Wednesday, April 19, 2006
Monday, April 17, 2006
Peru desconocido
O tradutor avisava, em nota prévia, da dificuldade de traduzir José Maria Arguedas. Teria sido incentivador ter tocado no livro em questão com a bela capa ao lado. mas não. Coube-me um fundo verde escuro e nada mais, que as palavras bastam. Pena tantos erros ortográficos, senhores responsáveis da Assírio & Alvim.
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categorias leituras
Thursday, April 13, 2006
Você ainda pensa e é melhor do que nada
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Milton Nascimento - Tudo o que você podia ser
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Monday, April 10, 2006
argh
Tempo Primeiro: Coitado, vejam lá se o conseguem pôr fora sem o matarem...
Tempo Segundo: Mateeeeem-nooooooo.
Desci ao inferno.
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Tuesday, April 04, 2006
Monday, April 03, 2006
Esboço para regresso
Parto e regresso para e de sítios plenos de gestos meus gravados.
A maior parte das plantas resistiu estoicamente à ausência do líquido vital, olha-me com desdém de rebento entrando na puberdade, que grita a sua individualidade à mãe esmagadora. Na varanda há apenas uma hortelã-pimenta, de ramos e folhas ressequidas, já rendida às pompas fúnebres, pressentindo as pernadas da familar ainda fresca num jarro com água, lá dentro, protegida do sol que começa a descer sem piedade de nada nem ninguém. É assim o sol neste espaço que ocupo, não permite sombra, entra por cada fresta e tudo ocupa. E queima. Precisamos as duas de sombra, menta arvensis.
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Thursday, March 16, 2006
no marasmo em que este blog anda não havia necessidade de avisar...
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Saturday, March 11, 2006
secrets
I read Dan Brown.
I find it entertaining.
Not going to ask if there's still hope for me.
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Thursday, March 09, 2006
Se continuasses preso às amarras do corpo terias feito anos ontem.
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Tuesday, March 07, 2006
Lispector
Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
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Thursday, March 02, 2006
Tuesday, February 28, 2006
Monday, February 20, 2006
imbondeiro angola-saiago.net
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Imbondeiro solitário no deserto do Namibe.
(imagem: www.angola.saiago.net)
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Tuesday, February 14, 2006
Pepetela
Serve para qualquer terra esta fábula, ainda que seja demasiado fácil ver na água lilás o que o solo angolano oferece. Um colega dizia-me, há muitos anos atrás, que agradecia, contra a revolta de compatriotas, o facto de Cabo Verde ser pobre. Tinha razão.
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Friday, February 10, 2006
Isto assim não rende
Oferecida por um querido anjo revoltado, que já não acredita em anjos. Pirosa ou não, a escrita de Mrs. McCullough escorre diante os olhos, foi-se em dois serões.
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Wednesday, February 08, 2006
democracia celeste
mahomet-cartoon
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Publicado no France Soir de 2 de Fevereiro, cuscado em http://racosta.kevhosting.com/blog/.
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Tuesday, February 07, 2006
a paixão do conde de fróis
Valha-me Santo Dicionário!
Magnífico trabalho de Mário de Carvalho, viagem a um linguarejar de outros tempos.
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Por todo o lado os comentários à crise originada pelas caricaturas.
Eu limito-me ao receio, e dou-me conta da relutância em escrever medo.
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Monday, February 06, 2006
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Elis Regina - Velho Arvoredo
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Wednesday, February 01, 2006
Lusofonia Peregrina
Conselho
Sê paciente; espera
Que a palavra amadureça
E se desprenda como um fruto
Ao passar o vento que a mereça.
Eugénio de Andrade
Parece que Viriato, pastor escolhido pelo seu povo para rei da Lusitânia, nascido num belo local chamado Serra da estrela, falava celta. No frio da serra, sentado diante o fogo, entre os planos de batalha e o contar sonhador de estrelas, poderia ele imaginar, nos poucos momentos em que repousava depois de batalha contra o império romano, que o seu povo viesse no futuro a falar uma língua criada a partir da que os seus adversários falavam?
Quase até à idade adulta, não me via como portuguesa, procurando aferrar-me a uma outra terra, a que me havia visto nascer. O plano não resultou bem, e a culpa, sim, a culpa, é da música, da poesia, da língua. Tinha razão o vosso amado Pessoa, a quem por vezes chamo Fernandinho, como imagino fazia Ofélia Queiroz, a destinatária de todas as ridículas cartas de amor.
