Saturday, July 08, 2006

Nuvenzinhas negras...

Hoje foi inferno astral.

Vi tudo

Eu que tento ver, como Escorpião em recuperação, o mais


possível.

Desde notícias de vizinho armado (em parvo e com revólver), maus tratos a animais, passando por cartão caducado, estando o substituto a mil e tal quilómetros, enfim... Enfim escrevo o tal querido diário de que sempre fugi. Um dos pontos altos do dia foi a conversa surreal mantida com funcionário da empresa que mais queixas reúne de clientes. É obra e deviam receber um prémio por tal feito. Eu sugiro um inspirado no How to Irritate People, dos meus Monty Phyton.

(Final no post abaixo...)

...adocicadas no final

Combati a nuvem de forma algo perigosa. A cozinha é arte a ser exercida somente com boas energias. Felizmente ainda não há notícias de efeitos nefastos, as digestões decorrem tranquilas e felizes.
As fotos não são obviamente minhas, não houve tempo para elas antes de se passar ao ataque.
Um toque picante de xô pra lá coisa ruim nuns




e nuvens doces

flutuando em algo parecido a isto

Thursday, July 06, 2006

Sem Senso (dada a natureza ambígua e confusa do post, aconselha-se um qualquer paliativo. Se gostar de coisas chatas, muna-se de café)



Há muito quem se irrite e insurja contra o uso da palavra estória. F.J.V. é um exemplo, mas há muitos mais defensores aguerridos da lusa língua.No exemplo citado há senso, do qual no entanto eu pareço estar desprovida.

Ora eu, que muito me irrito com várias coisas (pois que sou naturalmente dada à irritação própria das criaturas pouco evoluídas - provoca-me urticária ouvir uma mulher dizer "obrigado", quando a palavra me é dirigida costumo responder que não se sinta obrigado a nada; tomo kompensan quando ouço falar na perca, mormente nos telejornais, entretanto o meu namorado olha-me de lado desejando que eu não perca a paciência e ouve-me repetir pela décima terceira vez nesse mês que a perca é um peixe, porra!, e em seguida toma ele um kompensan, que com o estômago não se brinca)- dizia eu, adoro a palavra estória, usando-a porém só em certos contextos - básica e essencialmente escrevendo ficção.

Em dicionários antigos a palavra tinha direito a lugar. Alguém houve que sugeriu até a sua adopção para uma mais eficaz diferenciação do termo história,algum admirador do anglicismo, perturbado com a louca e abundante polissemia presente na língua portuguesa. No fundo o tipo queria seguir o exemplo do inglês, com a distinção entre history e story. Já eu adoro essa polissemia, é fascinante e enriquecedora (parece contradição, mas sigamos adiante), até porque o facto de em português (bem mais do que em diversas outras línguas) uma palavra poder significar uma série de coisas não impediu que complicássemos ainda mais a vida do pobre estrangeiro que pretende,com carinhosa obstinação, aprender a língua lusa, ai pois não. Damos-lhe com força nos sinónimos, imensos, intermináveis, usando uma carrada de termos diferentes para nos referirmos à mesma coisa. Voltando ao tal senhor que quis a distinção história/estória: sim, é óbvio, o gajo pretendia que se usasse história para a ciência, naturalmente, e estória no sentido narrativo, particularmente para designar a de cunho tradicional, popular. A certo ponto, já os dicionários, continuando a incluir o termo estória, comandavam que consultássemos a história, letra h, vá, vire as páginas do calhamaço. Certo, certíssimo, tudo bem por mim. Teria estado tudo bem para parte dos linguistas se o termo estória tivesse permanecido dentro de um domínio de código específico e restrito. Dos registadores da literatura de cunho oral, talvez... João Guimarães Rosa, porém, ajudou na fuga da prisioneira, publicando Primeiras Estórias (1962), Tutaméia, subtítulo Terceiras Estórias (1967) e Estas Estórias (1969, já a título póstumo), escrevendo, sobranceiro, "estória não quer se tornar história". Ah, gentinha desobediente...

Rosa é apenas um exemplo, entre muitos, muitos outros. Na verdade, essa contenda não se inicia no Brasil. Na época medieval, a palavra era grafada de muitas formas diferentes, como é normal que aconteça numa língua que ainda não sedimentou normas ortográficas - historia, hestoria, estoria, istoria, estorea (assim mesmo, sem acentos, deixem lá as almas dos copistas medievais em paz). Inadmissível toda esta confusão, clamam os linguistas. Bem, os meus alunos nunca se mostraram confusos em relação a tudo isto, e as estórias surgiram-lhes diantes dos olhos, nos manuais que politicamente correctos inserem autores lusófonos de outras paragens. Se explicarem, eles entendem. Garanto. Os que recordo em particular eram garotos de doze anos. E não passaram a escrever estória...

