Sunday, November 12, 2006

Doidinho



Já não lia José Lins do Rego há uns bons anos, após Riacho Doce e Cangaceiros. Cada um deixa-me sempre a doce vontade de ler tudo o resto que ele nos deixou. Tenho um estranho fascínio pelo sertão nordestino. Recordo a primeira vez que entrei na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Minto. Já lá tinha estado umas outras duas vezes,talvez, meu avô e minha tia levaram-me várias vezes a visitar diferentes locais no polo. Recordo agora especificamente a primeira vez que lá entrei já como estudante. Devo lá ter ido em busca de algum artigo obscuro, necessário para preparação de matéria. De que matéria se tratava, não faço a menor ideia, visto que uma vez lá entrada me deparei com os maravilhosos arquivos arcaicos, dispostos segundo diferentes tipos de organização, é certo. Pouco tempo depois já lá estavam, claro, os computadores dispostos ao longo de longuíssismas pareds, mas confesso que apesar de ser grande - e eficiente, if I may add - utilizadora dos mesmos, tomava conta de mim a vontade de discorrer com dedos as antigas fichas de catálogo. Corredores de autores, corredores temáticos. Os meus propósitos de estudo foram naturalmente por água abaixo. Em vez de buscar Goethe ou a clausura progressiva das vogais do português europeu, finquei pé junto das gavetas letra S, sertão, saciando sede de secas terras. E foram tardes fantásticas, aquelas, como as eram também no Instituto de Estudos Brasileiros, esse já dentro da faculdade, imersa nas aventuras de Dadá e Corisco, Virgulino e Maria Bonita, nas canções que imortalizavam os feitos do cangaço.


Se é inteiramente autobiográfico este livro, desconheço por ora. Mas é-o em grande medida.





(ilustração de literatura de cordel nordestina)

Topei com esta breve crónica do autor, e não pude evitar, na minha neurose inofensiva para terceiros (segundo informações a que dou crédito)que me faz estabelecer relações entre tudo e mais alguma coisa, desejar escrever também algo com este título. Pronto, está bem, o adjectivo desapareceria, admito.

"Adeus, doce França

Volto hoje às minhas criaturas, aos rudes homens do cangaço, às mulheres, aos sertanejos castigados, às terras tostadas de sol e tintas de sangue, ao mundo fabuloso do meu romance, já no meio do caminho. Os dias de França me deram uma sensação de pausa, de espanto, de novos contactos sonhados desde menino. Vi terras por onde andaram os doze pares de França, os heróis do meu Carlos Magno, lido e relido como história de Trancoso. Vi terras do sul, o mar Mediterrâneo, o mar da história, o mar dos gregos, dos egípcios, dos fenícios, dos romanos. Mas o nordestino tinha que voltar à sua realidade, à realidade maior que a história do mundo, isto é, à história dos seus homens, dos cangaceiros brutais, carregados de vida bárbara, de instintos cruéis de uma força, porém, que não se extingue nunca, porque é a energia de uma raça de homens mais duros do que as pedras dos seus lajedos. Volto aos "Cangaceiros" e desde logo tudo o que vi e senti se refugia no fundo da sensibilidade, para que a narrativa corra, como em leito de rio que a estiagem secara, mas que as águas novas enchem, outra vez, de correntezas. Volto ao terrível Aparício que mata igual a um flagelo de Deus, ao monstruoso Negro Vicente, ao triste Bentinho, ao místico Domício, aos umbuzeiros carregados de frutos, aos mandacarus de floração de sangue, aos cantadores de estrada, às mulheres sofredoras, às noites de lua, aos tiroteios, ao crime e ao amor, à poesia barbaresca e vigorosa de um povo que é maior do que a terra que o criou. Volto contente e disposto a tudo. Adeus, doce França. Agora os espinhos me arranham o corpo e as tristezas me cortam a alma."

José Lins do Rego, in O Melhor da Crónica Brasileira, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1997

Monday, November 06, 2006

fim-de-semana


Disto falava a canção Haiti, que se pode revisitar nas auscultações. Forma destrambelhada de dizer que não consegui inserir à primeira o link para o devido post e que me aborrece voltar a tentar.
111.

como voltar a casa


Os anjos perseguem-me, nestes dias. Num bom sentido. Com a história de um deles inicia esta colecta de contos, que têm tudo para me fazer feliz e sorrir. E chorar, caso seja necessário.

Friday, November 03, 2006

Cosendo retalhos de paz

Sempre adorei mantas de retalhos. Coisas feitas com as mãos (vá, não sejam maldosos), com tempo e coração. Há algum tempo atrás a amiga Charlie Brown lançou este bonito desafio, inspirada pela leitura de How To Make an American Quilt, de Whitney Otto. Ainda não li o livro, mas de imediato recordei o filme.






Valem desenhos também, além de qualquer lavor. Mais detalhes aqui!

Monday, October 30, 2006


Estes gajos devem andar por aqui. Poderia dizer, como uma senhora que conheci, que quando o homem está em casa nem as panelas lhe fervem (ela reduzia a influência ao espaço da cozinha, sejamos sinceros), mas estaria a arranjar desculpas esfarrapadas. A culpa é da empresa acima mencionada, claro. Desculpas a emails não respondidos, comentários-resposta atrasados ou inexistentes. From next week on, hopefully, abnormality will be replaced.

Wednesday, October 25, 2006

stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus

(imagem do site da Difel, editora que não deixa de me desgostar com as pobres revisões de texto... a minha capa é diferente, anterior a esta... gostaria de pensar que os erros ortográficos desapareceram)

Como foi bom voltar a esta primeira incursão de Eco pelo romance. Mistério aliado a livros, Idade Média, pedras góticas, semiótica esculpida - tivesse eu lido e relido este livro com desconfiança à partida, teria sido uma batalha perdida certamente, seria díficil não gostar. Revisito-o passados quinze anos desde a primeira vez. Sigo crendo que as coisas têm vida própria, e muito se devem divertir à nossa custa quando não as estamos mirando. Marquei algumas páginas ao longo da (re)leitura, certamente por desejar revisitar passos quem me tocavam de modo particular. No entanto, e como frequentemente me acontece, ao tentar agora a revisitação, sou impedida de encontrar as considerações que meus neurónios falíveis teceram nesses momentos. Fica um trecho que o globo ocular reconheceu muito bem. Quanto aos outros, devem estar a passear-se noutros pontos do livro, trocando-me as voltas, conspiração que executavam cada vez que eu fechava o volume e visitava Morfeu.
"Até então tinha pensado que cada livro falava das coisas, humanas ou divinas, que estão fora dos livros. Agora apercebia-me que, não raro, os livros falam dos livros, ou melhor, é como se falassem entre si (...), a biblioteca (...) era portanto o lugar de um longo e secular sussurro, de um diálogo imperceptível entre pergaminhos e pergaminhos, uma coisa viva..."

Tuesday, October 24, 2006

for the time being


Powered by Castpost
try a little tenderness - Otis Redding

Uma das poucas coisas que consegui salvar do castpost.

Friday, October 20, 2006

diálogo com alguém que julgava não desejar a clausura



- Partes, como de costume, de uma premissa errada.
- Como assim?
- Sofres somente por ti, nunca verdadeiramente pelos outros. Sempre, e só por ti.
- Não é verdade.
- Devias ter partido para uma ilha deserta. Nem cão levarias. Assim, não te davas com ninguém, não conversavas com ninguém, não vias ninguém. Não vivias lutos, não perdias pessoas, oportunidades, sonhos, autocarros que passam indiferentes ao teu acenar. Ninguém te podia ofender. É essa a solução, em última análise. És a pessoa mais egoísta que conheço.
- Porque digo que me doem demais os lutos, ainda mais aqueles de pessoas que continuam vivas?
- Também. Por tudo.
- Mas não sofremos sempre em primeiro lugar por nós mesmos?
- Claro.
- Então em que sou tão detestavelmente diferente?
- És igual. A única diferença é acreditares realmente que és diferente.