A minha pátria é a minha língua. A frase comporta neste momento da minha vida um significado difícil de explicar. Não somos uma janela sobre o oceano, o último naco de terra do continente: somos mesmo um barco sempre prestes a soltar-se do frágil porto. José Saramago escreveu sobre esta Jangada de Pedra, a Península Ibérica separa-se do continente e vaga sobre as águas. Fiz da língua o meu barco e assim viajo livre num infinito feito de lugares, ajustando de vez em quando a vela dos sons, mais fechada a vogal aqui, mais aberta acolá; em Lisboa escuto a gíria dos miúdos, que não sabem que usam termos de Angola; do Brasil chegam-me as expressões que os portugueses já esqueceram, escuto e bailo ao som das mornas e colladeras de Cabo Verde e sorrio, pensando ser aquela a única nação do planeta onde não há lugar para o racismo, uma ilha como uma tela, onde todas as cores se mesclam em paz e beleza. Quiçá na impaciência de aportar no Índico, tomo como asas as sempre novas palavras de Mia Couto e voo até Moçambique, onde este escriba reinventa a língua nos seus contos feitos de terra cor de fogo, magos, gentes e animais, todos com voz própria. Dou voltas em contínuo, mas não há modo de começar a falar de Portugal sem primeiro narrar todos estes mundos, músicas e gentes distantes. É a Lusitânia feita de sons e odores, tornada Lusofonia, nação etérea sem fronteiras concretas. E como nas velhas histórias, narradas em verso para mais facilmente permanecerem na memória, esta nação errante impregna os sentidos, até quando se torna pele; não a chamamos de nossa, somos nós que lhe pertencemos.
* Escrito especialmente para a Sacripante! A escriba agradece a útil sessão de análise, gratuita e prazeirosa.
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Tuesday, January 31, 2006
Da retórica barata
Não sei bem em que se tornou este espaço. Até que ponto necessitamos da nossa própria aprovação?
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Saturday, January 28, 2006
Va-ga-mun-do
No meu deserto não vejo abrigo
sem ter um amor neste mundo.*
É para mim dos mais belos desvios populares, o que criou a palavra vagamundo.
*O asterisco não marca erro, apenas um excerto de uma letra de Amália Rodrigues.
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Friday, January 27, 2006
Allende
Um conhecido chama-a Isabel, a Lêndea. Nunca a leu, colocando-a na prateleira dos bestsellers a evitar.
Deliciei-me com os seus livros durante anos. Algo mudou, porém. Depois do autobiográfico Paula, ou talvez mais precisamente após Afrodite, uma nova autora surge, e é com tristeza e algum espanto que me deparo com as imagens menos conseguidas, as repetições, o empobrecimento do estilo. Talvez não pudesse ser de outra forma, após a travessia da dor.
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Tuesday, January 24, 2006
os sequestrados de altona
O livrinho ficou pousado na mesinha-de-cabeceira por mais de um ano. Tendo a fugir de existencialistas. Aceitei a perturbação neste Natal, a mesma que me costumam causar autores russos, e gostei, muito embora prometendo como de costume visitas muito espaçadas, evitando mini-depressões, protegida momentaneamente pelos tons quentes do quarto que deixei, rodeada de barcos pelas paredes e móveis, com o barulho das ondas no ouvido. Os livros lidos nesse quarto têm outro sabor.
os sequestrados de altona
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Thursday, January 19, 2006
Ei-lo de novo
Giuseppe Arcimboldo, L'inverno
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Monday, January 16, 2006
Agora faltam os outros
Creio ter Agosto em casa, aguardando ser lido. A Grande Arte foi devorada num instante. A voracidade na leitura assusta quando não se tem a estante mor ao alcance da mão, quando se vão trazendo os volumes que a bagagem precária permite.
Deste senhor costuma-se dizer que inaugurou a literatura brutalista, não sei se pelo facto de os seus criminosos serem particularmente amorais, se pelo facto de a vida assustar tanto aos que nomeiam estilos de escrita ou de qualquer outra forma de arte.
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Wednesday, January 11, 2006
Único e inimitável
l'ortolano giuseppe arcimboldo
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(Arcimboldo, L'Ortolano)
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Monday, January 09, 2006
nas nuvens
Ai, o vício de narrar destrambelhadamente, misturando tempos a bel-prazer...