Um aluno que use em exame escrito a estrutura sintáctica de Saramago será muito provavelmente chumbado; se tiver o azar de tentar sua sorte escrevendo num estilo semelhante ao de Lobo Antunes verá a sua caligrafia sublinhada com irregulares linhas vermelhas de censura, a não ser que se limite ao lobo antonismo das crónicas. Misturo alhos e bugalhos, talvez.
O que sei é que coexistem em mim multiplicidades lusófonas, cada qual com lugar a registo próprio.Quando escrevo pouco controlo, são as personagens que me escolhem, não eu a elas, se me atrevo se quer a lhes querer mudar os nomes que me sugerem, insurgem-se, mostram-me as linhas das suas mãos e destinos, que tenho de ler e seguir. E se tiverem estórias, além de histórias, para me contar, não serei certamente eu a calá-las. Até porque eu gosto de estórias. E de estoriar. E gosto muito de história. E de histórias, também.


Actualização: escrevi tanto e ainda assim omiti coisas essenciais (para mim, claro). Continue-se nos comentários :)
Infâmia! com tanto paleio, como diria a Carolina, do Sardinheiras, não mencionei nomes com quem cresci, e que me fizeram crescer. Como me atrevi a deixar de fora o Luandino Vieira... e as Estórias Abensonhadas do Mia Couto?

mal perder vs mau perder

O Francisco lembra o conhecido estrabismo deste senhor.





'No imaginaba llegar hasta acá'

E que tal umas coisas destas?

Wednesday, July 05, 2006

Reflexão Inútil #321



E de repente, todos têm um blog, com especial destaque para aqueles que nunca gostaram de escrever. Nada de mal entendidos. Aqui não há recados para ninguém, muito menos para os que me costumam visitar. Tenho em mente outras pessoas. Têm, absolutamente, direito a ter um blog, um querido diário,um pasquim com secção de correio sentimental, e até, ui....uma secção de poesia. Enfim, aquilo que quiserem. Mas esta aqui, nas suas imensas limitações, tem algumas dúvidas. É que eu pensava que, certamente, naturalmente, há muito quem goste de ler sem gostar de escrever. Meus neurónios acompanham. O que eu não sabia é que afinal é possível gostar de escrever e detestar ler.

Tuesday, July 04, 2006

água


Para limpar, teria de ter sal. Directa do mar ou do saco lacrimal.

Monday, July 03, 2006

Como dizia a Quel, na hora de xingar os adversários toda a gente se entenderia

Bem lembrada pela Jo Ann (entre mes lignes, aí ao lado, nas linhas babilónicas) esta publicidade :)

Caramba


bandeiras lusofonia
Originally uploaded by Kanuthya.




A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria,
Tenho mátria
E quero frátria.
Caetano Veloso



Já a 1 de Fevereiro de 2006 (raios partam o html)recordei como nasceu a paixão. Este fim-de-semana perseguiu-me a reflexão, insistente, impiedosa, das que não dão descanso. A amiga Ali questiona se outros povos colonizados apoiam os seus colonizadores da mesma forma que os moçambicanos o fazem. Ah, eu atrever-me-ia a dizer que noutros locais talvez o façam mais ainda. Moçambique sempre teve uma forte influência anglófona, mas isso é assunto para outros tempos. É complexa a questão, e não raramente encontramos uma relação de amor-ódio nestes meandros. Diziam-me ontem que também certamente os países de expressão francófona festejam em uníssono com terras gaulesas. Lamento, mas creio não existir comparação possível com o que se passa no mundo lusófono. E hoje, na ressaca da meditação eufórica de fim-de-semana, outro amigo reafirma amor, carinho e fascínio por esta língua, ele que fala a que chamamos la bella lingua.
Nunca esqueci uma crónica de Mia Couto, que lamento não poder recuperar para dar como referência aqui. Estava-se então no início da década de 90, falava-se crescentemente na lusofonia, nos PALOP, nos acordos ortográficos. Mia, na sua sabedoria, desejava um encontro, em vez de um encontrão. Já houve encontrão que chegasse. Prepotência de mãos dadas com a ousadia, vergonha, actos inomináveis, assassinato, escravatura, subjugação sexual. Houve também (talvez excepções felizes)humanismo, coração aberto, miscegenação que partiu do coração e não da força, mistura de corpos, odores, sabores e sons.
Quero minha mãe assim, com muitos, muitos filhos. Não há nada como ter irmãos.



Friday, June 30, 2006

post scriptum tecnicozinho


Retiremos pois a verificação de palavra nos comentários, pelo menos até que eu parta em viagem e não cá esteja para apagar cruelmente anúncios de vital importância para as vossas vidas.

exageros



A leitura era acompanhada de angústia, convinha terminar logo. É que a sempre referida depressão do Holden espreitava-me a cada linha. Sendo a minha (e de muito mais gente, naturalmente) relação com livros visceral, alguns há que me provocam danos mais ou menos permanentes. Experimentei um atrofio inédito lendo A Convidada, de Simone de Beauvoir, uma mini-depressão com Os Demónios de Dostoievsky (sigo ordens médicas e só leio russos - bem, na verdade, quase qualquer autor do leste europeu - muito espaçadamente), e pesadelos horrificantes com Beloved, de Toni Morrison, mas a esta última regressarei em breve e sempre, é uma questão de pele e amor.

