Único e inimitável
l'ortolano giuseppe arcimboldo
Originally uploaded by Kanuthya.
(Arcimboldo, L'Ortolano)
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Ai, o vício de narrar destrambelhadamente, misturando tempos a bel-prazer...
Nas alturas, remoída pelo vento que abanava o aparelho (por que será que fico sempre sentada junto das asas?), acompanhava-me este senhor numa outra viagem, esta pelos meandros da massinha que nos permite todas as viagens. Em Memória de Nova Iorque e Outros Ensaios aguçou-me o olhar para o senhor que se segue, num deleite de sentidos que me fez esquecer o sangue pulsando furioso nas veias cansadas.
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calma...
está quase...
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Moribundo está este blog. Mas regressa. Não no terceiro dia, que a idade já lhe pede mais tempo para recuperar após festividades grossas.
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não há nada mais triste que uma pessoa que pensa que sabe tudo
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Será o hábito de cultivar plantas em casa uma reminiscência dos tempos em que o homem vivia sem um abrigo construído por suas mãos? Muitos recheiam os seus habitáculos de betão de tons verdes, pinceladas de vida respirando entre as coisas ditas sem vida.
Algumas mais manhosas conspiram. Uma favorita é a avenca, adoro-as, mas provavelmente por questão hereditária, não duram. A minha mãe é uma maga da botânica, adora plantas, elas retribuem-lhe, mas as avencas sempre lhe morreram.
Há pouco mais de um mês ofereceram-me uma orquídea, essa flor donde, em tempos remotos, a fêmea da espécie humana parece ter ter tirado o seu modelo de genitália. Enquanto a mirava num misto de admiração e lamentos antecipados, a pobre devia sorver do ar o receio da vítima caída nos braços do algoz. As flores já foram, descansem em paz.
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O poster na parede era exactamente este. A aragem fria insinuando-se pela saia acima fazia sempre sorrir, num toque sádico matinal. Um dia antes de regressar, ao abrir as portadas de manhã, a montanha tinha o aspecto de ter sido pulverizada pelas cinzas de um espirro de vulcão. Momentos mais tarde o sol lá se dignou a espreitar e devolveu o pouco verde às encostas, derretendo a escassa neve fantasiada de cinza.
Nessa tarde, na roda viva do consumismo andorrano, entre baforadas saídas das bocas, volumes de tabaco empilhados e alardes luminosos dos fabulosos preus despidos de imposto, tive a visita da minha personagem querida, a quem não fiz justiça na escrita. O seu nome surgiu-me em letras luminosas, anunciando não sei que produtos numa loja. Não fui verificar, não importava. era ela, insunuando-se e lembrando-me de que merece mais. Aproveitei o momento em que o polícia sinaleiro se girava para o outro lado, ordenando que o trânsito fluísse, e pisquei-lhe o olho, prometendo-lhe escrever melhor a estória que me murmurou em sonhos.
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Susheela Raman - Maya
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Por enquanto vai-se caminhando em torno das cores brilhantes. O pior é quando não se sabe viver nos intermédios da vida, quando só os vermelhões, os azulões e amarelões fazem sentido.
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O arear mais esforçado nada pode para quem cozinha mágoas.
(imagem: E. Shibanov, 2003)
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Vá malta silenciosa, toca a responder a este inquérito rápido e indolor para ajudar na realização de um trabalho académico.
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O medo é o que impede que tudo o que chega às mãos dos homens não se torne em sua propriedade. Basta produzir uma impressão que não se pode explicar, inserindo no medo o desconforto da culpa. É assim que milhões de pessoas podem ser pastoreadas nas ribeiras da paz por muito poucas. E nas trincheiras da guerra por outras tantas, senão as mesmas.
Agustina Bessa-Luís, in Antes do Degelo
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David Sylvian e Riuichi Sakamoto. Lindo.
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Falo-te baixinho, num sussurro tão cuidado que até tu, livre que és dos fios que nos prendem à terra, até tu poderás não escutar. Eles dizem que nesta noite a fronteira é ténue, sabes? É verdade, dizem-no. A ideia que essa fronteira fosse ténue em todos os outros dias assusta-os? Precisam de datas. Datas para soprar velas, datas para empilhar prendas, datas para se lembrarem do que fazem por esquecer todo o ano, datas para levar flores a pedras frias, datas para serem solidários. A casa quer-se arrumadinha. O calendário não lhe poderia ficar atrás. Deixa, não precisas responder. Peço-te desculpa por perturbar o silêncio de paz em que te encontras. Escrevo-o sentindo que não é aí que te encontras ainda. E na impertinência que me guia dirigindo-me a ti, peço: visita os teus em sonhos e toca-lhes as faces, para que sintam que o calor da tua doçura não se esgotou.
