as nossas entranhas com tanta beleza, é da pureza concertada por dedos vários e lágrimas finas escorrendo ouvindo Danças Ocultas, um Port D'Amesterdam com que despede um Brel eterno, mas é também sanfona rural nordestina, que também exige lenço branco em punho pronto para entrar em acção, ou sons retirados por palhaços em circos vazios, e tocadores solitários nos burgos de um Paris qualquer. E é sobretudo a lembrança do senhor Fioravante, a tocar só para mim, no sejas bem vinda mais belo que tive na vida.

Monday, June 13, 2005

Geninho

Obrigada.

Sunday, June 12, 2005

Acordar

Esta noite vieste de novo, como em tantas outras, desde que o tempo é tempo.
Não trazes anjos contigo, e o acordar não se faz de doçuras acariciadas. Fica um peso de culpa sem saber bem pelo quê, ou sem se atrever a nomear, mais honestamente. Fica um amargo de boca pela vida suspensa, ou adiada, gostamos de pensar, para outra volta à terra, num balão mais seguro que não se rasgue com os ventos do norte. Faz-me só o favor de estar bem, até eu poder voltar a acariciar os teus cabelos.

Friday, June 10, 2005

Oxalis Pes Caprae


oxalis-pes-caprae azeda
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Chegas com os primeiros calores, sou transportada a um campo onde nos deixam correr durante intervalos de lavores e orações. Alheamo-nos dos procedimentos que ainda não entraram na nossa vida, que para tal haverá tempo, para sermos adultos e pensarmos em higiene, em cautelas que mandam passar-te por água corrente e limpar-te das impressões deixadas por cães, gatos, e outros bichos que se passeiam pelo campo e que marcam território. Ainda consigo sentir o sabor das azedas que me invadem as papilas, acre e bom.