Nada de tão sério com The Catcher in the Rye, (em Portugal primeiro traduzido como Uma Agulha no Palheiro e , mais recentemente em reedição renovada, À Espera do Centeio). Num livro com linguagem simples, reconheço a dificuldade em traduzir o título, mas...Uma Agulha no Palheiro??? Tenham juízo, pá. Vêem? Holden pegou-me a intolerância que tanto combato. Falho, na esmagadora maioria das vezes.

Existe somente algo que não irrita Holden na vida, as crianças são as únicas que escapam do seu adjectivo favorito - tudo é "phony" (hoje em dia algo preterida em relação à variante phoney), só crianças lhe arrancam sorrisos, a ele que tem dezasseis anos.

(tira de Annette, em www.vskole.com)

Quando o questionam sobre o que realmente desejaria fazer na vida, apenas uma coisa lhe ocorre - desejava ser o catcher in the rye, num jogo de apanhada num campo de centeio, desejava ser quem os apanhava e impedia de cair no abismo que limita o campo de centeio.

(catcher in the rye, Diana Bryan)

Thursday, June 29, 2006

Ciganeando Clarividências

by Elizabeth Eden

A década em que nasci nunca me parece demasiado longínqua. Atravessava então Manu a ponte quando figura de negro vestida a pára, mira-a nos olhos e pergunta,

Posso ler-lhe a mão, senhora?

Eu não lhe posso pagar.

Há tristeza na resposta, nesta simples resposta que se dá a tantos que nos procuram vender objectos indispensáveis - rosas de papel que nunca morrem, tapetes orientais feitos em Alcochete - originais, minha senhora, tecidos à mão como já não se vê por aí - Timex de cinco euros e meio. E há a sina, também.

Não me pague, não quero. Só lhe quero ler a mão.

Manu estende-a. De mãos pouco sabia, só que se um dia as unhas ficassem roxas a sua morte estaria para breve. Nisso enganou-se, Manu clarividente, posso garanti-lo, pois conhecia-a, vi-lhe unhas púrpura e viveu ainda muitos anos. Mirou também ela nos olhos aquela sua irmã de adivinhação, senhora de artes diversas.A ela, Manu, os presságios chegavam através dos sonhos.

Leonel guardava distância das duas fêmeas. Narradora sou, mas não saberei dizer ao certo que lhe ia no pensamento. Para elas não olhava, disto estou segura, não é de ficar observando os outros. Ter-se-á distraído com algum pássaro, quiçá, bufando impaciente pelo contratempo que o detivera. Ele segue o relógio, tem horas precisas para tudo. Sei, porém, o que pensou às primeiras palavras da cigana, que escrutinava as linhas na palma de Manu.

Há bem pouco atravessou as águas, veio de longe. E deixou tudo atrás de si.

Consigo, apesar de não ter lá estado, vislumbrar o sorriso irónico de Leonel - ora, estamos sobre a ponte de Santa Clara, e atravessamos as águas todos os dias...

Manu, contudo, escutou uma verdade absoluta. Fugira da guerra noutro país, deixando tudo para trás, e ali chegara viajando sobre as águas muitos dias. A curta espreitadela na sua vida registada na pele da mão bastou-lhe para, daí em diante, ter com os ciganos uma relação ímpar. Mais tarde, enquanto outras senhoras faziam avisos terríveis aos netos sobre aquela gente que recusava lei e roubava os meninos maus que não comiam a sopa, Manu parava com a neta pela mão para ter longas conversas com as ciganas que encontrava pela cidade.

Tantos anos depois, Manu, estou bem mais a sul desse rio que atravessavas com o Leonel. Falta já pouco para que deixes o corpo que nos serve de vestido nesta vida, e que por vezes tanto nos pesa.O frio é dilacerante esta manhã, num Alentejo conhecido pelo seu calor. Busco o café, este sim, quente, que me trará para este mundo depois da noite mal dormida. Aproximo-me da janela. O campo está vestido de geada branca. Há somente uma árvore, debaixo dela dois cavalos, cobertos com mantas.

Chegaram os ciganos, Manu, uma vez mais, perpétua caravana. Tapam os seus cavalos de noite, deles dependem para andarilhar mundo afora. O chefe do pequeno clã já preparou a fogueira, acompanham lá de fora o meu ritual e tomam o seu café. Há crianças nuas correndo indiferentes ao frio. Também eu não sentia frio em criança.Aqui estivesses, Manu, pularias para a carroça que em breve partirá, sentar-te-ias ao lado da mulher, e partilharias clarividências.

*texto originalmente publicado em http://herzog.splinder.com, sob o título de Gli Zingari.

