Wednesday, May 04, 2005

A janela lá longe

Eu costumava adormecer com ondas a desmaiar na areia.

Momento piroso

The bird with the thorn in its breast, it follows an immutable law; it is driven by it knows not what to impale itself, and die singing. At the very instant the thorn enters there is no awareness in it of the dying to come; it simply sings and sings until there is not the life left to utter another note. But we, when we put the thorns in our breasts, we know. We understand. And still we do it. Still we do it.

Colleen McCullough

Grazie, Simone :)

fait divers

Nas imediações todos se parecem ter lembrado de fazer obras, levantando cercas (não, isto era o que os meus olhos pediam, são muros mesmo), aumentando casas, reformando garagens. Vou pregar uns pregos e pendurar uns quadros e já volto.

Tuesday, May 03, 2005

Don't fear for my sanity - part II

Fizeste-me recordar o perfeito horror recontado numa carrinha branca. Dei-te o cognome do meu chá preferido, estás exactamente na terra das plantações, mas chamo-a com o nome nativo da minha terra. Bissapa.
Como sobreviver ao terror? Como vivê-lo. Como viver o momento em que nos apontam uma arma e querem obrigar a esmagar o fruto de nosso ventre (ou de qualquer outro, for that matter) com um pilão? Como continuou vivendo moribunda a mulher a quem arrancaram um bebé quase recém-nascido, o viraram de cabeça para baixo, e, pegando em cada uma das tenras pernas, o dividiram ao meio?

Thursday, April 21, 2005

Aviso à navegação

Acaba de passar Chris de Burgh.
É a decadência.

O Lobo diz que sabemos estar a envelhecer quando passamos a gostar de sopa

Escolher como temática de rádio online, Lite Office Music...
Deve ser a decadência...

Per il mercatore

Porque os outros se mascaram e tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não


Porque os outros são os túmulos calados
Onde germina calada podridão
Porque os outros se calam mas tu não


Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo
Porque os outros são hábeis mas tu não


Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia

Tuesday, April 19, 2005

Don't be afraid

A crer no que escutei, que compreensão mórbida e partilha poderei ter com o Mourão-Ferreira, no sossego que lhe é dado pela morte da sua virgem, garantia vã que não será de outro alguém?
Que espécie de monstro se pode ser?

Thursday, April 14, 2005

Telepatias

Sintonizamo-nos assim, eu escrevinhando sem as penas afiadas que adoro, tu lendo-me. E lendo-te também, muitas das linhas que aqui estiveram estão nas tuas mãos.

Sunday, April 10, 2005

lettera al mio angelo

Envolve-me nas tuas asas de algodão e mostra-me, faz-me compreender, escutar sem reclamar tanto, perdoar sem ter de explodir primeiro. Ecco, compreender. Para poder ser.

Wednesday, April 06, 2005

Slow down

Aqui até o sangue é desobediente. Pedem-lhe que se passeie, tranquilo e eficiente, por estreitas ruas, levando o essencial ao corpo. Mas ele corre, sempre, a velocidade impensável num corpo jovem.

Monday, March 14, 2005

Morena de Neve

Brindaram-nos com a variedade neste planeta, e os flocos brancos também estão incluídos, ainda em que em locais onde só o conforto artificial permite a vida ao homem. E o atingir alturas quase tão elevadas como os nossos sonhos, que não necessitam de telecabines transportadoras. Mas esta aqui nasceu numa baía ensolarada, de calor húmido e pegajoso.

De beleza pura

Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Alexandre O'Neill

Thursday, February 24, 2005

...

Vêm ter consigo sem horas marcadas, não pedem licença para entrar e instalam-se por entre os canais turvos como os de Veneza. Pedem satisfações, não há direito, estamos cá, existimos, temos vida própria, tens obrigação da a registar, assim, em folhas soltas ou em encadernações cuidadas, o que não podes é deixar-nos penduradas in continuum.
A CGD tem uma foto ternurenta com os pés de uma garota, sobre uma caixa enfeitada de asqueroso consumismo natalício e a Dunhill promove acessórios de luxo para homem que poucos podem comprar, e tu refugias-te em fait-divers, tudo para nos deixares cá, asfixiando dentro da tua caixinha mental redutora e cansada.

