Wednesday, June 21, 2006

retorcido I

Como são feios os gráficos.

Tuesday, June 20, 2006

faça por ele como se fosse por mim


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Gal Costa - Antonico


Quando era pequenina meu pai tocava esta canção e tentava fazer-me acreditar que eu sabia cantar. Era difícil, mas ele era muito paciente nessa tarefa, ao contrário do que acontecia quando me explicava os números e a minha mente vaguevava em sons e palavras. Havia um debate contínuo: segundo o especialista, a minha voz era feita para agudos aventureiros. O pior é que eu queria era mesmo cantar com voz grave e profunda. Acho que no processo as minhas cordas vocais tomaram vergonha na cara. Eu, entretanto, ajudei-as a evitar possíveis danos auditivos passando a fumegar.

Friday, June 16, 2006

o tempo fora de tempo


um olhar
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Tenho uma relação complicada com a linha temporal ordenada. Assim sendo, poderão encontrar neste espaço posts sobre o Natal escritos no calor de Agosto, reflexões redentoras pascoais publicadas em Dezembro, hino às arvores no dia 21 de Setembro, e homenagens a escrevinhadores que admiro com regularidade, mas certamente longínquas dos dias em que os escribas nasceram, partiram deste lado ou receberam uma qualquer distinção, vivos ou a título póstumo. As datas escapam-me, incluindo a do meu próprio aniversário. Só quem realmente me conhece pode acreditar piamente na afirmação anterior.
Há dias o mundo consumista lembrou-me que se aproxima (ou já passou?) o Dia do Pai. Somos tão atarefados e metidos connosco mesmos que instituimos dias para qualquer coisa, para tudo e mais alguma coisa, dias para não nos esquecermos de ser.
Na última data instituída liguei-te com atraso, mãe. Mas tu estás em cada gesto meu, no fluir de tinta que derramo em papel, no tempero que adiciono quando cozinho com amor, e no reflexo dos teus olhos enormes que o espelho me devolve todas as manhãs.

Monday, June 12, 2006

Do Hedonismo


Deep Blue Sea
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adormecer ao som das ondas

recolher conchas e búzios que o mar já deixou na areia

traçar fios coloridos em telas finas de pano

acariciar cachorro atrás da orelha

mesclar sabores em panelas grandes e servi-los a pessoas que amo

pão quente de forno de lenha com manteiga

deixar caneta de aparo fluir livremente no papel

cheirar terra molhada após enchurrada

escutar cuíca e berimbau

deixar derreter na boca leite condensado (ou leite moça. como se diz na minha terra) cozido

cheirar coentros

nadar no mar, sem roupa ainda melhor

Tuesday, June 06, 2006

Fora de Tempo Roubado de Um Qualquer Janeiro - Manias (categoria sem numeração, seria perda de tempo)




Pegado à pele está, como outros vícios, o de escrever a lápis. Este parece-me acentuado por vulnerabilidade ainda maior, este claro cinza tão fácil de apagar. Como sempre, o começar foi-se adiando, diluiram-se as tontas resoluções de ano inaugurado. No meu caso, esta tinha sido a única resolução imaginada. Deve ser grave, falhar na única coisa imaginada. Quando pensava em começar a traçar os riscos carvoeiros, somava-se à anterior uma resoluçãozinha mais feliz. Não os desabafos tristes, que se desvanecem na manhã do corpo repousado. Mas triste de verdade terá sido supor que podia decidir ordenar palavras fugindo de assuntos, impondo barreiras, cortando liberdades. Criaturinhas que habitais dentro de mim, se quiserdes pois falar, que vos flua liberdade no frágil bico, quando o corpo rasa o razoável e a mente extenua nas noites sem descanso, a que já não estava habituada, de sonhos tão vívidos e sobressaltantes que o momento de dormir se torna simultaneamente desejado e temido. Aparentemente domina o medo. Faz-me falta escutar a voz que me lembrava da proximidade de Deus. Havia então um calor diáfano, um conforto maior. Ter-me-ei vendido a uma companhia aparente? Odeio a própria questão. Mas é bom colocar questões que nos atormentam e que desprezamos.
(imagem: pencilpages.com)