Wednesday, October 18, 2006

À Procura de Sana


Este livro é viva prova de algo em que creio profundamente. A vida é por vezes muito mais surreal do que qualquer romance da dita corrente. Tinha saudades de ler Zimmler, e aumentou a vontade de ler o que dele ainda não conheço. O que me fascina na sua escrita não é propriamente o seu estilo per se, mas o olhar e coração. Preguei tanto, e ultimamente ainda mais, o diálogo, e no entanto dou por mim levando seriamente em consideração a conclusão, extremista aos olhos de tantos, de uma das personagens. Talvez por vezes o diálogo seja impossível, quando já se atravessaram linhas demasiado importantes e sagradas, quando tanto sangue já foi derramado, tantas palavras gritadas. Talvez a ausência, o afastamento do outro tenha de imperar. Durante algum tempo. Não posso crer que acabo de escrever isto. E que me sinto tentada a acreditar realmente nisto.







Monday, October 16, 2006

desconversão desconseguida

Ouvira por todo o lado da falta de reconhecimento pelas dádivas da vida. Tecto, calor providenciado pela natureza ou criado pelo homem, comida de levar à boca, água de saciar garganta seca, mãe, pai, irmãos, os restantes, os queridos e os nem tanto, os bons dias recebidos na rua, a possibilidade de acordar a cada manhã, ter pernas que a levassem a destinos segundo a sua vontade, mão de estender ao próximo, dedos de entrelaçarem dedos. Parecia haver até quem encontrasse amor e passasse por ele, com ele, através dele, para ele, sem um pensamento de graças. Não seria assim, não seria ingrata, sorriria de cada vez que visse uma minúscula flor romper o cimento, cada vez que o sol lhe amornasse a pele, reconhecida por cada gota de vida que lhe fora concedida. Agradeceu ter recebido o Amor.



Por isso, quando a vida escureceu, iniciou uma longa carta a um deus, diringindo-se-lhe sem maiusculizar qualquer letra incial, maiúscula só a raiva. A carta cresceu ao longo dos anos. A ira foi-se movendo, ora submergindo, ora irrompendo de águas coléricas e turvas, marés vivas que lhe rasgavam a pele dos dedos que escreviam, e a deixavam meses a fio largada como despojo trazido pelo mar. Uma bóia. Uma mancha de alcatrão. Um pedaço de cordame que não serviu para segurar barca. Caco de vidro verde ainda cortante, indiferente ao moldar macio da água.

Ameaçou o deus com canções de amores infelizes, tragédias de faca e alguidar

se acaso me quiseres sou dessas mulheres que só dizem sim.

Nunca lhe ocorreu enviar a carta, distraída que estava ao escrevê-la das suas ameaças de desconversão, pois nem por um momento imaginou que o deus não a estivesse lendo em tempo real. Nunca lhe ocorreu também agradecer ainda assim a vida vivida, o corpo e alma vividos, depois tudo de pernas para o ar, e a memória de lágrimas escorrendo pelo mero observar do sono do outro, que a ira nunca conseguiu apagar.

Thursday, October 12, 2006

consideraçõezinhas técnicas



Errr...

Pois é, desde que mudei para a versão beta ( nota para amigas falantes de português do Brasil, em Portugal "beta" ´significa também patricinha :) ), torna-se evidente o aspecto positivo de o blogger não ser alguém com pescoço que me tente vampirescamente. Esganava-o, provavelmente. Gosto da adição de temas, etiquetas, mas deixei de poder carregar aqui a minha música. Não me interessa poder colocar aqui links consoante a possibilidade, e o castpost permitia-me colocar aqui a MINHA música. Ainda aparecerão dois ou três posts musicados, que por sorte já tinha transferido para o blog e guardado como rascunho. Se usam blogger e ainda não mudaram para a versão beta, saibam que o terão de fazer mais cedo ou mais tarde. Além da questão musical, a minha barra lateral de links e afins passou-se, o rapaz tem dificuldade em processar correctamente alguns caracteres e acentos latinos...

Isto tudo para dizer que tentarei fazer algumas mudanças, e que se entretanto tudo desaparecer, foi bom ter-vos conhecido :)

cartas por enviar




Há cartas escritas para que nunca sejam enviadas. É assim. E é talvez um espectáculo degradante de auto-comiseração, falta de coragem ou, por oposição, algum bom senso.
Escrevemo-las devido ao nosso instinto de sobrevivência. Porque as palavras, aquelas palavras, não podem, não devem, não conseguem permanecer ali por mais um segundo que seja. Têm de fluir, seguir um curso, que seja tortuoso, que importa, os rios acabam por ir dar com o mar, por muitas curvas que encontrem no caminho, apesar do Zé Mário Branco dizer no seu FMI que o rio chega a São Pedro de Moel e nunca consegue desaguar, mas essa é uma outra história. O bom senso impede o envio quando o coração teme que as palavras sejam demasiado duras. Ou definitvas. Ou que cortem cerce qualquer esperança.

Monday, October 09, 2006

tagged

Via Jo Ann



Pega no livro que se encontrar mais próximo de ti, vai até à página 18 e transcreve a quarta linha.
"Depois de perder propositadamente uma partida, reteve-o para outra." (A Incrível e Triste História da Cândida Eréndira e da sua Avó Desalmada, de Gabriel García Márquez)


Qual foi a última coisa que viste na televisão?
Notícias contam? Vejo mais coisas "gravadas", a última foi um episódio do Star Trek Voyager.

Sem verificar, que horas são?

20h30m

Confirma, são...

Wow! 20h33m (Quem me conhece sabe o motivo da minha surpresa...)

Além de ruído do computador, que escutas em teu redor?
Notícias... O Lula bla bla...

Que fizeste a última vez que saiste?
Fui jantar a um restaurante da Córsega. Os grelhados com molho de pimenta verde recomendam-se vivamente.


Que tens vestido neste momento?
Um vestido longo de malha em tons azuis.

Antes de responderes a este questionário, que estavas a ver?

O progresso da minha pirataria inócua e o correio electrónico.


Sonhaste esta noite?

Bastante. Com uma pessoa que não sei se continua viva. Veio ajudar-me, creio. espero que o tenha feito através do seu sonho, e não de outro local.

Quando riste pela última vez?

Ontem, ao ouvir uma gravação da Bandamecos, mais concretamente do Top do Miguelito. Sempre que ouço o Carlos Bastos a cantar choro de tanto rir. Aquilo não pode ser real. All that fado...

O que tens nas paredes da divisão em que te encontras?

Imagens emolduradas a preto e branco, uma de um porto de pesca para me lembrar de mim própria, a outra de gaivotas num areal e o mar revolto como fundo, uma composição de conchas feita por mim e... hum... ah, um quadro abstracto cheio de azul.

Viste algo estranho hoje?

Não separo muito o que vejo em sonhos do resto, logo, sim, bastante estranho. Além disso, a minha barriga.

Se ficasses multimilionária do dia para a noite, qual seria a primeira coisa que comprarias?

Incrível o tempo há que estou especada a olhar para esta pergunta, sem saber o que responder... Não estou certa de que isso seja negativo. Porra. Livrava pessoas que amo de alguns encargos; entrava numa livraria de minha eleição e saía de lá carregada sem culpas; abria casas de acolhimento e educativas em Angola.

Diz-nos algo que não saibamos.
As coisas que gostaria de escrever ficam guardadas para outros locais. Infelizmente tem de ser assim. Ah, francamente, Kanuthya, tens sempre de ser tão melodramática? está bem, pronto.Uma ou outra pessoa que lê isto já sabe, mas sou emetofóbica.

Se pudesses mudar algo no mundo além da culpabilidade e política, que mudarias?

Errr...culpabilidade? Algo me escapa. Para mudar tem de envolver política. Paz. Paz. Paz.


Qual o último filme que viste?
Hostage.

Que pensas deste questionário?

Tenho um fraquinho secreto e detestável por questionários...