(angel of the courtyard, by Liz Allen, 2002)
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Marvin Gaye - What's going on
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Marvin Gaye - Mercy Mercy Me
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Não se celebra aniversário algum, nem da vinda ao mundo de uma voz que me acompanha desde e para sempre, nem da sua saída para outra dimensão. Egocêntrico, misógeno, com fama de maltratar as mulheres, excepto aquelas a quem chamava amigas (Miss Ross despediu-se dele num pungente e por muitos chamado piroso Missing You), fetichista e a lista pode continuar. Num dos seus últimos concertos, depois do Sexual Healing longuíssimo, incitava os presentes - go make some babies, e depois de poses que levavam a audiência ao rubro, informava que não sabia por quanto tempo mais faria aquilo, cantar, pois tinha muita espiritualidade em si. Talvez alguns imaginassem então que Gaye (sobrenome que convenientemente, segundo ele, adoptou de Gay) aparecesse como reverendo. Pode dar-se que o tenha considerado. Afinal de contas, tal profissão não impediu o seu pai de maltratar a família uma vida inteira nem de vestir roupas de mulher no recato do lar. Não teria tempo para mudar de vida, para fantasiar-se de qualquer outra coisa. Na véspera de fazer 45 anos foi morto pelo seu pai.
Um dos meus favoritos, em absoluta fidelidade. Não há nada assim. Vem aí.
(imagem de www.commandercody.com)
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Sabia-me bem lançar aqui as palavras como se faz com os barquinhos de papel, deixando-as a vogar em fundo azulado, até me ter metido com o html e a ordem com que nos iludimos ao dispor as coisinhas à nossa maneira ter ido para as urtigas, a barra lateral com ligações foi empurrada para o fundo da página. Deve ter sido uma qualquer conspiração dos textos, que exigiam de cartazes em punho ocupar toda a largura da pobre página, que por sinal emitiu um comunicado excusando-se de responsabilidades.
Assim sendo peguei neste fundo, que usava num outro projecto, o pergaminho de bolso. Devo ser um bicho de hábitos, como os cachorros, faz-me falta o fundo azul.
*imagem obtida em www.blueventures.org
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a noite dos alquimistas
chegam os magos no claro rasto da lua cheia
descem duendes pelos caminhos da Cassiopeia
gnomos e bruxos, génios e divas, tudo e ninguém
abeiram-se os sábios, os feiticeiros que o mundo tem
sentam-se amenas mágicas formas, sombras de alguém
vêm do fundo da paz da terra os sonhadores
guardam em sonhos ocultas memórias os computadores
pedreiros-livres, santos e artistas, tudo e ninguém
sussurram secretas vozes profetas dos temporais
pairam nos ventos estranhos seres como cristais
ó roda viva, ó astro grande de almas gentis
fonte das musas, covil dos homens mais varonis
a gente luta, a gente sofre e ninguém
redime as dores, nossos amores, ódios também
somos teus filhos, ó mar de estrelas
cuida-nos bem
(Fausto Bordalo Dias)
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Madame L. passa os dias esperando que passem perto da sua cancela, de nariz convenientemente espetado por detrás da cortina de renda fingida. Os gatos são uma excelente desculpa para sair, chama-os dias inteiros, assobiando como um rapazinho. Eles fazem ouvidos de mercador, cumprindo o papel de gatos, naturalmente. É terreno fértil em aventuras para felinos, o que rodeia a mulher que os acolheu.
A minha filha, sabe, sabe pois, já a viu, teve cancro e trazia bebés ao mundo, volta agora ao trabalho, que está melhorizinha, ela queria que eu tivesse um cão, assim sempre caminhava alguma coisita, mas eu...eu sou mais de gatos, compreende?
Compreendo.
Viu a minha neta? Essa sim, oh la la, trabalhou como hospedeira na Air France.
Tudo sabe da residência Madame L, só que está com os seus gatos, assobiando e chamando os mais distraídos que preferem caçar lagartixas e besouros a apanhar sol no jardinzinho.