Friday, June 02, 2006

Incentivo

"Redacção

Carnaval da vitória é o porco mais bonito do mundo. Meu pai que lhe trouxe no sétimo andar onde a comissão de moradores é reaccionária porque não quer porcos no prédio e o camarada Faustino tem kandonga de dendém e faz kaporroto a cem kwanzas cada búlgaro. Primeiro o nome dele era só carnaval. Depois que a gente ganhou a vitória contra o inimigo o nome ficou carnaval da vitória. O inimigo é um fiscal fantoche ladrão de porcos que lhe denunciámos no prédio onde ele ficou na vergonha. Carnaval da vitória é o porco mais bom do mundo porque quando veio na nossa escola a camarada professora deu borla.
O meu pai é um reaccionário porque não gosta de peixe frito do povo e ralha com a minha mãe. Ele é que é um burguês pequeno mas diz que carnaval da vitória é um burguês. Por isso lhe quer matar só por causa de comer a carne. Carnaval da vitória é revolucionário porque quando meu pai bateu em mim e no meu irmão Zeca ele lhe quis morder. Nós não vamos deixar matar carnaval da vitória porque a luta continua e o responsável da comissão de moradores não sabe as palavras de ordem que os pioneiros é que lhe ensinam. E a camarada professora é muito boa porque deixa fazer redacções que a gente quer e até trouxe na escola o primo dela Filipe que veio tocar viola dentro da nossa sala.

Ruca Diogo"

in Quem Me Dera Ser Onda, de Manuel Rui

kandonga - negócio clandestino
dendém - fruto de uma espécie de palmeira, do qual se extrai o óleo de dendém, ou óleo de palma, muito usado em culinária
kaporroto - bebida feita a partir da destilação de fermentado de açúcar
búlgaro - frasco de compota importada da Bulgária, que se utiliza depois como copo

Wednesday, May 31, 2006



Quem diria que o regresso a um autor dos meus 12, 13 anos, seria assim. Nessa idade os mais procurados nas estantes eram obviamente os que pareciam mais picantes. Os livros falam, acreditem. E assim, A Romana, de Alberto Moravia, sussurrava, tentando-me. Ora eu sempre fui bem fraca de resistência. Nesse tempo, aquela escrita desiludiu-me, mas já não recordo o porquê. Tantos anos depois (e escrevo-o sem a pieguice dos que se lamentam contínua e suspirosamente sobre o tempo que corre, ele não me pesa), Moravia volta a visitar-me, sem convite, através de uma prenda de amor passado. Ainda amuada com Moravia e não com o amor, fui compelida a deixá-lo na estante durante um par de anos. Mas, por fim, A Atenção bramou isso mesmo, atenção, e assim mergulhei em estórias dentro de estórias que têm tanto de comuns como de perturbantes. E como redenções são acolhidas por esta escriba, A Romana será revisitada com atenção.

Tuesday, May 30, 2006



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Pérola de Manuel Rui



"Com o riso de fiscal contente de missão cumprida, ficou ainda um bocado de indicador na testa a arrumar inteligência"

in Manuel Rui, Quem Me Dera Ser Onda

Friday, May 26, 2006

...