Nas alturas, remoída pelo vento que abanava o aparelho (por que será que fico sempre sentada junto das asas?), acompanhava-me este senhor numa outra viagem, esta pelos meandros da massinha que nos permite todas as viagens. Em Memória de Nova Iorque e Outros Ensaios aguçou-me o olhar para o senhor que se segue, num deleite de sentidos que me fez esquecer o sangue pulsando furioso nas veias cansadas.
joao_lobo_antunes lazer publico
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Friday, January 06, 2006
Espreitadela e Impossibilidades
calma...
está quase...
imagem: contrabando.blogs.sapo.pt
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Tuesday, December 27, 2005
Pois
Moribundo está este blog. Mas regressa. Não no terceiro dia, que a idade já lhe pede mais tempo para recuperar após festividades grossas.
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Friday, December 23, 2005
Dizia Amílcar Cabral...
não há nada mais triste que uma pessoa que pensa que sabe tudo
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Tuesday, December 20, 2005
Saturday, December 17, 2005
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Thursday, December 15, 2005
Tuesday, December 13, 2005
Monday, December 12, 2005
frustrações botânicas
Será o hábito de cultivar plantas em casa uma reminiscência dos tempos em que o homem vivia sem um abrigo construído por suas mãos? Muitos recheiam os seus habitáculos de betão de tons verdes, pinceladas de vida respirando entre as coisas ditas sem vida.
Algumas mais manhosas conspiram. Uma favorita é a avenca, adoro-as, mas provavelmente por questão hereditária, não duram. A minha mãe é uma maga da botânica, adora plantas, elas retribuem-lhe, mas as avencas sempre lhe morreram.
Há pouco mais de um mês ofereceram-me uma orquídea, essa flor donde, em tempos remotos, a fêmea da espécie humana parece ter ter tirado o seu modelo de genitália. Enquanto a mirava num misto de admiração e lamentos antecipados, a pobre devia sorver do ar o receio da vítima caída nos braços do algoz. As flores já foram, descansem em paz.
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Friday, December 09, 2005
Monday, December 05, 2005
Tombe la neige
O poster na parede era exactamente este. A aragem fria insinuando-se pela saia acima fazia sempre sorrir, num toque sádico matinal. Um dia antes de regressar, ao abrir as portadas de manhã, a montanha tinha o aspecto de ter sido pulverizada pelas cinzas de um espirro de vulcão. Momentos mais tarde o sol lá se dignou a espreitar e devolveu o pouco verde às encostas, derretendo a escassa neve fantasiada de cinza.
Nessa tarde, na roda viva do consumismo andorrano, entre baforadas saídas das bocas, volumes de tabaco empilhados e alardes luminosos dos fabulosos preus despidos de imposto, tive a visita da minha personagem querida, a quem não fiz justiça na escrita. O seu nome surgiu-me em letras luminosas, anunciando não sei que produtos numa loja. Não fui verificar, não importava. era ela, insunuando-se e lembrando-me de que merece mais. Aproveitei o momento em que o polícia sinaleiro se girava para o outro lado, ordenando que o trânsito fluísse, e pisquei-lhe o olho, prometendo-lhe escrever melhor a estória que me murmurou em sonhos.
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Saturday, November 26, 2005
até à próxima semana
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Mais Susheela Raman
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Susheela Raman - Maya
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Thursday, November 24, 2005
ao redor
Por enquanto vai-se caminhando em torno das cores brilhantes. O pior é quando não se sabe viver nos intermédios da vida, quando só os vermelhões, os azulões e amarelões fazem sentido.
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Wednesday, November 23, 2005
Monday, November 21, 2005
pote de ferro
O arear mais esforçado nada pode para quem cozinha mágoas.
(imagem: E. Shibanov, 2003)
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Friday, November 18, 2005
fios
(imagem: www.portoalegre.org)
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Thursday, November 17, 2005
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Monday, November 14, 2005
recado
Vá malta silenciosa, toca a responder a este inquérito rápido e indolor para ajudar na realização de um trabalho académico.
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Thursday, November 10, 2005
o fio mor das marionetas
O medo é o que impede que tudo o que chega às mãos dos homens não se torne em sua propriedade. Basta produzir uma impressão que não se pode explicar, inserindo no medo o desconforto da culpa. É assim que milhões de pessoas podem ser pastoreadas nas ribeiras da paz por muito poucas. E nas trincheiras da guerra por outras tantas, senão as mesmas.
Agustina Bessa-Luís, in Antes do Degelo
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Wednesday, November 09, 2005
My Family and Other Animals
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Forbidden Colours
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David Sylvian e Riuichi Sakamoto. Lindo.
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Monday, November 07, 2005
cusquice atrasada
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Thursday, November 03, 2005
carne viva nas tardes amarelas e castanhas de Outono
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Tuesday, November 01, 2005
L.