A partir das sete da tarde, não se pode fazer barulho. Madame L. vê televisão, preenche a casa com a presença imaginária que lhe chega através da pequena tela, com o volume a um nível que justifica a fuga dos gatos. Fica assim, até de madrugada subir com dificuldade os degraus que levam ao seu pequeno quarto, parando de quando em quando, cerrando os olhos num esgar de dor, friccionando os joelhos inchados.
Veio de Lile, longe que estava dos olhos filiais preocupados, para um sul que acha mais frio que as suas paragens de origem, falta-lhe o calor humano que dizia ter na sua terra. De quando em vez escapa à vida reformada para ir comprar bugigangas a Espanha com os vizinhos que vieram de Paris gozar os últimos anos junto do mar, atentos ao mínimo burburinho no condomínio, controlando antenas, carros mal estacionados, dedicando-se à jardinagem, apesar de imaginar que não seguem os conselhos dos Monty Phyton, deve-lhes faltar a masturbação e estrangulamento de animais de estimação, que não têm, estragar-lhes-iam o jardim imaculado.
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Certas coisas são-lhe tão vergonhosas e duras que não se atreve a escrevê-las em português.
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Tenho à minha frente as seis janelas que me pintaste. Não estão penduradas. Posso pegar nelas e levá-las para onde for, debaixo do braço. A imagem não lhes faz justiça, é redutora, tal como o são as palavras que agora escrevo com luz de uma vela e a luminosidade de um écrã de televisão, companhia para alguém que clama dar-se bem com o estar fisicamente só.
Fecho os olhos e tenho uma idade qualquer, convinha ser criança e embarcada numa fantasia de fuga de casa, mas desconfio que pouco funcionaria tal ideia, era acusada de fugir com frequência, mas não se passava nada disso, os grandes ignoravam que simplesmente não me ocorria avisar alguém do que faria nos próximos tempos. E saía, assim, distraidamente porta fora. Fecho os olhos e tenho novamente essa idade qualquer perdida numa linha imaginária a que convencionámos chamar de tempo. Debaixo dum braço poderia levar a tela, no outro talvez o tradicional urso, que para mim sempre foi o Beto, hoje cego, sem nariz, de braços remendados e a pelúcia ruça das lavagens. Não pesam nada, o resto que vai cá dentro sim.
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o silêncio dos amantes abraçados contra a morte
(les amants, Raymonde Jodoin)
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As personagens que me acompanharam durante poucos meses partiram encaixotadas, sem esperança de existirem para além das páginas. Deixaram-me numa vertigem leve, ainda caminhando num fio de arame, não muito fino, vou ensaiando por ele passos desprovida de sapatos salpicados com pó-de-talco. Lá em baixo há uma rede. Não torna a queda menor, porém.
Algumas ficaram comigo, fazendo-me cócegas quando estou distraída, outras queixando-se do excessivo ou escasso destaque que lhes foi dado. Foi bom ter espreitado para o lado de lá, de forma mais longa do que sempre fiz desde que aprendi o abecê. Obrigada por me terem dado um vislumbre das vossas vidas.
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para o olhar, na nova secção, ali ao lado, Miradouro.
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Não... embrenhada que estou numa montanha de papéis.
Pena que por trás deste pôr-do-sol (poderei tornar-me mais vulgar que isto? sim, poderei) esteja um outro emaranhado, que pelos vistos orgulha muito boa gente, de prédios mirabolantes, um deles ostentando o nome do Vasquito, esse mesmo, o Gama. A outra face de La Grande Motte, fronteira de acesso aos arrozais de La Petite Camargue, no post acima...
(Vicent Formica)
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Erguido em meados do século XVIII, para proteger a área dos crescentes ataques de piratas, alberga hoje em dia o Museu Humorístico Albert Dubout.
p.s. as coisas que se vão buscar quando o tempo nos escorre entre os dedos...
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Um dos locais mais belos da zona, para mim, Maguelone.
Aqui, subindo escadas da catedral do século XI. Despojada, por isso ainda mais bela, localizada num emaranhado de lagoas e charnecas cujos trilhos não domino.