Gostas de dançar?
Muito, mas só o faço em ambientes em que me sinta muito confortável. Quer dizer, pelo menos desde que deixei de consumir álcool.

George Bush ?
Eu disse que era emetofóbica...

Que nome darias a uma filha?
Clara.

E se fosse um rapaz?

Pedro.

Já pensaste em viver no estrangeiro?
Como é que uma pergunta tão simples pode ser retorcida por esta gaja...De certa forma, fui viver para o estrangeiro bem pequenina. Felizmente apaixonei-me por esse estrangeiro e ele tornou-se no lar possível. Já vivi fora sem pensar antes nisso, não houve tempo, como sucedeu também com a experiência actual. Mas nunca antes um estrangeiro me foi tão estrangeiro.

Que gostarias que Deus te dissesse à entrada do paraíso?

Vá lá, custou, mas valeu-te não te queixares muito. Agora segue em frente, estão ali os teus que vieram antes de ti, e não me esqueci do teu pedido, estão lá também os cachorros e toda a bicharada. Nada de moleza, porque daqui a algum tempo voltas. E não, não aceito subornos.


Que 4 pessoas poderão responder a este questionário nos seus blogs?

Ñão faço a menor... quem quiser.



Saturday, October 07, 2006

O Anjo Mudo, Heinrich Böll



Logo na primeira página visualizo, acompanhando o olhar da personagem, o anjo que dá título ao livro, coberto de fuligem das vidas desmoronadas. Tem na mão um lírio. Antes de pegar neste belíssimo livro, imediatamente antes, os meus olhos haviam tropeçado numa gravura de Gabriel, o arcanjo, segurando lírios.
um anjo como que amordaçado e soterrado em cinzas de destruição que o rodeiam recebe hans no seu regresso a uma Colónia que tem dificuldade em reconhecer. O protagonista tenta limpá-lo. Talvez precise acreditar que os anjos permanecem, apesar de tudo.

Wednesday, October 04, 2006

Abrir os olhos. Pensar.


Powered by Castpost
Haiti


Quando você for convidado pra subir no adro da Fundação Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos
E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se olhos do mundo inteiro possam estar
por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque com a pureza de meninos uniformizados
De escola secundária em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada
Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém
Ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do Pelô
E se você não for

Pense no Haiti
Reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

E na TV se você vir um deputado em pânico
Mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo
Qualquer qualquer
Plano de educação
Que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
do ensino de primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua
sobre um saco brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
diante da chacina
111 presos indefesos
Mas presos
são quase todos pretos
Ou quase pretos
Ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba

Pense no Haiti
Reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

Caetano Veloso/Gilberto Gil

Monday, October 02, 2006

Estórias de Dentro de Casa

Foi este senhor que escreveu.

(Germano Almeida)


São três novelas, In Memoriam, As Mulheres de João Nuno e Agravos de Um Artista.




Esta é a tal casa do título, o Mindelo. Lá estão, reais e tangíveis, o Monte Cara de fundo das escapadelas conjugais da primeira estória, o Xê Nu onde se bebem copos e se escutam sons únicos, a boite Je T'Aime onde se bamboleiam moças.

Sonho com estas ilhas há muito tempo. Um conhecido meu, cuja opinião devo por força maior levar muitíssimo em conta, garantiu-me ser este o único local no mundo em que não tinha encontrado racismo. E outro ainda, como já creio ter escrito neste caderno de notas desorganizado, confidenciou-me a sua felicidade por a sua terra linda ser pobre, escapando a cobiças guerreiras.

Thursday, September 28, 2006

B.r.u.m.a.

(Lost in the Mist in someonespecial.com)

Barca rumorosa ululante mascarada alva. Bru-ma. Bruuu, ma. Gosto dos movimentos do aparelho fonador que permitem soprar estes sons. Agora que penso nisso, terá que ver com os dois sons iniciais, pois também gosto de bramido e Braga, e um pouco menos de bróculos.

Sonhei-te uma destas noites. Evito as noites o quanto posso, faço-o voltando a práticas antigas, tentando gingar o sono, voltear pé ante pé, esperando que ele não me leve para as viagens pouco repousantes. Sonhei-te e eras tu mas com o rosto que tinhas, o cabelo que tinhas, o vestido de fazenda que te picava que tinhas, buscando o conforto solitário da gola branca, que impedia que passasses o tempo coçando furiosamente o pescoço, os dentes pequenos que tinhas, o riso e o choro que tinhas, os sapatos de verniz que te obrigavam a calçar no Natal. Foi o único modo de te visitar nestes tempos. O que tens está na bruma, estendo uma mão, as duas, os braços em cruz para te apanhar e não te alcanço. Vivo o luto de um corpo vivo. Aprendo a vivê-lo. O resto vai caindo sobre terra, e começa a acreditar em magas que esconjuram sombras e, para meu desgosto, visto gostar tanto da palavra, brumas, sobre os outros. Então visito-te novamente no sono, para poder comunicar directamente com o que em ti permanece teu e meu e nosso, e digo-te que vou criar mil e uma poções que limpem os esconjuros, duvidando no mesmo momento dessa promessa, tentando não verter lágrimas, pois é a tua alma que me vê no sono, e ela ainda não sabe o que te aconteceu, não a quero sobressaltar. Durante o teu sono, vou também sussurrar-te que aqui só escrevo ficção. E, quiçá também eu, no sono, poderei acreditar, só por um pouquinho, que a bruma que te envolve se vai dissipar.


Tuesday, September 26, 2006

De Profundis, Valsa Lenta

(José Cardoso Pires)

Ah, o título... Que título este.

Que somos quando não sabemos quem somos? Que existência de nós resta quando a mente se perde na tal bruma que já defrontei de tão perto que lhe pude sentir a humidade na ponta dos dedos? Eu via-a, à bruma, noutros olhos. O autor viu-a no seu reflexo do espelho. Um momento precioso deste pequeno grande livro é o prefácio de João Lobo Antunes, que segue vendo seres humanos além de linhas grafadas em electroencefalogramas.


À Margem de Casanova

( Miklós Szentkuthy)

Li em português, apesar da versão ter sido traduzida directamente da representada acima, francófona. Na verdade não sei se o original terá sido escrito em húngaro ou alemão. Suponho que ser tradutor de húngaro em Portugal não compense.
Erros cruciais:
não ter lido as memórias de Casanova antes de embarcar nesta viagem;
não não ter lido tudo o que pude dos clássicos antigos;
tê-lo lido neste momento.

Friday, September 22, 2006

Celebrar o Futuro - Mia Couto IV

(Bartolomeu Dias dobrando o Cabo da Boa Esperança)

"O mar foi ontem o que o idioma pode vir a ser hoje. falta vencer alguns Adamastores de percurso. Naveguemos nestas águas comuns, desdramatizando e descolonizando as Descobertas, afastando maniqueísmos. Outros Descobrimentos começam quando os moçambicanos adoptam outra posição que não a de pedir contas ou explicações pelo passado. Outras descobertas começam quando os portugueses acreditam que ainda há tudo a descobrir nesse mundo que outrora eles acreditaram revelar ao Mundo. A viagem está ainda por começar. Haverá mais razões para celebrar o futuro."

Thursday, September 21, 2006

Celebrar o Futuro - Mia Couto - III

(Enviados do Régulo Gungunhana, in Gravuras Antigas de Moçambique)

"Um encontro de culturas exigia que entre os interlocutores se anulasse qualquer relação de poder, qualquer laço de subordinação. A revelação e entrecruzamento de valores e tradições requeria uma relação entre seres soberanos. A dimensão do colonialismo não foi, contudo, tão omnipresente, perfeita e acabada como se pretende fazer crer. Uma dominação tão absoluta exigia uma outra capacidade da potência colonizadora. O edifício estava fracturado, o tecido sempre esteve descosido. Encontros de culturas aconteceram em níveis e momentos particulares, em ocasiões excepcionais em que os homens foram capazes de se sobrepor às circunstâncias sociais. Nesses momentos, sim, houve intercâmbio, namoro e hibridação de culturas.