Falo-te baixinho, num sussurro tão cuidado que até tu, livre que és dos fios que nos prendem à terra, até tu poderás não escutar. Eles dizem que nesta noite a fronteira é ténue, sabes? É verdade, dizem-no. A ideia que essa fronteira fosse ténue em todos os outros dias assusta-os? Precisam de datas. Datas para soprar velas, datas para empilhar prendas, datas para se lembrarem do que fazem por esquecer todo o ano, datas para levar flores a pedras frias, datas para serem solidários. A casa quer-se arrumadinha. O calendário não lhe poderia ficar atrás. Deixa, não precisas responder. Peço-te desculpa por perturbar o silêncio de paz em que te encontras. Escrevo-o sentindo que não é aí que te encontras ainda. E na impertinência que me guia dirigindo-me a ti, peço: visita os teus em sonhos e toca-lhes as faces, para que sintam que o calor da tua doçura não se esgotou.
(angel of the courtyard, by Liz Allen, 2002)
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Saturday, October 29, 2005
Pergunto-me muitas vezes as mesmas coisas, Marvin
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Marvin Gaye - What's going on
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Thursday, October 27, 2005
Crafting to colour my world
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Monday, October 24, 2005
o grito do planeta
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Marvin Gaye - Mercy Mercy Me
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mr. ego tripping out
Não se celebra aniversário algum, nem da vinda ao mundo de uma voz que me acompanha desde e para sempre, nem da sua saída para outra dimensão. Egocêntrico, misógeno, com fama de maltratar as mulheres, excepto aquelas a quem chamava amigas (Miss Ross despediu-se dele num pungente e por muitos chamado piroso Missing You), fetichista e a lista pode continuar. Num dos seus últimos concertos, depois do Sexual Healing longuíssimo, incitava os presentes - go make some babies, e depois de poses que levavam a audiência ao rubro, informava que não sabia por quanto tempo mais faria aquilo, cantar, pois tinha muita espiritualidade em si. Talvez alguns imaginassem então que Gaye (sobrenome que convenientemente, segundo ele, adoptou de Gay) aparecesse como reverendo. Pode dar-se que o tenha considerado. Afinal de contas, tal profissão não impediu o seu pai de maltratar a família uma vida inteira nem de vestir roupas de mulher no recato do lar. Não teria tempo para mudar de vida, para fantasiar-se de qualquer outra coisa. Na véspera de fazer 45 anos foi morto pelo seu pai.
Um dos meus favoritos, em absoluta fidelidade. Não há nada assim. Vem aí.
(imagem de www.commandercody.com)
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Tuesday, October 18, 2005
n'As Árias Pequenas. Para Bandolim.
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores
Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.
Hilda Hist
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just for the record
Sabia-me bem lançar aqui as palavras como se faz com os barquinhos de papel, deixando-as a vogar em fundo azulado, até me ter metido com o html e a ordem com que nos iludimos ao dispor as coisinhas à nossa maneira ter ido para as urtigas, a barra lateral com ligações foi empurrada para o fundo da página. Deve ter sido uma qualquer conspiração dos textos, que exigiam de cartazes em punho ocupar toda a largura da pobre página, que por sinal emitiu um comunicado excusando-se de responsabilidades.
Assim sendo peguei neste fundo, que usava num outro projecto, o pergaminho de bolso. Devo ser um bicho de hábitos, como os cachorros, faz-me falta o fundo azul.
*imagem obtida em www.blueventures.org
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Friday, October 14, 2005
somos teus filhos, ó mar de estrelas, cuida-nos bem
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a noite dos alquimistas
chegam os magos no claro rasto da lua cheia
descem duendes pelos caminhos da Cassiopeia
gnomos e bruxos, génios e divas, tudo e ninguém
abeiram-se os sábios, os feiticeiros que o mundo tem
sentam-se amenas mágicas formas, sombras de alguém
vêm do fundo da paz da terra os sonhadores
guardam em sonhos ocultas memórias os computadores
pedreiros-livres, santos e artistas, tudo e ninguém
sussurram secretas vozes profetas dos temporais
pairam nos ventos estranhos seres como cristais
ó roda viva, ó astro grande de almas gentis
fonte das musas, covil dos homens mais varonis
a gente luta, a gente sofre e ninguém
redime as dores, nossos amores, ódios também
somos teus filhos, ó mar de estrelas
cuida-nos bem
(Fausto Bordalo Dias)
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Wednesday, October 12, 2005
jangadas de São Torpes
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Monday, October 10, 2005
life samples
Madame L. passa os dias esperando que passem perto da sua cancela, de nariz convenientemente espetado por detrás da cortina de renda fingida. Os gatos são uma excelente desculpa para sair, chama-os dias inteiros, assobiando como um rapazinho. Eles fazem ouvidos de mercador, cumprindo o papel de gatos, naturalmente. É terreno fértil em aventuras para felinos, o que rodeia a mulher que os acolheu.