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2:36 AM
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E parecia aquele Tejo
este rio doirado
parecia até que tu vinhas
comigo a meu lado
ou seria das flores
e das matas cheirosas
das madressilvas dos frutos
das ervas babosas
E pareciam campinas
vales tão estendidos
pareciam mesmo os teus braços
que me abraçam cingidos
ou seria das silvas
do gengibre e benjoim
do cheiro daquela chuva
dos cacimbos enfim
porque haveria de ter
saudades tuas
ao longo de um claro rio
de água doce
E parecia verão
no imenso arvoredo
parecia até que dizias
qualquer coisa em segredo
ou seria dos dias
muito quedos sem fim
das noites muito melhor
assombradas assim
porque haveria de ter
saudades tuas
ao longo de um claro rio
de água doce
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Se nem na vida consigo pôr ordem nos acontecimentos, não haverá certamente motivo para aqui ir colocando com lógica cronológica Fausto e retalhos da história do país que abracei como também meu, porque precisamos por vezes dessa noção de pertença.
Trocando as voltas à Peregrinação e à Trágico-Marítima, começo pelo fim, por ser o único início possível, subindo o rio vou-me embrenhando nas matas até chegar ao planalto que primeiro aqueceu os meus pais, e também o músico já lá deve andar. Contar-nos-á certamente no próximo disco, se o próximo for o último da prometida trilogia, vem um em cada dez anos. É um gajo esperançado, o Fausto. Pelo menos acredita que viverá até lá.
"E tomou-se a boca do rio de S.Lourenço, achando por novas que numa povoação acima estavam alguns portugueses no resgate do marfim. E foi-se por ele, muito quietamente, entre margens povoadas de altas e espessas árvores que levam entretecidas os braços em formosa folhagem. E as matas de diversas cores cheiravam a tigres, onças, leões elefantes e gatos de algália. As flores em cachos amarelos fazem um suave rugido que aos três sentidos enche e farta. Cheirava a oregãos, fetos, agriões, poejos, malvas, alecrim... alecrim..."
p.s. A do gato de algália é excelente, convenhamos. Esperemos que hoje em dia o bicharoco seja conhecido por gato almiscareiro.
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Povoam profusamente estas lagoas, estes belíssimos animais equilibristas. Não migram, como os seus primos de outras paragens, nem mesmo quando o frio vem bem forte.
E se ele vem forte... há pouco de temperado nesta região, o frio é gélido, o calor abrasante e os Verões mais parecem a época das monções africanas.
Não nos deixemos enganar pelo porte altivo dos bicharocos. São mais simpáticos e acessíveis que os vizinhos humanos da zona.
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A palavra soa a coisa boa, mas não é o caso.
Neste momento, com tanta água caindo, as imensas lagoas que rodeiam o local onde me encontro lembram Veneza e Aveiro. E não, não sinto qualquer culpa na comparação. Entre Aveiro e Veneza, entenda-se...
São belíssimos os locais próximos, virão aí fotografias que os antecipam, mas convém passear de lenço tapando cavidades nasais.
E daí concluo que os flamingos não devem ter grande faro.
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And I dreamed I saw the bombers
Riding shotgun in the sky
And they were turning into butterflies
Above our nation
Para o título deste post podia ter roubado novamente ao Caetano - Beleza Pura.
Outras letras me chamam hoje com urgência, saio de fininho, deixando-vos a Joni Mitchell e esta coisa linda.
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10:47 AM
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Cá em casa até se benzeram quando ouviram isto, mas não há nada a fazer. Continuo a adorar Faith No More, até quando brincam com covers. Fica a faltar o tema do Midnight Cowboy tocado a harmónica.
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Seria Natal? Talvez. Tenho febre e sou alçada da cama com esforço,
-são horas, pinguim de água doce.
Não sei como me levam para aquele teatro, desconheço a peça, enredo ou a personagem que desempenho. Alguns diziam aos filhos que eramos os retornados, que vínhamos piorar a situação de crise, tirar empregos aos de cá, que se tinha acabado a nossa vida boa. Eu não sabia o que aqui fazia e não retornara de sítio algum, só queria deitar-me e que a mãe me envolvesse na manta e me pusesse panos frios na testa. Ao meu redor correm todos apressados, enfiam-me em collants infantis coloridas e pregam-me asas de borboleta. Picam-me com os alfinetes que prendem os apêndices e é pena que me doa, senão levantava voo dali para uma cidade quente e levava-a comigo,
-está quieta miúda, deixa pregar as asas,
Não sei onde entro na peça, vejo-me em palco maquinalmente, corrompendo aquele espaço sagrado que deve libertar, mas o corpo está quente e até asas de borboleta pesam. Ela está sentada à frente, nos primeiros fatos que protegem do frio, desconhecidos da sua pele branquíssima habituada à distância entre o morno da planície em que nasceu e ao escaldante da baía em que me pariu. Devo vê-la sorrir ao ver-me assim, o cabelo num coque como uma pequeníssima bailarina, e as asas esvoaçantes. Sorria por não saber que as asas me picavam.