Wednesday, June 28, 2006




Fugindo por momentos aos grandes mestres e seus honrados seguidores na arte do acordeão, acordeon, sanfona, concertina, fisarmonica, creio ainda popular em Portugal a figura do acordeonista que anima os bailes populares, anunciado em cartazes de cores berrantes, afixados nas montras de qualquer tasca e mini-mercado que se preze.
No tempo de meus avós (e ainda de meu pai, quando ele em criança passou um tempinho em terras lusas), a rainha do instrumento era a senhora dona Eugénia Lima. No Algarve era particularmente apreciada. Ora não é o acordeão o instrumento mor dos tradicionais corridinhos? Pois é. Em Albufeira o Zé era assíduo dos saraus de Eugénia Lima. Permanecia em êxtase enquanto a então jovem Eugénia manuseava teclas, botões e foles, executando com primor a sua arte. Terminado o sarau e recolhidos os aplausos pela diva, o Zé confidenciava então, a quem estivesse a seu lado:
- Que "habulidadi" no dedo! Que linda mulheri para mim...

Memória traz memória, dela somos feitos. por isso, recordei também

algo escrito já há algum tempo - http://quiromancias.blogspot.com/2005/06/confisso.html#links


(imagem: grupo Danças Ocultas, www.attambur.com)

Tuesday, June 27, 2006

aleixo

Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
q'rer um mundo novo a sério.
António Aleixo
Infinitamente sábio este homem que mal sabia escrever, e que se dizia mais feliz que qualquer milionário, pois tinha como secretário um professor de liceu.Muita poesia teve a censura que queimar.

Monday, June 26, 2006

Uma nova amiga fez recordar...


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Danças Ocultas - Escalada

Escutado pela primeira vez no Festival músicas do Mundo. Chorei baba e ranho o tempo todo, mas foi de pura felicidade

Neste Mundial...

sinto falta de ouvir o lobitanga Jorge Perestrelo:

pedindo aos jogadores que comessem muita moamba para aguentar a corrida,
antecipando a ripa na rapaqueca
perguntando ao jogador que falha qu'é qué isso ó meu?!
aconselhando os hipertensos: ponha o comprimido debaixo da língua, aguenta coração!
exclamando feliz: é disto que o meu povo gosta!
opinando: até eu com a minha barriguinha fazia melhor...
apelando: Nha Nossa Senhora!
setenciando guarda-redes: frango dos antigos, com penas e direito a cacarejo,

e tantas, tantas outras coisas...


Para quem quiser recordar:

http://www.tsf.pt/online/common/include/streaming_audio.asp?audio=/2005/05/noticias/07/memoria.asx

Friday, June 23, 2006

Trocadas as voltas ao dia, a escrita fica para depois

Os especialistas são unânimes: é você que deve ser o líder da matilha, e não o cão.



Hum, pela reacção, o Bengo não se fia na opinião de qualquer um.



- Queres fazer o favor de olhar para mim quando falo contigo?

- Errr, o que estavas a dizer, mesmo?

- Oh pá, deixa-te de conversas!

- Pronto, está bem...


- Ele é tão querido quando brinca... eh pá, mas aquilo não é o meu ursinho?!


- Oh minha, aqui o que é meu, é meu, e o que é vosso é meu. Que parte não compreendes?

Thursday, June 22, 2006

revisitação

(O Amor nos Tempos da Cólera, do Gabo, pues!)


Com lista tão ambiciosa de livros para ler, de vez em quando ofereço-me uma releitura especial, e não me sinto culpada do tempo passado visitando páginas já conhecidas. Tem sido estupendo ler com olhos todos novos alguns livros da minha adolescência. Como este. Há duas noites atrás voltei a despedir-me de Fermina Daza e Florentino Ariza, e desconfio que ainda hoje eles continuam a subir e descer o rio, ela tomando longos banhos para afugentar o cheiro de velhice de que se queixava, ele buscando-a com especial ardor nas manhãs em que o corpo faz a vontade ao peito.

Wednesday, June 21, 2006

retorcido II

(mapa de Pierre Desceliers, 1550)

As riquezas refinadas (refinadas como a farinha e o açúcar, que no processo perdem as cores de terra dourada e sol) concentram-se maioritariamente no espaço setentrional. Ainda assim os meridionais riem mais, tendo a vantagem de o fazerem frequentemente de si próprios. No espaço meridional não há linhas contínuas de tragédia (e sabe Deus que é lá que a tragédia encontra o seu verdadeiro significado). Há sempre portas abertas e lançam-se pontes de corda frágil e tábuas de madeira, pelo menos para tragicomédias.
Na dimensão meridional há um povo de gente baixa que não conhece fronteiras, não pertence a país algum, nenhum deus lhes segredou que as linhas, bandeiras e cercas tinham qualquer significado, um povo que não indaga sobre o futuro. Se os aprisionarem, morrem dentro de pouco tempo, só o agora é.
No mesmo hemisfério, contaram-me um dia, mas separados por um Atlântico majestoso, existia um povo rodeado de verde, cuja língua não possuía termo para o mal. Não se tratava de ausência de valores morais, simplesmente a vida não lhes tinha feito notar a necessidade de tal palavra. Creio que neles estavam encarnados seres que em seguida à viagem terrena passaram a anjos diáfanos. Para mim, isso é civilização.




retorcido I

Como são feios os gráficos.