Bissapa fez a sua entrada em África pelo Índico, distante, como tudo é distante lá, de uma distância que se torna difícil dar a compreender na Europa, distante também da minha África Atlântica. Também não é esse o nome com que a chamam, Bissapa é nome só meu, folhas de chá príncipe quer dizer, eu te baptizo a meu bel prazer.
A terra não é só banhada pelo Índico, é inundada pelas desgraças de quem não quer ver, de quem não quer saber, de quem não quer entender nada, de meninos perseguidos pela sombra que neles se entranha de doença de nome feio, sujo, que se tenta não pronunciar como se por osmose também de nós ela se pudesse apoderar. São deles, desses meninos, as mãos que colhem delicadamente, pedindo autorização ao areal, os búzios, que depois entrelaçam.
A Bissapa traz até mim um pedaço desse Índico, e cada peça é um menino, uma mão de menino estendida para mim, oferta prodigiosa como só pode realizar quem tem pouco para dar aos olhos do mundo. Como os meninos da minha terra.Estendo a capulana na parede branca, ao cimo das escadas, cada subida uma viagem para os olhos da alma. Pegando com cura no colar, solta-se um búzio, solitário, os outros olham-no frágeis, ainda agarrados ao frágil fio que os sustenta, no que se libertou não encontro motivo regido pela física que o justifique. Coloco-o de parte, não o misturo com nenhum dos despojos marítimos pelos quais tenho obsessão e que recolho, também eu no meu ritual respeitoso, pedindo autorização aos areais, não fica sepultado em nenhuma vala comum de recordações, tem o seu lugar único. Espero que, quando do frágil fio se soltou, tenha tido uma mão como a da Bissapa para ampará-lo lá, no outro lado.

Wednesday, May 24, 2006

Coisas Atrasadas II

Para variar, a capa do meu é diversa, desadequada neste caso, ao contrário do que se poderia pensar, já que de cegueira se fala. Mas esta é uma cegueira branca, a população vive com o olhar num permanente sol de meio-dia que ofusca e nem para lhes permitir o sono se retira, misericordiosa. Ah...excelente compra a de volumes publicados pelo DN, capas sóbrias e marcador de nastro.





Pois é, Sam Espinosa, judeu que salva um Cristo perdido na mediocridade do mundo, sempre me pareceu que os factos naturais eram demasiado lógicos e ordenados para que existissem coincidências. Na estória tresloucada que faz o detective viajar meio mundo, há paragem significativa em Moçambique, tudo a ver com o que se seguirá neste recanto desordenado e patético em que encravo e encrenco palavras.

Monday, May 22, 2006

Coisas Atrasadas I

The Corpse Bride, de Tim Burton





Pay It Forward, de Mimi Leder

Revisitação de fim-de-semana

Friday, May 19, 2006

Trás-os-Montes


Primeiro o caminho, longo, longuíssimo, sem fim. Estranha sensação num país de dimensões tão reduzidas. Quando comecei a viajar pelo país em que me refugiei, o primeiro assombro foi o da diversidade. De região em região abre-se sempre a porta para um mundo diferente.
A ordem veio da avó, e numa família matriarcal, embora algo disfarçada, não é boa ideia contrariar a saia- mor. Queria tanto que fossemos à minha terra… diz ela, com ar inocente. Talvez a loucura da família tenha sido acentuada por esse senso de não pertença, de nascer num local e tomar outros, em continuum, como seus, de forma a que já não se sabe realmente de onde se é. Nascida no Brasil, passada por e baptizada em castelhano numa Argentina já desaparecida, a Maria de la Concepcion voltou ainda menina para a terra de seus pais, que por seu lado já nem sabiam bem se eram portugueses, galegos ou uma espécie híbrida com sangue de Léon e, enfim, reconheçamos apesar do horror, Castilla. Pois, verdade, está bem confuso o texto.
Quando nesta família de desvairados se decide fazer algo, há que saber que, seja um mero almoço dominical ou um casamento, seremos sempre muitos. A mim coube-me viajar num carro alheio com um tio fantástico com ar de cigano, com direito a dente de ouro e tudo. Sobrevivi às curvas do Minho, de onde partimos, e já ia mais sossegada numa das estradas mais mortíferas do país (os portugueses detém os recordes mais macabros do planeta). Mas aquilo não tinha fim possível, parecendo-me na altura mais longa a viagem que a travessia aérea até ao continente americano. A desolação, a paisagem agreste. Primeiro vem o sentido do nome. É mesmo trás os montes, posso confirmá-lo. Nada como experiência em campo para compreender melhor episódios estudados em aulas de história. É provavelmente a área menos habitada do país.
Saídos da auto-estrada, serpenteando por estradas estreitas, o sorriso do tio condutor ilumina-se, e começa a explicar-me com ar orgulhoso as inúmeras cruzes de pedra plantadas na beira da estrada. Eu, que já imaginava um profundo sentido religioso do povo, sou informada de que as cruzes assinalam o local de morte de pessoas. Começa a fazer-se luz. A zona desértica é também a com maior índice proporcional de assassinatos do país (pelo menos até há algum tempo atrás, era assim). O riacho passa nas minhas terras e não nas tuas, moveste a cerca para o teu lado, desgraçado, toma lá para aprenderes. Ora bem, não é à toa que o império romano teve tantas dificuldades em anexar o noroeste da Península Ibérica. Em 27 a.c., a Lusitânia e maior parte da península eram de domínio romano, mas só em 216 o povo guerreiro que vivia nas montanhas pousou armas.
O sangue quente das gentes assustou-me menos que a condução do meu tio. Sentia-me protegida por uma tia avó que bradava na ausência de coisas essenciais como a presença de uma salada que faltava à refeição. Quando ela começou a falar, tornámo-nos figuras respeitadas na terra. Ariscos ao primeiro contacto, calorosos quando detectam que somos inofensivos. Quer dizer, quase.
A carne mais deliciosa jamais provada, as inúmeras fotos de cães (meu irmão devia fotografar algo do nosso agrado e, à falta de modelos humanos, os cães foram perfeitamente fotogénicos), o único irmão sobrevivente da minha adorada bisavó, exemplar único dessa raça dura, as casas de pedra escura, o pressentimento da magnífica presença de lobos, com quem minha avó teve encontros que a assustaram para esta e outras vidas. Enfim chegados a Avelanoso, essa terra que não se sabe bem se ainda fica em Portugal, escutando um novo dialecto, encontrámos a casa onde a família viveu, antes de partir (não adianta, são bichos irrequietos mesmo) novamente, desta vez para quentes paragens africanas. Minha avó decidiu não lá passar muito tempo, sobretudo depois de uma antiga vizinha, que se lembrava dela em pequena, lhe ter dito que estava muito gorda. No nosso próximo regresso, evitará passar por aquela rua.