Desse encontro ficou o sabor doce da mestiçagem, uma vocação de aceitar o outro e conviver com a diferença. Ficou uma língua comum que deve ser saudada exactamente pela forma como pode deixar de ser "portuguesa". A adopção de uma língua comum, longe de uniformizar, é um meio de afirmar a nossa individualidade. Paradoxal nos parece: a língua do outro fazendo-nos soberanos e únicos. Teríamos, ao fim e ao cabo, outros motivos para celebrar os chamados Descobrimentos. Experimentemos o seguinte pensamento: quando os navegantes portugueses chegaram não havia "moçambicanos". O processo posterior de colonização foi quem unificou os povos deste território, lançando as bases da nação. Vasco da Gama foi, ironicamente, o prenunciador desse longo processo da criação da moçambicanidade."


Wednesday, September 20, 2006

Celebrar o Futuro - Mia Couto - II


"Este acerto de verdades está apenas esboçado. À mistificação feita pelo regime colonial seguiram-se outras simplificações redutoras, de nossa inteira responsabilidade. Não sei que mestiçagem particular hoje podemos comemorar. Os que procuram identidades culturais "puras" não são mais que caçadores de miragens. Não há hoje cultura que não seja mestiça. A mestiçagem cultural em Moçambique começou bem antes da chegada dos portugueses. Começou mesmo antes da chegada dos árabes e dos asiáticos. Os grandes movimentos migratórios do continente já haviam mesclado diferentes culturas africanas. Será necessário retirar véus que, ao nos afastarem da nossa própria identidade, nos apartavam uns dos outros. Tarde ou cedo, acabaremos por redescobrir em nós aquilo que outrora expulsámos de dentro de nós.
Trata-se, afinal, de resgatar uma relação que já existiu. No primeiro período das viagens terá havido uma possibilidade sistemática de encontro de culturas. As relações estabeleciam-se, então, sem marca de domínio, e os povos se expunham, em ingénua e total entrega. A descoberta mútua que marcou os primeiros tempos foi depois substituída pela dominação. A conquista matou a descoberta. O espírito de fascínio pela novidade foi rapidamente cooptado pelo desejo do lucro, pela expropriação de riquezas. o soldado tomou o lugar do investigador. O comerciante substituiu o cronista. O diplomata foi destronado pelo administrador. Iniciava-se uma longa era de distanciamentos entre os povos, de criação de sentimentos de inferioridade, de culpa e de vergonha."


Curiosa uma analogia entre o que escreve Mia sobre os povos, com o encontro amoroso que degenera em desencontro, não crêem?

Monday, September 18, 2006

Celebrar o Futuro - Mia Couto - I


Encontrei o texto que buscava já há algum tempo. A folha conserva-se em bom estado e recomenda-se. Não quero celebrar descobrimentos. Há dias em que talvez até o pudesse fazer, mas agora não. É que em vez de encontro cultural, houve muitas vezes encontrão, como disse o Mia. A tal da folha tem anotações minhas, feitas no início da década de noventa, século passado, aka. Tem pedaços de transcrição fonética no alfabeto de Paiva Boléo, que tinhamos de aprender a par do internacional. A professora tinha boas ideias, levando textos polémicos, interessantes, comentando e chacoteando, enquanto talvez alguns alunos mais acinzentados achassem que era hora de linguística, e que esta não devia meter ao barulho história e antropologia.
As minhas palavras andam refugiadas em cadernos; voltarão, mas por ora partilho convosco as do Mia (que, quanto a mim, além de reflectirem em muito a realidade, reflectem uma realidade peculiar ao seu país de origem, onde a colonização terá assumido matizes muito próprias, infelizmente pela negativa, pela proximidade com a África do Sul), desta vez numa crónica publicada no Expresso, em Março de 92.

"A celebração dos Descobrimentos valerá a pena quando os povos de diferentes continentes se juntarem numa festa comum. Até lá resta o tempo das mistificações, dos preconceitos recíprocos, das cicatrizes mal curadas.

Celebrar nos Descobrimentos um "Encontro de civilizações" corresponde a uma vontade de recuperar tudo o que de positivo houve no relacionamento entre africanos, asiáticos, americanos e portugueses. Mas esse desejo traduz mais um caminho a começar que uma realidade do passado. Se não entendermos quanto falta realizar nesse processo comum de desnudar a realidade, o celebrado "Encontro cultural" pode ser uma outra, mais simpática, falsificação da História.

Durante séculos, a revelação e partilha de valores culturais aconteceu de forma fortuita e superficial, contra a corrente da História. No domínio do intercâmbio cultural, os Descobrimentos acabaram por ser convertidos na sua própria negação. Os Descobrimentos tornaram-se nos Encobrimentos. O encontro virou encontrão.

Viajando pelo litoral de Moçambique ainda hoje recolho sobrevivências dos mitos que, no tempo das caravelas, habitavam o imaginário das populações costeiras. Acreditava-se que os portugueses praticavam a antropofagia e que os navegantes carregavam nos seus barcos homens destinados a satisfazer a gastronomia lusitana. Os navegantes portugueses acreditavam igualmente na existência de práticas de antropofagia entre os africanos. A aproximação entre os dois imaginários se fazia, afinal, pelo desconhecimento mútuo. Esse distanciamento ainda hoje prevalece.

O que pode hoje ser celebrado é o podermos inscrever em programas nacionais a progressiva superação de preconceitos que deformaram a troca de valores culturais. Os descobrimentos portugueses podem prosseguir no próprio território português. Os Descobrimentos moçambicanos podem ser continuados dentro da jovem nação africana. Os portugueses podem fazer regressar para si um olhar que revele as Áfricas que existem em portugal e assumir a sua mestiçagem racial, cultural e religiosa. A descoberta de um Portugal plural, católico e muçulmano, europeu e africano, pode ser, funcionar, como exemplo numa Europa que dificilmente aceita a sua própria diversidade. Moçambique descobrir-se-á na sua totalidade se se aceitar como nação mestiça que integra a herança portuguesa não apenas como fatalidade da história mas como parte da sua actual dinâmica.

Thursday, September 14, 2006

sempre dois lados da mesma viagem



Powered by Castpost
Milton Nascimento - Encontros e Despedidas

Ia escrever que este espaço sobrevive às golfadas, ou colocar um espanador como ilustração. Dizem que grande parte do pó das casas é constituído pelas células mortas da pele dos seus habitantes; pairam no ar, até se depositarem sobre as superfícies. Mas as casas desabitadas, e mesmo cerradas ao jeito de fortes cobertos por véus de persiana ultra resistente apresentam na mesma o tal do pó. Pergunto-me agora qual o sentido do que escrevo. Rigorosamente nenhum que queira explorar. Não é preciso querer, mal termino de digitar a última letra da frase anterior, e sei de onde vem a questão do pó. Vejo muito desmoronar-se ao meu redor. Sei que não faço parte das ruínas, apesar de ficar coberta do pó que as demolições provocam. Mas tudo é construção e reconstrução, escreve ela, quase quase apiedando-se do patético e enfadonho da afirmação basicazinha. Há a canção e o laranja do sol quando ele se deita. Posso espreitá-lo assim. E isso é belo. E isso é muito.