Tuesday, June 20, 2006

faça por ele como se fosse por mim


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Gal Costa - Antonico


Quando era pequenina meu pai tocava esta canção e tentava fazer-me acreditar que eu sabia cantar. Era difícil, mas ele era muito paciente nessa tarefa, ao contrário do que acontecia quando me explicava os números e a minha mente vaguevava em sons e palavras. Havia um debate contínuo: segundo o especialista, a minha voz era feita para agudos aventureiros. O pior é que eu queria era mesmo cantar com voz grave e profunda. Acho que no processo as minhas cordas vocais tomaram vergonha na cara. Eu, entretanto, ajudei-as a evitar possíveis danos auditivos passando a fumegar.

Friday, June 16, 2006

o tempo fora de tempo


um olhar
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Tenho uma relação complicada com a linha temporal ordenada. Assim sendo, poderão encontrar neste espaço posts sobre o Natal escritos no calor de Agosto, reflexões redentoras pascoais publicadas em Dezembro, hino às arvores no dia 21 de Setembro, e homenagens a escrevinhadores que admiro com regularidade, mas certamente longínquas dos dias em que os escribas nasceram, partiram deste lado ou receberam uma qualquer distinção, vivos ou a título póstumo. As datas escapam-me, incluindo a do meu próprio aniversário. Só quem realmente me conhece pode acreditar piamente na afirmação anterior.
Há dias o mundo consumista lembrou-me que se aproxima (ou já passou?) o Dia do Pai. Somos tão atarefados e metidos connosco mesmos que instituimos dias para qualquer coisa, para tudo e mais alguma coisa, dias para não nos esquecermos de ser.
Na última data instituída liguei-te com atraso, mãe. Mas tu estás em cada gesto meu, no fluir de tinta que derramo em papel, no tempero que adiciono quando cozinho com amor, e no reflexo dos teus olhos enormes que o espelho me devolve todas as manhãs.

Monday, June 12, 2006

Do Hedonismo


Deep Blue Sea
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adormecer ao som das ondas

recolher conchas e búzios que o mar já deixou na areia

traçar fios coloridos em telas finas de pano

acariciar cachorro atrás da orelha

mesclar sabores em panelas grandes e servi-los a pessoas que amo

pão quente de forno de lenha com manteiga

deixar caneta de aparo fluir livremente no papel

cheirar terra molhada após enchurrada

escutar cuíca e berimbau

deixar derreter na boca leite condensado (ou leite moça. como se diz na minha terra) cozido

cheirar coentros

nadar no mar, sem roupa ainda melhor

Tuesday, June 06, 2006

Fora de Tempo Roubado de Um Qualquer Janeiro - Manias (categoria sem numeração, seria perda de tempo)




Pegado à pele está, como outros vícios, o de escrever a lápis. Este parece-me acentuado por vulnerabilidade ainda maior, este claro cinza tão fácil de apagar. Como sempre, o começar foi-se adiando, diluiram-se as tontas resoluções de ano inaugurado. No meu caso, esta tinha sido a única resolução imaginada. Deve ser grave, falhar na única coisa imaginada. Quando pensava em começar a traçar os riscos carvoeiros, somava-se à anterior uma resoluçãozinha mais feliz. Não os desabafos tristes, que se desvanecem na manhã do corpo repousado. Mas triste de verdade terá sido supor que podia decidir ordenar palavras fugindo de assuntos, impondo barreiras, cortando liberdades. Criaturinhas que habitais dentro de mim, se quiserdes pois falar, que vos flua liberdade no frágil bico, quando o corpo rasa o razoável e a mente extenua nas noites sem descanso, a que já não estava habituada, de sonhos tão vívidos e sobressaltantes que o momento de dormir se torna simultaneamente desejado e temido. Aparentemente domina o medo. Faz-me falta escutar a voz que me lembrava da proximidade de Deus. Havia então um calor diáfano, um conforto maior. Ter-me-ei vendido a uma companhia aparente? Odeio a própria questão. Mas é bom colocar questões que nos atormentam e que desprezamos.
(imagem: pencilpages.com)