Wednesday, May 17, 2006

mother dear, the world's gone cold, no one cares about love anymore


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Jeff Buckley - What Will You Say?

Monday, May 15, 2006

Os Papéis do Inglês II

"Namibe:

(tensa pele de boi seca sem sal)

(onde não é a terra que vem ter ao mar, é o mar que encosta nela)

(a das pálpebras dos rios rasgadas na fronte do nada)

(a do hálito do sal, às seis da tarde, em Julho)

(a do meio-dia despovoado e ocluso)

(a que indiferente atenta e nunca esquece)

(a que não diz adeus, só viu chegar)



(o ponto e a coma de um qualquer destino)"

Ruy Duarte de Carvalho

Imagens: wikipedia, webshots, francesco buresti e elisabetta martina (3 e 4), thierry janusikiewicz, trekearth, unkmown e jorge silva pinto

Friday, May 12, 2006

raios

A urgência da escrita vai obrigar ao uso de uma tala e tem atrasado a segunda parte d'Os Papéis do Inglês. Mas ela chegará.

Wednesday, May 10, 2006

Os Papéis do Inglês I

O livro veio até mim de forma estranha. Amanheceu numa divisão da casa grande, discretamente pousado, sem que ninguém o reclame ou saiba como raio foi ali parar. O que se segue é arrancado sem autorização prévia ao sr. Ruy Duarte de Carvalho. (Pois, é parecido com o outro). Primeiro a poesia a invadir a prosa falando de Angola. Na parte II, vem sozinha Namibe, antiga Moçâmedes (pelo menos livrou-se de receber nomes de governadores).

(esfinge sem frente, portentosa e intacta)


(mãe cativa de uma prole ansiosa mais dada à praça que à casa)

Imagens: trekearth.com

Sunday, May 07, 2006

Conclusões alheias


"Descubrí la fotografía y ahora puedo matarme; no tengo más para aprender". ...
Picasso

Thursday, May 04, 2006

Someday you'll paint me, I know


klimt-the-kiss
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Numa noite tão escura. Haveria estrelas, decerto, no meu Alentejo há sempre estrelas. Como na minha África. Todos os africanos desterrados gostam do Alentejo. Devolve-lhes os grandes espaços abertos, a linha infinda do horizonte, a certeza de que a vida é Maior.