Nas fotos que nos entregam está no seu fato invernoso, pensando na sua morna terra, talvez adivinhando que eu preferiria colocar à volta da cintura as franjas que usava quando era ainda mais pequena, e ensaiar um merengue. Mesmo que estivesse a arder em febre.
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Quando se aproximava a data de eleições, quaisquer que estas fossem, a avó fazia a sua costumeira visita à prima, imagem matriarcal na família, apesar de não ter sido mãe, mas suspeito que com afilhados pelos cinco continentes. Aquela senhora enorme, instalada num cadeirão respeitável, recebia ao longo do dia, tal Godfather, um séquito de gentes que lhe buscavam os conselhos, bençãos, ou amena cavaqueira acompanhada de merendas copiosas trazidas pela criada de tempos antigos, daquela que vive uma vida inteira na mesma casa, servindo as diferentes gerações da família. Hoje em dia a palavra é pouco agradável, mas era adequada, se bem que ali a senhora governa. estou certa que teria achado muito bem ser vista como governanta da casa.
Todas as tardes de escutava o terço pela rádio naquele lar tradicionalista. Até que vinha a avó, com o seu elogio ao comunismo, garantindo que o seu voto iria para os seus camaradas. Creio terem sido as únicas vezes em que assisti ao rosto daquela prima-avó encher-se num vermelhão nervoso, tal a urticária que a terminologia lhe causava, e ao pavor de ter na família uma vergonha daquelas. As facções políticas tinham um peso muito diferente então. Tão diferente que recordo, noutra parte da tribo, um amigo de família que se munia da caçadeira cada vez que Cunhal aparecia no écran a preto e branco. Assim foram dois aparelhos de televisão para a sucata, até a esposa se ter convencido que era melhor não voltar a investir na tecnologia, naqueles tempos conturbados de suposta instalação da democracia.
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E isto porque o som de um comentário do Discovery Civilization me fazia companhia ao tentar "trabalhar". Até ter chegado o nome do próximo programa aos tímpanos- Grandes Livros. Debruçam-se hoje, pelos vistos, no Coração das Trevas, que li no original, felizmente, há vários anos, e que me marcou de tal forma que me vou recusando a lá voltar.
O Conrad, esse nato polaco que só viria a aprender a língua na qual escreveu com mestria depois dos vinte anos de idade, e após ter balançado o corpo em navegações longas por mares revoltos, voltou-se para o mais tormentoso dos oceanos, que nos banha interiormente. O Coppola imaginou, suou e sangrou o seu magnífico Apocalypse Now a partir da viagem interior deste livro. No processo quis matar-se, quase acabou o casamento, o seu actor principal ia morrendo com um ataque cardíaco, foi à falência, arranjou problemas com governos de terras distantes, o da terra em que filmava, debatendo-se com a sua própria guerrilha, e o outro, que não achou grande piada ao recontar da pura loucura da guerra. E deu-nos um Kurtz que fica sempre connosco.
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Apenas
amor,
não me dês tanto não
uma vez ou outra
prende-me nos teus braços
e envolve-me na carícia morena e loira
do teu desejo
uma vez ou outra
esquecerei tudo
até as manhãs
em que nos vêm buscar
e não sabemos se voltamos
e se somos homens ou coisas
e se conhecemos o sentido natural do riso
e se é verdade ou mentira
os filhos a chamar
e a casa e a mulher
de olhos espantados de medo
nem um assomo de remorso despertando
amor
não me dês tanto não
só uma vez ou outra
prende-me nos teus braços em cruz
e envolve-me na carícia morena e loira
do teu amor
e na certeza de paz
do teu carinho.
uma vez ou outra
só uma vez
só uma vez ou outra
prende-me nos teus braços,
amor.