A minha filha, sabe, sabe pois, já a viu, teve cancro e trazia bebés ao mundo, volta agora ao trabalho, que está melhorizinha, ela queria que eu tivesse um cão, assim sempre caminhava alguma coisita, mas eu...eu sou mais de gatos, compreende?
Compreendo.
Viu a minha neta? Essa sim, oh la la, trabalhou como hospedeira na Air France.
Tudo sabe da residência Madame L, só que está com os seus gatos, assobiando e chamando os mais distraídos que preferem caçar lagartixas e besouros a apanhar sol no jardinzinho.
A partir das sete da tarde, não se pode fazer barulho. Madame L. vê televisão, preenche a casa com a presença imaginária que lhe chega através da pequena tela, com o volume a um nível que justifica a fuga dos gatos. Fica assim, até de madrugada subir com dificuldade os degraus que levam ao seu pequeno quarto, parando de quando em quando, cerrando os olhos num esgar de dor, friccionando os joelhos inchados.
Veio de Lile, longe que estava dos olhos filiais preocupados, para um sul que acha mais frio que as suas paragens de origem, falta-lhe o calor humano que dizia ter na sua terra. De quando em vez escapa à vida reformada para ir comprar bugigangas a Espanha com os vizinhos que vieram de Paris gozar os últimos anos junto do mar, atentos ao mínimo burburinho no condomínio, controlando antenas, carros mal estacionados, dedicando-se à jardinagem, apesar de imaginar que não seguem os conselhos dos Monty Phyton, deve-lhes faltar a masturbação e estrangulamento de animais de estimação, que não têm, estragar-lhes-iam o jardim imaculado.
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Thursday, October 06, 2005
falésias e bocas de mar
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Tuesday, October 04, 2005
constatação inútil
Certas coisas são-lhe tão vergonhosas e duras que não se atreve a escrevê-las em português.
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Seis Janelas - Soraia Galhardo
Tenho à minha frente as seis janelas que me pintaste. Não estão penduradas. Posso pegar nelas e levá-las para onde for, debaixo do braço. A imagem não lhes faz justiça, é redutora, tal como o são as palavras que agora escrevo com luz de uma vela e a luminosidade de um écrã de televisão, companhia para alguém que clama dar-se bem com o estar fisicamente só.
Fecho os olhos e tenho uma idade qualquer, convinha ser criança e embarcada numa fantasia de fuga de casa, mas desconfio que pouco funcionaria tal ideia, era acusada de fugir com frequência, mas não se passava nada disso, os grandes ignoravam que simplesmente não me ocorria avisar alguém do que faria nos próximos tempos. E saía, assim, distraidamente porta fora. Fecho os olhos e tenho novamente essa idade qualquer perdida numa linha imaginária a que convencionámos chamar de tempo. Debaixo dum braço poderia levar a tela, no outro talvez o tradicional urso, que para mim sempre foi o Beto, hoje cego, sem nariz, de braços remendados e a pelúcia ruça das lavagens. Não pesam nada, o resto que vai cá dentro sim.
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Thursday, September 29, 2005
o silêncio dos amantes abraçados contra a morte
(les amants, Raymonde Jodoin)
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O O'Neil é que sabe
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Wednesday, September 28, 2005
vertigem
As personagens que me acompanharam durante poucos meses partiram encaixotadas, sem esperança de existirem para além das páginas. Deixaram-me numa vertigem leve, ainda caminhando num fio de arame, não muito fino, vou ensaiando por ele passos desprovida de sapatos salpicados com pó-de-talco. Lá em baixo há uma rede. Não torna a queda menor, porém.
Algumas ficaram comigo, fazendo-me cócegas quando estou distraída, outras queixando-se do excessivo ou escasso destaque que lhes foi dado. Foi bom ter espreitado para o lado de lá, de forma mais longa do que sempre fiz desde que aprendi o abecê. Obrigada por me terem dado um vislumbre das vossas vidas.
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Tuesday, September 27, 2005
Colírio...
para o olhar, na nova secção, ali ao lado, Miradouro.
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