Pode bem ter sido de dia, mas em mim era noite. Eu, que fui noctívaga a maior parte da minha vida, usando tal imagem. Ah, se era noite.

Tu vieste, Rita. Trouxeste numa mão uma reprodução do Beijo de Klimt, noutra uma laranja flor de cera, que se empunha como a um moinho de vento, dos que o meu Avô me fazia - corria todo o terraço desafiando ventos com o moinho na mão.

- És personagem de tragédia grega, tu.

Não tive mais pena de mim por isso. Nas tragédias gregas a protagonista é soterrada pela vida sem compreender porquês. E tu, menina do teatro em corpo de vinte anos, espírito ancião, disseste-o num assombro de olhos molhados, não húmidos, molhados eram. Olhaste para mim e viste-me. E compreendeste. Não o esquecerei.

O Klimt está no topo das escadas da casa que habito hoje. Não está pendurado, não tenho a compulsão de dar aos objectos as funções e localizações mais costumeiras.

Agora partes. Sei bem que não é agora, Rita; mas também sei que sabes que sou incurável melodramática. Sei também que sabes que não é a quiromância que me acompanha, são as outras coisas.

Levas numa mão um vinil (perdoa, mas pareceu-me mais romântico esse escuro objecto - amo negro, como bem sabes - luzidio, escorregadio) de Gardel.

Não te vou falar de fugas, niña mia, nada temas. De mim, com todo o escuro que já me viste, parte outro tom em tua direcção. Mordo os lábios e ponho na prateleira para futura ocasião um vermelho sangue - há cor mais bela?, redundante questão, se para todas elas pode haver um sim - e faço as pazes com o rosa.

Tuesday, May 02, 2006

Chile Chile Chile

www.elasticspace.com

No deserto mais árido do planeta florescem numa só aurora do ano rosas rubras, para perecerem ao meio dia. Esta é uma das Histórias Marginais - título original - que Sepúlveda conta no belíssimo livro As Rosas de Atacama. Autor andarilho que já escrevinha há tanto tempo, e só agora lido. Está em curso a preparação do seu altar.


Thursday, April 27, 2006

Para a Cassessa, que sabia tudo que importa neste mundo

PRELÚDIO

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...

Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...

Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.

É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada..


Alda Lara

Wednesday, April 26, 2006

Você não tem vergonha de dizer pomposamente que estudou filologia?


kenzaburo oe
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Kenzaburo Oe - Dias Tranquilos

Leitura adiantada durante um voo, entre a refeição à la Cronemberg e ausência de espaço para as pernas; terminada em noites ainda tranquilas, que antecipavam os tais dias ainda tranquilos. Ah, a ingenuidade...

Pretendo voltar em breve ao estranho universo escrito deste senhor.

Monday, April 24, 2006

Da falta


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de tempo, sono decente, sonhos tranquilos.

Wednesday, April 19, 2006

Aspirando as compotas e apurando o pó


Dhtheme1
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Monday, April 17, 2006

Peru desconocido


los%20rios%20profundos-peru21
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O tradutor avisava, em nota prévia, da dificuldade de traduzir José Maria Arguedas. Teria sido incentivador ter tocado no livro em questão com a bela capa ao lado. mas não. Coube-me um fundo verde escuro e nada mais, que as palavras bastam. Pena tantos erros ortográficos, senhores responsáveis da Assírio & Alvim.

Thursday, April 13, 2006

Você ainda pensa e é melhor do que nada


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Milton Nascimento - Tudo o que você podia ser

questãozinha técnica

Monday, April 10, 2006

argh


ratoeira
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Tempo Primeiro: Coitado, vejam lá se o conseguem pôr fora sem o matarem...

Tempo Segundo: Mateeeeem-nooooooo.

Desci ao inferno.