Tuesday, September 12, 2006

Mar de Setembro

Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
o mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves, só
alma e brancura.
felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto,
puríssimo, doirado.
Eugénio de Andrade

Thursday, September 07, 2006

Meio regresso com palavras roubadas - Carta de Neruda a Albertina

"A primeira coisa que tenho de fazer, para escrever-te, é ver se a tinta corre neste mau papel. Agora, já sei que corre, e sempre te escrevo. Porquê tão pequena a tua carta? Bom. Esta noite vou enviar-te uma mensagem telepática. Vou dizer-te: "Amo-te, Arabela". Hás-de ouvi-la às três da manhã, quando estiveres a dormir.
Na outra noite, ontem, houve um incêndio aqui, defronte da minha casa. Quase que nos queimávamos. Chamas, altas e belas, água, lágrimas da minha mãe. Eu cá diverti-me imenso. Depois choveu.
Tu estás bem no retrato, mas és mais bonita. hei-de, um dia, fazer-te um; pintarei a tua boina da cor que tem, a tua boca da cor que tem; e os teus olhos que são da cor do chá. Hei-de pintar-te sentada à janela, e, quando virem o quadro, hão-de todos dizer: "Quem é esta menina tão triste?"
Não saio, sequer, de casa. Chove, quase sempre. Passo o tempo como que adormecido. Enterrado num velho cadeirão, como a minha avó, ao lado de um braseiro, pensando que no inferno deve chover como nesta terra bendita.
Surpreendo-me às vezes a pensar em ti - e noutras coisas inúteis - mas volto logo a mim e digo com os meus botões: Ela saiu-me uma boa rês.
Esta tinta encarnada faz-te doer os olhos, Pequena? Não é verdade?

Pablo

24 de Julho"

Friday, September 01, 2006

Pré-funeral de um portátil

Eu tenho tentado. De quando em quando o computador desliga. Isto só para dizer que de facto vale a pena seguir as minhas vontades de escriba à maneira antiga e registar tudo no perecível papel, que afinal sempre me dura mais do que os textos aqui escritos e perdidos...

Monday, August 28, 2006

Ora Eça


Deu preguiça de tirar fotografia ao meu exemplar. Foi nesta viagem que se descolaram as folhas coladas. Continuo a dizer que esta gente que publica livros colados em vez de cosidos não os ama verdadeiramente.
Por vezes na vida também é assim, estamos entretidos a folhear e começam a soltar-se folhas. Fincamos o pé e revoltamo-nos, obstinadamente procurando manter folhas soltas ou tenuamente agarradas por um fio. Fechamos o livro momentaneamente, de olhar pesaroso ou carregado de raiva, agora a lombada não nos surge tão uniforme, deformada por um maço de folhas que espreitam além da linha das restantes, das restantes que nos parecem arrumadas, no seu devido lugar.
Há vários anos atrás voltava a casa inchada de orgulho pelo achado feito num alfarrabista. Uma edição d'O Primo Basílio do início da década de trinta, século passado. Nunca pensamos no XX como sendo o século passado, mas deu-me jeito salientar isso aqui, aumentando o inchaço orgulhoso e tolo. Preparava-me eu para folhear com todo o cuidado a minha descoberta quando alguém pegou no livro e o deixou cair no chão, soltando uma parcela da frágil, cansada e idosa lombada cosida. Hum... deve ter sido aí que o fim do namoro se iniciou verdadeiramente...

Friday, August 25, 2006

adenda


r_t_braga
Originally uploaded by Kanuthya.

Rua Teófilo Braga, Sines.

Uma entrada pequena para os Galegos fica mais acima, ou melhor, atrás da perspectiva do fotógrafo. Fotografia roubada sem autorização à página do Município.

Os outros galegos





Já os tinha prometido aquando dos pastéis de Belém, e a premência acentuou-se com o excerto sobre os galegos de uma Lisboa desaparecida, ou melhor, adormecida. Entretanto, a imagem dos nossos galegos de Sines é tão forte nas mentes de quem por via das andanças da vida passa por Sines, que a nossa Carolina adiantou-se no comentário ao post anterior, adivinhando o que eu aqui pretendia escrever. Como não prestar homenagem a quem nos adoça as papilas gustativas há tantos anos? Não é pouca coisa, atentem, que para amarga basta a vida, como diria meu avô. E meu avô é muito sábio, mind you. Não nos atrevamos a não seguir pois seu conselho.
Uma das coisas que me diverte é escutar as pessoas de Sines aconselhando quem se encontra de passagem a experimentar as delícias da pastelaria dos Galegos. Depois podemos seguir os pobres coitados gulosos em busca da pastelaria inexistente, porque os nativos ou adoptados da terra esquecem frequentemente que não é esse o nome do dito estabelecimento, mas sim Pastelaria Vela D'Ouro. Fica na zona velha da vila, perdão, cidade, ehm. Eu continuo a chamá-la de vila, é assim que a amo, e muitos o fazem obstinadamente, seguindo os preceitos das verdadeiras paixões assolapadas.
O respeito pelos irmãos pasteleiros é tão grande que lhes perdoamos a fila de trânsito na rua do lado, quando a carrinha pára para descarregar tabuleiros de fumegantes e olorosos pastéis, bolos e bolinhos, e ficamos sorrindo placidamente ao volante, salivando. O espaço no velho estabelecimento é reduzido para tão grande procura, mas eles já se renderam a lá ficar. É curioso que há anos abriram uma filial noutra zona, mas as pessoas continuavam a preferir acotovelar-se na velha pastelaria ao lado do castelo.
Há anos, também, fui buscar um bolo de aniversário à sua casa de fabrico mor, na zona industrial ligeira. Esperava receber o pacote das mãos da empreganda de balcão e pagar, quando sai o mestre pasteleiro e vem colocar-me o braço em cima dos ombros, explicando-me as modificações que havia realizado na receita, um bolo de massa mista de pão-de-ló achocolatado, com camadas de finíssima massa folhada entremeada com ovos moles. Saí de lá com um sorriso de orelha a orelha, tinha falado e confidenciado segredos doceiros com uma figura mais imponente que qualquer presidente da câmara.

Tuesday, August 22, 2006

Galegos


Daqui vem parte do que sou. Para aqui parece que vou, por algum tempo, daqui a algum tempo.
Neste continente galegos são mesmo os naturais da Galiza, na Lisboa antiga era nome dado a moços de fretes, recados, e moços de esquina (o que quer que tal signifique...). Venho a descobrir, com esgar triste e repelente, que em sentido figurativo, o dicionário refere o uso de galegos para pessoas ordinárias, fracas, de pequeno valor. Creio estar perdido há muito este valor do termo. Em geral o som da palavra coloca um sorriso na face. Do outro lado do oceano, porém, a palavra adquiriu sentidos diversos. Não vou verificar, refiro só o que recordo. Recordo que é adjectivo aplicado a pessoas que trabalham muito (como aliás também sucedia em Portugal, como se compreenderá num próximo post, embora actualmente poucos jovens o saibam), e a pessoas de pele clara, cabelos loiros, como a Eduarda, personagem de Riacho Doce, de José Lins do Rego, que era sueca. É natural que assim seja, galegos, minhotos e transmontanos misturaram-se, e há predominância de peles, cabelos e olhos claros. São celtas, na sua origem. Festa de romaria que se preze tem de nesta zona ter gaita de foles.
Calo-me e dou palavra a outrém. Este texto foi-me oferecido num pedaço de papel arrancado de alguma parte, talvez de uma agenda original, que em vez de frases inspiradoras apresenta para cada dia um pedacinho de história.
Só alguém que me ama muito e me conhece bem me poderia dar tal prenda. Obrigada, S.