Friday, June 02, 2006

Incentivo

"Redacção

Carnaval da vitória é o porco mais bonito do mundo. Meu pai que lhe trouxe no sétimo andar onde a comissão de moradores é reaccionária porque não quer porcos no prédio e o camarada Faustino tem kandonga de dendém e faz kaporroto a cem kwanzas cada búlgaro. Primeiro o nome dele era só carnaval. Depois que a gente ganhou a vitória contra o inimigo o nome ficou carnaval da vitória. O inimigo é um fiscal fantoche ladrão de porcos que lhe denunciámos no prédio onde ele ficou na vergonha. Carnaval da vitória é o porco mais bom do mundo porque quando veio na nossa escola a camarada professora deu borla.
O meu pai é um reaccionário porque não gosta de peixe frito do povo e ralha com a minha mãe. Ele é que é um burguês pequeno mas diz que carnaval da vitória é um burguês. Por isso lhe quer matar só por causa de comer a carne. Carnaval da vitória é revolucionário porque quando meu pai bateu em mim e no meu irmão Zeca ele lhe quis morder. Nós não vamos deixar matar carnaval da vitória porque a luta continua e o responsável da comissão de moradores não sabe as palavras de ordem que os pioneiros é que lhe ensinam. E a camarada professora é muito boa porque deixa fazer redacções que a gente quer e até trouxe na escola o primo dela Filipe que veio tocar viola dentro da nossa sala.

Ruca Diogo"

in Quem Me Dera Ser Onda, de Manuel Rui

kandonga - negócio clandestino
dendém - fruto de uma espécie de palmeira, do qual se extrai o óleo de dendém, ou óleo de palma, muito usado em culinária
kaporroto - bebida feita a partir da destilação de fermentado de açúcar
búlgaro - frasco de compota importada da Bulgária, que se utiliza depois como copo

Wednesday, May 31, 2006



Quem diria que o regresso a um autor dos meus 12, 13 anos, seria assim. Nessa idade os mais procurados nas estantes eram obviamente os que pareciam mais picantes. Os livros falam, acreditem. E assim, A Romana, de Alberto Moravia, sussurrava, tentando-me. Ora eu sempre fui bem fraca de resistência. Nesse tempo, aquela escrita desiludiu-me, mas já não recordo o porquê. Tantos anos depois (e escrevo-o sem a pieguice dos que se lamentam contínua e suspirosamente sobre o tempo que corre, ele não me pesa), Moravia volta a visitar-me, sem convite, através de uma prenda de amor passado. Ainda amuada com Moravia e não com o amor, fui compelida a deixá-lo na estante durante um par de anos. Mas, por fim, A Atenção bramou isso mesmo, atenção, e assim mergulhei em estórias dentro de estórias que têm tanto de comuns como de perturbantes. E como redenções são acolhidas por esta escriba, A Romana será revisitada com atenção.

Tuesday, May 30, 2006



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Pérola de Manuel Rui



"Com o riso de fiscal contente de missão cumprida, ficou ainda um bocado de indicador na testa a arrumar inteligência"

in Manuel Rui, Quem Me Dera Ser Onda

Friday, May 26, 2006

...

Bissapa fez a sua entrada em África pelo Índico, distante, como tudo é distante lá, de uma distância que se torna difícil dar a compreender na Europa, distante também da minha África Atlântica. Também não é esse o nome com que a chamam, Bissapa é nome só meu, folhas de chá príncipe quer dizer, eu te baptizo a meu bel prazer.
A terra não é só banhada pelo Índico, é inundada pelas desgraças de quem não quer ver, de quem não quer saber, de quem não quer entender nada, de meninos perseguidos pela sombra que neles se entranha de doença de nome feio, sujo, que se tenta não pronunciar como se por osmose também de nós ela se pudesse apoderar. São deles, desses meninos, as mãos que colhem delicadamente, pedindo autorização ao areal, os búzios, que depois entrelaçam.
A Bissapa traz até mim um pedaço desse Índico, e cada peça é um menino, uma mão de menino estendida para mim, oferta prodigiosa como só pode realizar quem tem pouco para dar aos olhos do mundo. Como os meninos da minha terra.Estendo a capulana na parede branca, ao cimo das escadas, cada subida uma viagem para os olhos da alma. Pegando com cura no colar, solta-se um búzio, solitário, os outros olham-no frágeis, ainda agarrados ao frágil fio que os sustenta, no que se libertou não encontro motivo regido pela física que o justifique. Coloco-o de parte, não o misturo com nenhum dos despojos marítimos pelos quais tenho obsessão e que recolho, também eu no meu ritual respeitoso, pedindo autorização aos areais, não fica sepultado em nenhuma vala comum de recordações, tem o seu lugar único. Espero que, quando do frágil fio se soltou, tenha tido uma mão como a da Bissapa para ampará-lo lá, no outro lado.

Wednesday, May 24, 2006

Coisas Atrasadas II

Para variar, a capa do meu é diversa, desadequada neste caso, ao contrário do que se poderia pensar, já que de cegueira se fala. Mas esta é uma cegueira branca, a população vive com o olhar num permanente sol de meio-dia que ofusca e nem para lhes permitir o sono se retira, misericordiosa. Ah...excelente compra a de volumes publicados pelo DN, capas sóbrias e marcador de nastro.