Tuesday, April 04, 2006

Schiavo morente


"Vi o anjo no mármore e esculpi até libertá-lo."

Michelangelo

Monday, April 03, 2006

Esboço para regresso

Parto e regresso para e de sítios plenos de gestos meus gravados.
A maior parte das plantas resistiu estoicamente à ausência do líquido vital, olha-me com desdém de rebento entrando na puberdade, que grita a sua individualidade à mãe esmagadora. Na varanda há apenas uma hortelã-pimenta, de ramos e folhas ressequidas, já rendida às pompas fúnebres, pressentindo as pernadas da familar ainda fresca num jarro com água, lá dentro, protegida do sol que começa a descer sem piedade de nada nem ninguém. É assim o sol neste espaço que ocupo, não permite sombra, entra por cada fresta e tudo ocupa. E queima. Precisamos as duas de sombra, menta arvensis.

Thursday, March 16, 2006

no marasmo em que este blog anda não havia necessidade de avisar...


pause
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sabores e aromas I


fresh_coriander
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Saturday, March 11, 2006

secrets


fin-books
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I read Dan Brown.

I find it entertaining.

Not going to ask if there's still hope for me.

Thursday, March 09, 2006


estrela
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Se continuasses preso às amarras do corpo terias feito anos ontem.

Tuesday, March 07, 2006

Lispector

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

Clarice


clarice03
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Thursday, March 02, 2006

Prazeres

Foi bom passear de novo pelos areais de Mangue Seco.

Tuesday, February 28, 2006



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Monday, February 20, 2006


imbondeiro angola-saiago.net
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Imbondeiro solitário no deserto do Namibe.

(imagem: www.angola.saiago.net)

Tuesday, February 14, 2006

Pepetela

Serve para qualquer terra esta fábula, ainda que seja demasiado fácil ver na água lilás o que o solo angolano oferece. Um colega dizia-me, há muitos anos atrás, que agradecia, contra a revolta de compatriotas, o facto de Cabo Verde ser pobre. Tinha razão.


montanha água lilás
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Friday, February 10, 2006

Isto assim não rende

Oferecida por um querido anjo revoltado, que já não acredita em anjos. Pirosa ou não, a escrita de Mrs. McCullough escorre diante os olhos, foi-se em dois serões.


a casa dos anjos
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Wednesday, February 08, 2006

democracia celeste


mahomet-cartoon
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Publicado no France Soir de 2 de Fevereiro, cuscado em http://racosta.kevhosting.com/blog/.

Tuesday, February 07, 2006

a paixão do conde de fróis

Valha-me Santo Dicionário!

Magnífico trabalho de Mário de Carvalho, viagem a um linguarejar de outros tempos.


a paixão do conde de fróis
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Por todo o lado os comentários à crise originada pelas caricaturas.
Eu limito-me ao receio, e dou-me conta da relutância em escrever medo.

Monday, February 06, 2006


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Elis Regina - Velho Arvoredo

Wednesday, February 01, 2006

Lusofonia Peregrina

Conselho

Sê paciente; espera
Que a palavra amadureça
E se desprenda como um fruto
Ao passar o vento que a mereça.