Os senhores da água, os galegos, merecem uma nota que os separe dos que aparecem sempre na sua companhia, como negros, mulatos, mouros, etc... Por duas razões: porque em finais do século XVIII já eram 60 000, número considerável em relação à população total de Lisboa, e porque a sua acção foi importante na história da alimentação da cidade, tão importante que essa acção chegou aos nossos dias transmitindo usos que se transformaram em emblema da cidade como, por exemplo, as populares "iscas com elas". Era gente forte, muito robusta, preparada para trabalhos pesados, que tinham como característica principal serem muito económicos. Não se metiam em brigas, e nunca eram tidos como culpados de qualquer roubo ou crime. eram orgulhosos e desembaraçados e raramente ofereciam os seus préstimos, aguardavam que alguém os pedisse. Os galegos em Lisboa eram vendedores de água, moços de frete de corda ao ombro, moços de lojas e armazéns, criados de hospedarias e casas particulares, cocheiros, trintanários, varredores de ruas e empregados das tabernas e casas de pasto. foi nesta actividade, e na de aguadeiro, que se tornaram conhecidos e que se enraizaram na cidade. Trabalhavam muito, viviam economicamente edepois de juntar algum dinbheiro, partiam para as suas terras e compravam um terreno. Em 1801 houve uma tentativa de os expulsar por causa da guerra mas o Intendente Geral da Polícia avisou que, expulsando-os deixava de haver quem servisse a cidade. Foram deixados em paz e continuaram. Em relação aos criados portugueses, mais subservientes, os galegos eram mais orgulhosos, mais limpos, mais fiéis e mais sóbrios. Quando chovia e a lama deixava as ruas da cidade em estado lastimável, eram eles que carregavam as pessoas. Os que vendiam água iam encher as suas barricas decoradas aos chafarizes e depois apregoavam a "áááágua freeesca, frisquinha, quem quer beber áugua freeesca?". vendiam cada copo de água a 5 réis. [...]

Alfredo Saramago, Para Uma História da Alimentação de Lisboa e Seu Termo

trintanário - lacaio que vai ao lado do cocheiro e que abre a portinhola da carruagem.

Thursday, August 17, 2006

momento religioso - cumprindo promessas



Com estas coisas não se brinca. Promessas são para ser cumpridas. O corpo prega partidas, mas um dia desses apanho-o de jeito, e depois conversamos...
Polvilhar. Belo verbo. Primeiro o açúcar em pó.


Canelando. E salivando, perante a indiferença dos marmanjos que se preparavam para se banquetearem...

E com esta brincadeira, enquanto tentava recompor-me com água com gás, isto foi o que restou dos Pastéis de Belém... De estômago cheio e limpando o açúcar polvilhado da barba rala, o meu irmão garantia-me, a título de consolo, que os pastéis de nata dos Galegos são ainda melhores. Como Siniense (sim, escreve-se assim) honorária que sou, dei-lhe toda a razão. Sobre os Galegos, os de Sines e outros, notícias em breve.

Mini-actualização a pedido da amiga Ali (ou obsessões pasteleiras)


Bom, foi a melhor foto que pude achar :) Este bom bocado está em formato de tarte familiar, mas é o que mais se assemelha ao doce a que me referi. Na foto tem massa folhada, ficando ainda mais parecido com o pastel de nata, mas o da tal pastelaria é feito com uma outra massa, e o recheio também tem diferenças de sabor. Existe uma infinidade de receitas, algumas com côco, amêndoa e frutas cristalizadas (argh). Curiosamente, só encontro o bom bocado à venda em Lisboa. estou certa de que existe noutros pontos de Portugal, mas só o como no Príncipe Real :)

Wednesday, August 16, 2006

O pombo cumpriu o seu papel...


...mas a fotógrafa inepta não quis ligar o flash para não chamar ainda mais a atenção dos empregados. Não resultou, e o pombo foi expulso do café ao Príncipe Real na mesma.
Há quem lhes chame ratos alados. Não vou tão longe, o meu amor por animais de toda a espécie é conhecido ( os ratos podem ficar no campo, onde pertencem, felizes alimentando-se de grãos, escavando tocas e fugindo de bichezas maiores - sempre me parece um destino bem mais épico e natural que fugir a uma ratoeira ou veneno - obrigada pela atenção e não voltem, por favor).
Acho curioso o cognome, porque logo ali ao lado do Príncipe Real fica o Largo do Rato.
Toda esta conversa pretendeu provavelmente distrair-vos do facto que na vitrine pasteleira se encontram São-Marcos (os rectângulos recheados de creme branco) - isto é, os que sobreviveram à fúria gulosa do meu acompanhante.
Já eu prefiro outra especialidade desta pastelaria - os Bom Bocado. Se puderem, não percam. Um manjar. Tive de os comer com o olhar, mas não faz mal, esse também precisa de alimento.

Eu tentei

mas não dá.
De spam fica só a recordação gloriosa dos meus Monty, estes sim, a não perder.





Por cá volta a verificação. E como há que sofrer, voltam os torturantes caracteres retorcidos, daqueles que para serem decifrados exigem torcer o olho. Rai's part'a pandilha.

Monday, August 14, 2006

Bilhete a Lisboa


Diz-me das tuas fontes de pedra escurecida, dos cafés onde entram pombos sem pedir licença, que empregados de mesa enxotam julgando que os clientes se importam, dos eléctricos amarelos que passam soando sino, ainda passam, penso sempre que os vejo e ouço, ainda passam, penso, e pergunto-me até quando passarão.
Diz-me das escadarias estreitas, intermináveis que enfeitam o teu corpo, desta confidência tola feita entre duas fêmeas, em que uso pulseiras no tornozelo e tu escadinhas como enfeite, e, como gajas que somos, sorrimos das nossas vãs vaidades.
Diz-me como te manténs de luz banhada e céu azul, nessa sempre perpétua e renovada surpresa aos meus olhos; como atravessando as tuas pontes, que são os teus braços estendidos, vejo um manto cinzento que te envolve como um espectro mau, e depois, como?, diz-me, já perdida em ti, ergo sempre os olhos para um azul tão limpo. Tão azul.
Diz-me se guardas em algum recanto teu as cartas de amor que os poetas te vêm escrevendo desde tempos imemoriais.
Se nada disto me quiseres dizer não me inquieto, segues contando-me segredos, mesmo quando pareces estar mergulhada no teu silêncio.

Friday, July 28, 2006

até logo


Iço velas na minha mente, apesar de a viagem ser feita com asas rasgando céus. Isto se a greve no aeroporto não continuar.
Espero voltar (talvez cá passe às golfadas durante as duas próximas semanas) com outras palavras que não (pelo menos não só) as do meu dia-a-dia. A voz (ainda que seja a voz escrita) dá vida, a palavra sabe parir o pensar, e espero transcrever pedaços das vozes que me povoam, para que também esses seres possam contar a sua história e assim viver. Não temam, as vozes não se devem a esquizofrenia, apesar da minha pouca capacidade de escrever o que quer que seja nesta hora.
Vou ver o meu oceano. Muitas vezes, quando o vejo, lembro que é o mesmo, apesar da latitude mais altaneira, que me viu nascer. Não o encontrarei revoltoso de amuo invernal, mas é meu na mesma.

Thursday, July 27, 2006

da arte da encadernação


Quem teve a ideia de encadernar livro colando as folhas não lê, certamente. Se o faz, lê palavras soltas no centro da página, só para disfarçar, eventualmente enquanto passa a tipa de ar intelectual que ele tenta impressionar, passeando-se de livro na mão ou sob o sovaco. Talvez resulte, pelo menos durante algum tempo, até a tipa perceber que deseja ser verdadeiramente conquistada por um ladrilhador ou limpa-chaminés pertencente a uma organização a favor dos livros cosidos à moda antiga, que se possam folhear vezes sem conta, sem medo, e sem ficar com páginas soltas na mão.

Tuesday, July 25, 2006

E Deus criou os vizinhos


Adão e Eva pensaram que não lhes podia suceder nada pior, caídos em desgraça que estavam. Afinal não era tão mau assim, continuavam a dispor da verdejante natureza que lhes fornecia alimento, escutavam aves irrequietas rasgando céus, deliciavam-se com aromas de flores. A vida era bela, de facto. Aí, Deus inventou os vizinhos.
Nunca está nada bem.
Se você faz barulho desnecessário (quando os raios de sol ainda espreitam) em tarefas absolutamente dispensáveis como a montagem de uma estante, pregar um - sim, um - quadro na parede ou aspirar a casa, é um desordeiro desrespeitador;
se está interessado em ter a sua própria parabólica e decidir acerca do tipo de lixo audiovisual que escolhe consumir, então está a transformar os alinhados telhados em plantações de cogumelos, mesmo que a sua antena não seja visível por nenhum olho vesgo;
se separa o lixo é um chato de primeira, um picuinhas tree-hugger e fanático:
se não separa é um atentado à politicamente-correcta-que ninguém-de-facto-cumpre-moderníssima ecologia;
se faz barulho durante o amor é um desavergonhado;
se não faz, é um chato sensaborão sem vida sexual.
E se você não é nada disto, se é um tipo discreto que não aparece muito, não passa três horas diárias falando com os vizinhos reformados, bem, então certamente você é um psicopata que enterra vítimas no jardim das traseiras (sim, sim, sempre suspeitámos de algo, era um sujeitinho estranho).