Pois é, Sam Espinosa, judeu que salva um Cristo perdido na mediocridade do mundo, sempre me pareceu que os factos naturais eram demasiado lógicos e ordenados para que existissem coincidências. Na estória tresloucada que faz o detective viajar meio mundo, há paragem significativa em Moçambique, tudo a ver com o que se seguirá neste recanto desordenado e patético em que encravo e encrenco palavras.

Monday, May 22, 2006

Coisas Atrasadas I

The Corpse Bride, de Tim Burton





Pay It Forward, de Mimi Leder

Revisitação de fim-de-semana

Friday, May 19, 2006

Trás-os-Montes


Primeiro o caminho, longo, longuíssimo, sem fim. Estranha sensação num país de dimensões tão reduzidas. Quando comecei a viajar pelo país em que me refugiei, o primeiro assombro foi o da diversidade. De região em região abre-se sempre a porta para um mundo diferente.
A ordem veio da avó, e numa família matriarcal, embora algo disfarçada, não é boa ideia contrariar a saia- mor. Queria tanto que fossemos à minha terra… diz ela, com ar inocente. Talvez a loucura da família tenha sido acentuada por esse senso de não pertença, de nascer num local e tomar outros, em continuum, como seus, de forma a que já não se sabe realmente de onde se é. Nascida no Brasil, passada por e baptizada em castelhano numa Argentina já desaparecida, a Maria de la Concepcion voltou ainda menina para a terra de seus pais, que por seu lado já nem sabiam bem se eram portugueses, galegos ou uma espécie híbrida com sangue de Léon e, enfim, reconheçamos apesar do horror, Castilla. Pois, verdade, está bem confuso o texto.
Quando nesta família de desvairados se decide fazer algo, há que saber que, seja um mero almoço dominical ou um casamento, seremos sempre muitos. A mim coube-me viajar num carro alheio com um tio fantástico com ar de cigano, com direito a dente de ouro e tudo. Sobrevivi às curvas do Minho, de onde partimos, e já ia mais sossegada numa das estradas mais mortíferas do país (os portugueses detém os recordes mais macabros do planeta). Mas aquilo não tinha fim possível, parecendo-me na altura mais longa a viagem que a travessia aérea até ao continente americano. A desolação, a paisagem agreste. Primeiro vem o sentido do nome. É mesmo trás os montes, posso confirmá-lo. Nada como experiência em campo para compreender melhor episódios estudados em aulas de história. É provavelmente a área menos habitada do país.
Saídos da auto-estrada, serpenteando por estradas estreitas, o sorriso do tio condutor ilumina-se, e começa a explicar-me com ar orgulhoso as inúmeras cruzes de pedra plantadas na beira da estrada. Eu, que já imaginava um profundo sentido religioso do povo, sou informada de que as cruzes assinalam o local de morte de pessoas. Começa a fazer-se luz. A zona desértica é também a com maior índice proporcional de assassinatos do país (pelo menos até há algum tempo atrás, era assim). O riacho passa nas minhas terras e não nas tuas, moveste a cerca para o teu lado, desgraçado, toma lá para aprenderes. Ora bem, não é à toa que o império romano teve tantas dificuldades em anexar o noroeste da Península Ibérica. Em 27 a.c., a Lusitânia e maior parte da península eram de domínio romano, mas só em 216 o povo guerreiro que vivia nas montanhas pousou armas.
O sangue quente das gentes assustou-me menos que a condução do meu tio. Sentia-me protegida por uma tia avó que bradava na ausência de coisas essenciais como a presença de uma salada que faltava à refeição. Quando ela começou a falar, tornámo-nos figuras respeitadas na terra. Ariscos ao primeiro contacto, calorosos quando detectam que somos inofensivos. Quer dizer, quase.
A carne mais deliciosa jamais provada, as inúmeras fotos de cães (meu irmão devia fotografar algo do nosso agrado e, à falta de modelos humanos, os cães foram perfeitamente fotogénicos), o único irmão sobrevivente da minha adorada bisavó, exemplar único dessa raça dura, as casas de pedra escura, o pressentimento da magnífica presença de lobos, com quem minha avó teve encontros que a assustaram para esta e outras vidas. Enfim chegados a Avelanoso, essa terra que não se sabe bem se ainda fica em Portugal, escutando um novo dialecto, encontrámos a casa onde a família viveu, antes de partir (não adianta, são bichos irrequietos mesmo) novamente, desta vez para quentes paragens africanas. Minha avó decidiu não lá passar muito tempo, sobretudo depois de uma antiga vizinha, que se lembrava dela em pequena, lhe ter dito que estava muito gorda. No nosso próximo regresso, evitará passar por aquela rua.

Wednesday, May 17, 2006

mother dear, the world's gone cold, no one cares about love anymore


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Jeff Buckley - What Will You Say?