Eugénio de Andrade


Parece que Viriato, pastor escolhido pelo seu povo para rei da Lusitânia, nascido num belo local chamado Serra da estrela, falava celta. No frio da serra, sentado diante o fogo, entre os planos de batalha e o contar sonhador de estrelas, poderia ele imaginar, nos poucos momentos em que repousava depois de batalha contra o império romano, que o seu povo viesse no futuro a falar uma língua criada a partir da que os seus adversários falavam?
Quase até à idade adulta, não me via como portuguesa, procurando aferrar-me a uma outra terra, a que me havia visto nascer. O plano não resultou bem, e a culpa, sim, a culpa, é da música, da poesia, da língua. Tinha razão o vosso amado Pessoa, a quem por vezes chamo Fernandinho, como imagino fazia Ofélia Queiroz, a destinatária de todas as ridículas cartas de amor.
A minha pátria é a minha língua. A frase comporta neste momento da minha vida um significado difícil de explicar. Não somos uma janela sobre o oceano, o último naco de terra do continente: somos mesmo um barco sempre prestes a soltar-se do frágil porto. José Saramago escreveu sobre esta Jangada de Pedra, a Península Ibérica separa-se do continente e vaga sobre as águas. Fiz da língua o meu barco e assim viajo livre num infinito feito de lugares, ajustando de vez em quando a vela dos sons, mais fechada a vogal aqui, mais aberta acolá; em Lisboa escuto a gíria dos miúdos, que não sabem que usam termos de Angola; do Brasil chegam-me as expressões que os portugueses já esqueceram, escuto e bailo ao som das mornas e colladeras de Cabo Verde e sorrio, pensando ser aquela a única nação do planeta onde não há lugar para o racismo, uma ilha como uma tela, onde todas as cores se mesclam em paz e beleza. Quiçá na impaciência de aportar no Índico, tomo como asas as sempre novas palavras de Mia Couto e voo até Moçambique, onde este escriba reinventa a língua nos seus contos feitos de terra cor de fogo, magos, gentes e animais, todos com voz própria. Dou voltas em contínuo, mas não há modo de começar a falar de Portugal sem primeiro narrar todos estes mundos, músicas e gentes distantes. É a Lusitânia feita de sons e odores, tornada Lusofonia, nação etérea sem fronteiras concretas. E como nas velhas histórias, narradas em verso para mais facilmente permanecerem na memória, esta nação errante impregna os sentidos, até quando se torna pele; não a chamamos de nossa, somos nós que lhe pertencemos.



* Escrito especialmente para a Sacripante! A escriba agradece a útil sessão de análise, gratuita e prazeirosa.

Tuesday, January 31, 2006

Da retórica barata

Não sei bem em que se tornou este espaço. Até que ponto necessitamos da nossa própria aprovação?

Saturday, January 28, 2006

Va-ga-mun-do

No meu deserto não vejo abrigo
sem ter um amor neste mundo.*

É para mim dos mais belos desvios populares, o que criou a palavra vagamundo.



*O asterisco não marca erro, apenas um excerto de uma letra de Amália Rodrigues.

Friday, January 27, 2006

Allende


livro_reino_dragao
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Um conhecido chama-a Isabel, a Lêndea. Nunca a leu, colocando-a na prateleira dos bestsellers a evitar.

Deliciei-me com os seus livros durante anos. Algo mudou, porém. Depois do autobiográfico Paula, ou talvez mais precisamente após Afrodite, uma nova autora surge, e é com tristeza e algum espanto que me deparo com as imagens menos conseguidas, as repetições, o empobrecimento do estilo. Talvez não pudesse ser de outra forma, após a travessia da dor.

Tuesday, January 24, 2006

os sequestrados de altona

O livrinho ficou pousado na mesinha-de-cabeceira por mais de um ano. Tendo a fugir de existencialistas. Aceitei a perturbação neste Natal, a mesma que me costumam causar autores russos, e gostei, muito embora prometendo como de costume visitas muito espaçadas, evitando mini-depressões, protegida momentaneamente pelos tons quentes do quarto que deixei, rodeada de barcos pelas paredes e móveis, com o barulho das ondas no ouvido. Os livros lidos nesse quarto têm outro sabor.


os sequestrados de altona
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Thursday, January 19, 2006

Ei-lo de novo

Giuseppe Arcimboldo, L'inverno

Monday, January 16, 2006

Agora faltam os outros


rubem fonseca universal pt
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Creio ter Agosto em casa, aguardando ser lido. A Grande Arte foi devorada num instante. A voracidade na leitura assusta quando não se tem a estante mor ao alcance da mão, quando se vão trazendo os volumes que a bagagem precária permite.

Deste senhor costuma-se dizer que inaugurou a literatura brutalista, não sei se pelo facto de os seus criminosos serem particularmente amorais, se pelo facto de a vida assustar tanto aos que nomeiam estilos de escrita ou de qualquer outra forma de arte.

Wednesday, January 11, 2006

E assim:


l'ortolano 1
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