O respeito é fundamental. Concordo. Assino por baixo. Mas vizinhos assim não passam de amadores junto da Dona M., que pelos vistos também tinha muito respeito por mim. Ela tinha tanto respeito por mim que se dedicou a preencher com cores garridas as páginas da minha vida que lhe pareciam deamasiado em branco. Afinal de contas, eu não era uma personagem qualquer, e como tal merecia um enredo à altura, enredo este que a Dona M. generosamente partilhava, no seu afã de criadora, com pessoa que não suspeitava ser minha amiga. Um namorado longínquo era, segundo Dona M., um tipo lingrinhas. Eu ficaria bem servida, isso sim, com o seu filho mais velho, que ela fornecia num pacote que incluia curso de engenharia e jipe. O ponto alto da sua criação virava a minha vida do avesso. Descobri petrificada ter sido adoptada por aquela a quem chamava mãe (as evidências estão lá, veja a senhora bem, as duas não se parecem nadinha). Fui informada ( e ele também) de que meu pai enviuvara (antes dos vinte e três anos, que há quem enviuve sem casar) e a actual esposa me tinha criado como própria filha. Tendo em conta que uma pessoa que conheço convenceu, com sucesso e durante bom tempo, o irmão de que este tinha sido recolhido de uma caravana de ciganos que por ali passara, sendo então adoptado por aqueles a quem chamava pais, congratulo-me por ter álbuns de fotografias minhas acabada de nascer. Quer dizer...algo aproximado disso...

Friday, July 21, 2006

segunda viagem

Actualização tardia

O medo maior é o de sentir medo.
Porque não há medo então de me lançar e relançar neste livro, já saboreado, devorado, entranhado há tanto tempo? É que eu...bem, eu sinto medo de livros, assim como amo e abomino outros. Porque não os vejo como entidades diferentes de seres, com suas manias e qualidades. Não sinto medo deste. E acima de tudo, não sinto medo de vir a sentir medo.
Desta vez aventurei-me numa tradução portuguesa. Esta tem coisas boas. Mas fazem falta as palavras originais deste anglófono tardio, nascido na Ucrânia, de origem e base cultural polaca, que só aprendeu a língua inglesa após os vinte anos. É obra. É maravilhoso. Não me canso dele. Fez-me falta sobretudo encontrar uma das frases que comigo ficou sem esforço, gravada. A força é apenas um acidente que emerge da fraqueza de outros. Isto recorda-me também que é mais..."fácil" ser profundo em inglês do que em português. Não há qualquer afirmação de superioridade aqui. Apenas sensação e opinião. Palavras que ilustram canções soam bem a ouvidos anglófonos. A ouvidos hispânicos ou lusos fariam rir.
Este livro inspirou também um dos meus filmes preferidos, em absoluto, Apocalypse Now. Para amantes das obras em questão, vale a pena ver o documentário registado pela mulher de Coppola aquando da interminável e quase assassina realização do filme acima citado. Chama-se Hearts of Darkness. Também ele uma viagem ao nosso lado mais escuro.

Tuesday, July 18, 2006


Voltava conduzindo, em zona de lombas que forçam a lentidão. Um bom pedaço longe de mim vi um cachorro na estrada, junto de um autocarro que aguardava que os passageiros tivessem os pés bem assentes no seu destino. Tive uns instantes de preocupação, até verificar que o cachorro havia desaparecido da zona de perigo. Um pouco mais adiante, cheguei à pequena rotunda perto de casa, o cachorro estava distante, correndo para atravessar a estrada na passadeira. Ri e achei piada, seguindo para o portão, de comando em riste. Quando estaciono, o mesmo cachorro está ao lado do carro, aguardando que eu saia. Muito deve ter corrido para chegar ali, ele que estava ainda a distância considerável do carro...Terá corrido ainda mais para ainda chegar a tempo de apanhar o portão aberto.
Pronto, cá vamos nós de novo... Estou proibida pelos que me são próximos de falar com cachorros e gatos que passem por mim na rua, sobretudo os primeiros, pois a hipótese de me seguirem é considerável, e as minhas companhias estão sempre a puxar-me para o lado praticozinho da vida, que sempre me escapa.
Ainda dentro do carro, verifico que o cachorro, apesar de não ter coleira, terá certamente dono. Sinto-me incrivelmente triste pensando que em Portugal essa não seria a minha conclusão, de todo.Tem um peso normal e bom aspecto. Pronto, assim já o poderei mandar embora de consciência mais tranquila (yeah, right...). Está naturalmente ofegante, faz um calor terrível, e pelo menos água gostaria de dar-lhe, mas já imagino o que depois se pode seguir, que inclui a minha expulsão do condomínio por estimular a presença de um animal na oh so lovely residência... Fui mandando o cachorro seguir seu caminho carinhosamente, o que como calculam não é a forma mais eficaz de o fazer. Eu primo pela ineficácia. O cachorro não só me seguiu com olhar lânguido até casa, como enfiou o focinho entre a porta e a arranhou para entrar comigo. Nos sacos de compras eu não trazia nada que o pudesse cativar, e fui eu quem o viu, não o contrário, na estrada. Ele só pode ter escutado os meus pensamentos. E tinha algo para me dizer, estou certa. Badamerda a praticidade...


Pena o cheiro não viajar através de cabos e modems. Admiro a tenacidade desta plantinha, a força com que uma pernada solitária se agarra à vida, o caule que busca na terra seus nutrientes. É uma boa parideira, mesmo tendo anca estreita. Pouco tempo depois, o vaso está repleto de rebentos. Em qualquer altura do ano. Não deixa de ter o seu capricho, porém. Vive de água, muita, muita água, exige-a, faz demandas, bate o pé e amua, murchando copiosamente se o líquido lhe falta. Por isso a compreendo tão bem.

Monday, July 17, 2006

Falta aqui algo. As pilhas acabaram pouco depois da chegada a St. Gilles, e assim a máquina já não registou mais das casas mal cuidadas, nem do calor sufocante de Arles, onde entrei num suposto espaço Van Gogh repleto de lojecas turísticas que vendem panos da Provença, saquinhos de alfazema e postais, milhares de postais. O corpo recusa-se tenazmente a colaborar em certos passeios, ameaça parar a qualquer instante. Nasci nos trópicos,amo sol e calor, mas tenho dificuldade em viver neste clima, para mim impiedosamente frio no Inverno e ignobilmente quente no Verão. Não de um calor que conforta, embala, que acorda enzimas e faz correr nas nossas veias felicidade, mas que sufoca.
Ocorre-me facilmente que o que falta são fotos de cães. Faço-as sempre que cometem o erro de me colocar uma máquina nas mãos. Dou-me conta que estou prestes a fazer um elogio a terras gaulesas. Verifico, a pedido de terceiros, que a minha fronte está quente, mas não é febre, garanto. Agora sorrio por ser difícil fazer fotos de cães nesta terra. Porque é muito raro encontrar um cão só deambulando pelas ruas. Eles tratam bem os cães. Pontos positivos no karma.Pronto, já chega de elogios.

O tempo serrou as pedras que foram carregadas e montadas no século XII, mas o muro continua a providenciar protecção ao lençol estendido. Ah, o tempo não... foram as Guerras da Religião que ironicamente a foram devastando, de 1562 a 1622.

Do lado de lá, descubro que ficam sempre anjos a velar, por mais sós que nos creiamos.