Monday, May 15, 2006

Os Papéis do Inglês II

"Namibe:

(tensa pele de boi seca sem sal)

(onde não é a terra que vem ter ao mar, é o mar que encosta nela)

(a das pálpebras dos rios rasgadas na fronte do nada)

(a do hálito do sal, às seis da tarde, em Julho)

(a do meio-dia despovoado e ocluso)

(a que indiferente atenta e nunca esquece)

(a que não diz adeus, só viu chegar)



(o ponto e a coma de um qualquer destino)"

Ruy Duarte de Carvalho

Imagens: wikipedia, webshots, francesco buresti e elisabetta martina (3 e 4), thierry janusikiewicz, trekearth, unkmown e jorge silva pinto

Friday, May 12, 2006

raios

A urgência da escrita vai obrigar ao uso de uma tala e tem atrasado a segunda parte d'Os Papéis do Inglês. Mas ela chegará.

Wednesday, May 10, 2006

Os Papéis do Inglês I

O livro veio até mim de forma estranha. Amanheceu numa divisão da casa grande, discretamente pousado, sem que ninguém o reclame ou saiba como raio foi ali parar. O que se segue é arrancado sem autorização prévia ao sr. Ruy Duarte de Carvalho. (Pois, é parecido com o outro). Primeiro a poesia a invadir a prosa falando de Angola. Na parte II, vem sozinha Namibe, antiga Moçâmedes (pelo menos livrou-se de receber nomes de governadores).

(esfinge sem frente, portentosa e intacta)


(mãe cativa de uma prole ansiosa mais dada à praça que à casa)

Imagens: trekearth.com

Sunday, May 07, 2006

Conclusões alheias


"Descubrí la fotografía y ahora puedo matarme; no tengo más para aprender". ...
Picasso

Thursday, May 04, 2006

Someday you'll paint me, I know


klimt-the-kiss
Originally uploaded by Kanuthya.

Numa noite tão escura. Haveria estrelas, decerto, no meu Alentejo há sempre estrelas. Como na minha África. Todos os africanos desterrados gostam do Alentejo. Devolve-lhes os grandes espaços abertos, a linha infinda do horizonte, a certeza de que a vida é Maior.

Pode bem ter sido de dia, mas em mim era noite. Eu, que fui noctívaga a maior parte da minha vida, usando tal imagem. Ah, se era noite.

Tu vieste, Rita. Trouxeste numa mão uma reprodução do Beijo de Klimt, noutra uma laranja flor de cera, que se empunha como a um moinho de vento, dos que o meu Avô me fazia - corria todo o terraço desafiando ventos com o moinho na mão.

- És personagem de tragédia grega, tu.

Não tive mais pena de mim por isso. Nas tragédias gregas a protagonista é soterrada pela vida sem compreender porquês. E tu, menina do teatro em corpo de vinte anos, espírito ancião, disseste-o num assombro de olhos molhados, não húmidos, molhados eram. Olhaste para mim e viste-me. E compreendeste. Não o esquecerei.

O Klimt está no topo das escadas da casa que habito hoje. Não está pendurado, não tenho a compulsão de dar aos objectos as funções e localizações mais costumeiras.

Agora partes. Sei bem que não é agora, Rita; mas também sei que sabes que sou incurável melodramática. Sei também que sabes que não é a quiromância que me acompanha, são as outras coisas.

Levas numa mão um vinil (perdoa, mas pareceu-me mais romântico esse escuro objecto - amo negro, como bem sabes - luzidio, escorregadio) de Gardel.

Não te vou falar de fugas, niña mia, nada temas. De mim, com todo o escuro que já me viste, parte outro tom em tua direcção. Mordo os lábios e ponho na prateleira para futura ocasião um vermelho sangue - há cor mais bela?, redundante questão, se para todas elas pode haver um sim - e faço as pazes com o rosa.

Tuesday, May 02, 2006

Chile Chile Chile

www.elasticspace.com

No deserto mais árido do planeta florescem numa só aurora do ano rosas rubras, para perecerem ao meio dia. Esta é uma das Histórias Marginais - título original - que Sepúlveda conta no belíssimo livro As Rosas de Atacama. Autor andarilho que já escrevinha há tanto tempo, e só agora lido. Está em curso a preparação do seu altar.


Thursday, April 27, 2006

Para a Cassessa, que sabia tudo que importa neste mundo

PRELÚDIO

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...

Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...

Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.

É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada..


Alda Lara

Wednesday, April 26, 2006

Você não tem vergonha de dizer pomposamente que estudou filologia?


kenzaburo oe
Originally uploaded by Kanuthya.

Kenzaburo Oe - Dias Tranquilos

Leitura adiantada durante um voo, entre a refeição à la Cronemberg e ausência de espaço para as pernas; terminada em noites ainda tranquilas, que antecipavam os tais dias ainda tranquilos. Ah, a ingenuidade...

Pretendo voltar em breve ao estranho universo escrito deste senhor.

Monday, April 24, 2006

Da falta


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de tempo, sono decente, sonhos tranquilos.