José Craveirinha
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No mar tormentoso do Chile vive o rosado congro, enguia gigante de nevada carne. E nas panelas chilenas, na costa, nasceu o caldillo grávido e suculento, proveitoso. Levam para a cozinha o congro esfolado, a sua manchada pele cede como uma luva e a descoberto fica então a uva do mar, o congro tenro reluz já nu, preparado para o nosso apetite. Agora pegas em alhos, acaricia primeiro esse marfim precioso, cheira a sua fragância iracunda, então deixa o alho picado cair com a cebola e o tomate, até que a cebola tenha cor de ouro. Entretanto cozem-se no vapor os reais camarões marinhos, e quando estiverem a chegar ao seu ponto, quando se consolidar o sabor num molho formado pelo suco do oceano e pela água clara que soltou a luz da cebola, então que entre o congro e mergulhe na glória, que na panela se aceite, se contraia e se impregne. Já só é necessário deixar no manjar cair o creme como uma rosa espessa e ao lume lentamente entregar o tesouro até que no caldillo se aqueçam as essências do Chile, e à mesa cheguem recém-casados os sabores do mar e da terra, para que nesse prato tu conheças o céu.
In Odes Elementares, de Pablo Neruda
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kanuthya
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1:40 PM
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O Zé avisa, logo no início. As referências são de tempos idos, as personagens hoje em dia têm nomes diferentes. Sem pedidos de desculpa a ouvidos mais sensíveis.
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9:12 PM
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Eis um dos meus músicos favoritos.
Em absoluto.
Absolutamente genial.
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Aguardo o momento de me espraiar, dando forma à palavra que compõe o verbo, ficar assim, na diagonal, revelando apenas o bocal, procurando ser visível para quem me saiba ver, pegar em mim e com cuidados maternais ou curiosidade infantil, sacar uma rolha que tenha sabido conservar-me do sal e do chão de água em que boiei durante todo este tempo.
Com as preocupações tolas próprias de uma mensagem engarrafada, receei que o vidro fizesse o papel de lupa, e que nos ares ardentes dos trópicos que me bafejaram, o papel enrolado desistisse de chegar ao areal e pegasse fogo, abandonando-se à justa lei física.
Cruzei-me com barracudas que me miraram com olhos de apetite, confundindo-me com presa, e receei por elas, não lhes querendo ferir a boca com os meus cacos de vidro; com congros nos mares do Chile, a quem desejei longa vida, se não fossem parar às mãos de algum poeta dado a artes gastronómicas; levei comigo uma estrela do mar, que me abraçou com suas ventosas, largando uma mão de vez em quando para acenar aos cavalos-marinhos que por nós passavam.
Na borrasca de um mar que se atrevem a chamar de Pacífico, veio-me o medo, o medo de que as ondas me levassem contra as pontas do recife, me quebrassem a pele, e ali jazeriam meus restos, os vidros permanecendo e reflectindo as cores surreais, o papel desfazendo-se, as palavras afogando-se nas águas menos mexidas do fundo, olhando para cima de vez em quando e vendo milhares de bolhas, numa revolução de águas zangadas.
Agora que penso nisso, seria honroso jazer numa tamanha profusão de coral, de peixes de cores impossíveis e anémonas brilhantes, aguardando as noites em que a lua incha até quase estourar, grávida de luz que me pareceria prata, ali, no fundo.
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Porque as palavras fogem daqui para outras páginas.
Porque sequer escrevo sobre a Ella ou como ela acompanhou o meu crescer.
Porque fujo para cá com pés de lã, na esperança que as outras personagens penduradas durmam ainda, e não se sintam abandonadas.
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- Les choses sont pas comme ça en France!
- Pois, filha, esse é um dos problemas.
Os fiéis leitores, parte deles silenciosos ( e fiéis por serem fiéis amigos :) ) questionam-se àcerca do estado mental que origina tão tolos posts. Não, não, não se preocupem. É defeito de origem mesmo. Esclarecidas las cositas, passemos a assuntos mais sérios.
Já tenho TV Cabo! Nunca fui grande espectadora de televisão, mas estou longe, porra, e, sobretudo, acabo de descobrir que afinal aqui têm mas é inveja de eu poder ver o Sai de Baixo, as entrevistas da Marília Gabriela, de ter colocado uma parabólica impossível de vislumbrar de qualquer ponto da residência, ameaçando iniciar uma revolta que transformaria estas casinhas numa plantação de champignons, que se espalharão rebeldes pelos telhados, por estar prestes a empestar o ar com um belo entrecosto assado (a sorte deles é não haver sardinhas frescas), e ainda por ter em cima da secretária um pacote meu, só meu, de bolachas Maria do Continente (não, não são da Triunfo, mas não sejamos picuinhas, sim?).
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