Alguém pensou bem que a pedra envelhecida não valia menos, merecia ela também uma senhora alva velando. Aprecio, pois a minha cultura de origem valoriza os mais velhos, apesar de a guerra subverter tudo aquilo em que cremos, sobretudo nós mesmos.

A senhora de alva pedra espreita o busto de Clemente IV, filho desta terra, papa no século XIII. Curiosamente, chamava-se Guy Foulques, e avisam que não deve ser confundido com Guy Fawkes. Não ganhem juízo, não, que não é preciso...


A igreja com portas de uma cor tão minha prometia, mas lá dentro estavam noivos e convidados. A noiva, que encontrámos por uma viela vizinha, ia vestida de vermelho, como a porta. O meu amor achou estranho, no seu jeito de achar algo estranho, que dura um minuto e trinta segundos e depois some-se no ar. Eu achei naturalíssimo. Já vos disse que sou escorpião?



estender o braço e alcançar o Atlântico



Uma espreitadela a Alfama, aqui





Friday, July 14, 2006

Pronto, é só mais este.
Prometo.

Tudo isto existe, nem tudo é triste, mas tudo, tudo isto é fado - IV



Powered by Castpost
Passeio Fadista - Argentina Santos

Quem acha que o fado é tristeza, melancolia, desgraças de faca e alguidar e marialvas não percebe nada. É que, sendo também tudo isso, é muito, muito mais. E não tem de ser triste.
Não ficou a casa entre Graça e Alfama, os parapeitos coloridos, os varais de roupa estendida. Aqui alguém entra e diz que ma roubariam toda, e as molas também que os tempos estão difíceis.

Se sonhar em português e houver uma luz única, um rio que já é mar num encontro de cacilheiros cruzado, espero poder entrever, passando nas vielas alguma Rosa dos limões ou Júlia florista. Se o sonho tardar, posso sempre escutar o que da Argentina ficar.

Thursday, July 13, 2006

Tudo isto existe, nem tudo é triste, mas tudo, tudo isto é fado - III

Alfama, 1940, João Martins



Powered by Castpost
Lágrima- Argentina Santos

Foi a Amália que escreveu a letra. O Camané, então ainda desconhecido (pelo menos do grande público) encontrou um dia a senhora dona Amália. Deslumbrado buscou palavras para adereçar à sua musa. Esvaiu-se a voz que hoje tantos apreciam no pobre coitado, só conseguiu balbuciar que gostava tanto dela. Ela respondeu-lhe: Pois, filho, mas isso todos gostam...
Nada de mal entendidos, que ela no palco era humilde, e pedia muitas palminhas. Até pessoas que detestam fado adoram a Amália. Mas a Lágrima, como a Argentina ninguém a canta.
E pensar que, ah ironia, foi num documentário francês que a vi pela primeira vez...

Wednesday, July 12, 2006

Tudo isto existe, nem tudo é triste, mas tudo, tudo isto é fado - II






Powered by Castpost
Argentina Santos - Vida Vivida


Os amores difíceis são muito melhores, e estive convenientemente zangada com Lisboa durante um tempo, para depois abrir renovadas portas, consuma-se a paixão à descarada. Devo a renovação a um outro amor. Sonhei com ele viver entre Graça e Alfama, encher os parapeitos de janelas de flores de cores bizarras, estender a roupa em frágeis varais de chinela no pé. Sonhei até ver passar um dia, distraída dos tempos modernos, uma varina a caminho da ribeira, uma Rosa que vendesse limões ou uma Júlia que carregasse flores murchas. Então eu entraria na cozinha e abriria o pote com moedas e dar-lhe ia todas, a qualquer uma delas.

Esta senhora nasceu em Alfama. E em Alfama seguiu vivendo e cantando. Foi de poucos discos, menos aparições, poucos instantes em película registados para posteridade. Era convidada de honra na Grande Noite do Fado, mas saía do palco apressada, tinha que voltar para o restaurante, fritar os pastéis de bacalhau e cantar. Consta que só canta na sua Parreirinha de Alfama quando quer, segredou-me um francês que diz ter tido a honra de escutar a caprichosa diva. Eu cá digo que é honesta e que para o fado não se marcam horas.

Aproximando-se a passagem por Lisboa (ou Lesboa, como diria ela), vai crescendo em mim uma certa frustração, por saber que o meu sonho de a ouvir cantar ao vivo muito dificilmente será concretizado. O tempo é pouco, ou se calhar como ela canta, o tempo fica e a gente é que vai passando.

Tudo isto existe, nem tudo é triste, mas tudo, tudo isto é fado - I


Powered by Castpost
Argentina Santos - Amar Não é Pecado


Para os que não amam fado, a solução é simples: basta não accionar o play. Mas devo dizer-vos que se é esse o vosso caso, estão em pecado mortal. Há sempre tempo para redenção.
Esta senhora é embaixatriz do início do meu amor pelo país em que nasceu, há mais de oitenta anos. Foi ouvi-la e a minha postura de nacionalidade única foi pelo ralo abaixo.
Meu pai já me sondava há tempos, com o Carlos do Carmo. Na verdade, há muitos poucos fadistas homens que eu ame ouvir. Pouquíssimos. Mulheres, são várias. Mas esta senhora é única.
Nos últimos tempos, o fado voltou à moda. Quem diria... E regressa sobretudo (no sentido comercial) em vozes de meninas que seguem uma tradição inspirada provavelmente na Maria Teresa de Noronha, de família bem posta na vida. Quando a Noronha o fez, foi novidade. Porque o fado, nas suas raízes, está sobretudo associado a mulheres de reputação duvidosa (não sei de que duvidavam eles, mas lá que apareciam muitos tentando descortinar mistérios, ai lá isso apareciam). A história da mítica Severa ficará para outro dia. As coisas mudaram e hoje as fadistas já não são mal vistas. Bem ouvidas foram-no sempre, mesmo nos primórdios. Hoje em dia cantam-no meninas-bem. E algumas até o cantam bem. Nada, absolutamente nada contra.

Há mistérios na vida, e o saber cantar o fado é um deles. A boa voz tem muito pouco a ver, em alguns casos esta premissa ausenta-se, some-se nas vielas onde ainda mora gente, por quanto tempo desconheço. Quanto tempo até que Lisboa esteja desumanizada por completo? Em que se resuma a tascas de frequência turística e escritórios de seguradoras e advogados? Mas, dizia eu, a voz é relativa. Alfredo Marceneiro prova-o com excelência.



Tuesday, July 11, 2006

calemas


Admiro as vagas calamitosas que não cedem ao preceito social de se fazerem anunciar previamente, somente chegam e levam, lavam, tudo arcam com elas. Trágicas, aparentam crueldade, mas recordam a nossa dimensão reduzida.
Com as calemas contamos, porém, contamos em ambos os sentidos. Contamos porque sabemos que são certas, que vêm, inexoravelmente. E contamos também seis ondas mais modestas que preparam caminho nas águas para a sétima, a calema convidada de honra, ocupa todo o espaço no areal.
Em português falamos sempre de mar, mesmo sendo esse mar oceano. O mar aqui é imóvel, apenas ondulado por brisas, não fala comigo, não ruge zangado,não dança em alegria desenfreada, as ondas vêm mansas sem salpicar os rostos dos transeuntes, oferecendo-lhes a mais bela água benta.


(foto de Gonçalo Pinheiro)


Ela tinha uma relação tão às avessas com o tempo que chegou atrasada ao próprio nascimento.

Monday, July 10, 2006

Mr Bones

Pronto, confesso. Que li o Catcher in the Rye num ápice porque tinha na cabeceira um livrinho de Paul Auster.
Todos os cães que passam pela minha vida deixam a sua marca indelével. Se me refiro a eles como meus é por mera prática de discurso.


Foi um autor namorado de longe durante um bom tempo, na antecipação. Concretizei o caso há uns dois anos; até agora houve poucos encontros, mas memoráveis. Prometo ser-lhe fiel para sempre. Porque é preciso acreditar que estas coisas são eternas, mesmo que o não sejam.