Bandoleira

Pessoas que fazem compras ou fingem que as fazem, populando centros comerciais depressivos, a dona que compra alho francês ou endívias na mercearia do lugarejo, o rapaz que corre de olhos abertos para o eléctrico, um dono de restaurante siciliano, cantarolando incansável e louco num país de gente de nariz arrebitado, que secretamente, mas pouco subtilmente, inveja outras latinidades sorridentes e morenas, o triste candidato a gigolo que me baba as mãos num bar supostamente fino mas decrépito, com árabes que fogem da abstinência de Meca. A todos retiro algo sem pedir licença. E fica aqui tudo, comigo, alimentando as vidas que se criam independentes, que povoam esta massa confusa de dendrites e sinapses. Alguns dão-se bem, trocam piropos, impressões e apalpões. Outros vão cultivando odiozinhos de estimação, vários querendo ser vilões, que isso de ser herói da história é uma chatice. Esperam ser deitados e deleitados em linhas desalinhadas.

Tuesday, January 25, 2005

Perdão

Senti como uma bofetada o enviar-te para onde menos desejarias ir, sem outras hipóteses de te ajudar ou de te manter junto de mim. Vi-te partir para junto de quem tanto contribuiu para essa derrocada implacável que te arrancou do solo. Espero que me perdoes um dia.

Num instante

Em que momento caiu esse véu sobre ti, em que momento puseste o primeiro pé, sem timidez de quem avança em terreno incerto, num umbral escuro, labiríntico, em que se misturam os tempos e se perdem fios condutores de enzimas, circuitos mentais cintilantes que não são medidos com tomografias. Avançaste e revoltei-me, gritei, agarrei-te com força violenta que não costumas ver em mim, tentei puxar-te, na ignorância súbita causada por um amor profundo que nos acompanha desde que voltaste ao corpo, nesta vida. Não te pude reter, e seguiste numa barca pelos meandros mais escuros, vendo o que eu adivinhava mas não me atrevia a nomear, por ter imaginado e esperado que coisas assim podiam acontecer aos outros mas não a ti. Não a ti.

Thursday, January 20, 2005

Soon to come... errr

...e viva a improdutividade.
Vai custar. Mas mais logo tenho que te escrever. Me escrever. Mais logo.

Friday, December 17, 2004

olha

Olha,
sei que me tenho desleixado, não te levo para fora, não digo que reparo na forma como a madeixa de cabelo te tapa a cara, não a afasto e não sentes as minhas mãos emoldurarem-te o rosto assim, numa fotografia que ficaria para sempre comigo, que não podes rasgar, que não podes levar contigo agora, que o turquesa te fica bem, que gostava de vez em quando de te deixar bilhetes quando saio e nunca o fiz, não te falo em cadência que condiga com que aqui vai quando te vejo descer as escadas e guardo comigo esse som de madeira sobre madeira que só tu podes produzir, assim esse timbre exacto, que não te pergunto porque não falas, olha, já pendurei as prateleiras na cozinha, e sei que estás cansada, exausta dos silêncios sem cumplicidades, tirei a roupa da corda, esses estendais que enfeiam a nossa rua e a nossa varanda, onde não cheguei a fazer os furos para as floreiras, que podiam ter sardinheiras vermelhas, assim a dar um ar feliz, sabes dizer porque motivo as floreiras dão um ar feliz às casas? Há pouco aqueci os restos de ontem para o jantar. Estão dois pratos, parelhas de talheres, copos de pé alto, como tu gostas, os guardanapos com girassóis. És capaz então de me dizer. Porque porra não chegas.